Como chegamos a polarizar até a nossa dor e quem paga o preço disso
Certa manhã, dois posts apareceram no meu feed com minutos de diferença. No primeiro, uma senhora escrevia com a convicção tranquila de quem nunca precisou de ajuda: “Depressão é frescura de gente que não trabalha e não tem Deus no coração.” No segundo, um jovem exibia seu laudo de TDAH como crachá de acesso: “Então não me cobrem prazos – meu cérebro funciona diferente e vocês precisam se adaptar.”
Dois posts. Dois abismos. E entre eles, em silêncio, as pessoas que realmente adoecem sem encontrar acolhimento num polo, nem movimento no outro. Apenas o fogo cruzado de quem ocupa as extremidades.
Polarizamos tudo. Seria ingênuo esperar que a dor escapasse. Mas quando a polarização chega à saúde mental, o custo é diferente – ela não apenas divide opiniões, ela impede tratamentos. Isola quem precisa de suporte. Protege quem precisa de movimento. E transforma um processo clínico que tem textura, direção e prognóstico num campo de batalha onde ninguém sai curado.
Por Que É Tão Difícil Habitar o Meio?
Antes de condenar qualquer polo, vale uma pergunta mais honesta: por que as pessoas não conseguem simplesmente caminhar pelo meio? Não é teimosia. Não é ignorância. É neurologia e é medo.
Daniel Kahneman descreveu dois sistemas de pensamento: um rápido, categórico, que ama a simplicidade do ou-ou; e outro lento, deliberado, capaz de sustentar a ambiguidade. O primeiro é o padrão. Classificar algo como fraqueza ou doença, real ou invenção, é cognitivamente mais barato do que sustentar a tensão do “depende”. A polarização não é defeito de caráter: é tendência do sistema nervoso.
Mas há algo além da neurologia. Vivemos numa cultura que cancela, que pune o erro com uma velocidade que não deixa espaço para a regeneração. Nesse ambiente, o autoexame genuíno – olhar para si com honestidade real, sem a plateia que valide o que você vai encontrar – se tornou um dos atos mais arriscados que existem. Porque o que você pode encontrar quando se olha de verdade pode ser exatamente o que você passou a vida inteira negando.
É aí que os polos nascem. Não apenas como posições intelectuais – como defesas psicológicas. Estar na extremidade é mais seguro do que estar no meio, porque o meio exige que você se examine. E examinar-se, de verdade, é o ato que nossa época menos tolera e mais necessita.
O Polo da Invalidação: o homem que aprendeu a não adoecer
“Roberto” não veio por conta própria. Veio porque mandaram. A esposa havia dado um ultimato depois de meses assistindo a um homem que não dormia, não ria, não estava – mas insistia que estava bem. Ele entrou no consultório com o terno abotoado, sentou-se ereto, cruzou as mãos sobre os joelhos com a rigidez de quem foi treinado a nunca ocupar espaço demais. Quando perguntei como estava, respondeu sem hesitar: “Funcional.” Era a palavra mais triste que eu ouviria naquela semana.
Roberto não acreditava no processo. Havia chegado com a sentença pronta: o que sentia era fraqueza, era questão moral, era algo que um homem de verdade resolve sozinho com trabalho e determinação. A terapia era, na melhor das hipóteses, uma concessão à fraqueza da esposa. Na pior, uma confirmação de que havia falhado.
O que Roberto vivia não era exceção. Era o produto previsível de uma construção cultural ensinada com precisão desde a infância. A masculinidade hegemônica não apenas proíbe o sofrimento – ela ergueu um sistema de vigilância interna que pune qualquer sinal de fragilidade antes que alguém de fora precise fazê-lo. O homem se torna o próprio carcereiro da sua dor. E a depressão, nesse contexto, não chega como tristeza. Chega como irritabilidade, como risco, como trabalho compulsivo, como silêncio que vai engrossando até que o corpo dá o recado que a mente enviava há anos.
A ferida de Roberto existia. Ele havia aprendido, com décadas de treinamento cultural, a não olhar para ela.
A Torre de Babel da Fé
No círculo de Roberto, a religião reforçava o silêncio. E aqui preciso ser cuidadoso e honesto: falo isso de dentro de uma fé, não de fora dela. A religião genuína sustenta o cuidado com o sofrimento humano. Os Salmos são, em grande parte, um diário de sofrimento psíquico. O próprio Jesus chora diante da morte de Lázaro – não como fraqueza, mas como expressão plena da humanidade.
Os textos sagrados que são invocados para invalidar a depressão raramente autorizam essa leitura quando lidos com atenção. O que adoece não é a fé. É a projeção disfarçada de fé. Quando alguém diz “isso é falta de Deus” diante de uma depressão clínica, não está citando um versículo – está projetando sua própria intolerância à fragilidade num vocabulário sagrado que não autoriza essa leitura. É a Torre de Babel: pessoas diante do mesmo texto, falando línguas que ele nunca disse. A angústia pessoal de quem lê, buscando no sagrado uma armadura para o que não consegue suportar em si mesmo.
O Polo da Rendição: a Omissão do Eu
“Camila” chegou com uma pasta organizada. Dois laudos de ansiedade generalizada, um de TDAH, relatórios de três psicólogos anteriores. Era inteligente, articulada, e havia construído ao longo dos anos uma identidade completamente ancorada no adoecimento. O diagnóstico era real – documentado, clinicamente justificado. Mas havia migrado de mapa para destino.
Prazos no trabalho eram incompatíveis com sua condição. O parceiro não entendia sua ansiedade. A família não acolhia suas necessidades. Em todas as narrativas, o diagnóstico era o ponto final – uma sentença que encerrava qualquer reflexão sobre o próprio papel nas situações. “Sou assim porque sou ansiosa.” “Não consigo porque tenho TDAH.” “Não vai mudar – é quem eu sou.”
Existe um fenômeno que observo com frequência crescente na clínica, e que me arrisco a nomear: a Omissão do Eu. É o movimento de tornar-se passivo à própria responsabilidade – de virar, inteiramente, produto de uma circunstância. A Omissão do Eu não é a aceitação saudável de um diagnóstico. É a abdicação de si mesmo dentro dele. E o que a torna tão difícil de identificar é que ela se parece, por fora, com autoconhecimento.
A ferida de Camila também existia. Ela havia aprendido, ao longo do tempo, a morar dentro dela – como se a ferida fosse a casa, e não a condição que precisava de cuidado.
O Que Roberto e Camila Têm em Comum
Os dois polos parecem opostos e são, na superfície. Roberto nega. Camila se rende. Um foge da ferida. A outra a usa como fortaleza. Mas produzem exatamente o mesmo resultado: ninguém se move.
E silenciam o mesmo grupo: quem genuinamente adoece e precisa de cuidado. Quem sofre de verdade fica sem chão nos dois lados. Enfrenta o ceticismo de quem acha que está inventando e a desconfiança de quem acha que está usando a dor como escudo. E o processo clínico que exige confiança, continuidade e ambiente seguro se torna exponencialmente mais difícil.
A polarização não é apenas um problema de opinião. É um problema de saúde pública. Ela impede tratamentos, aprofunda cronicidades, e transforma a dor legítima em campo de batalha ideológico onde o único perdedor é quem está sofrendo.
Nomeamos os dois polos. Vimos seus rostos clínicos. Entendemos, ao menos em parte, como chegamos aqui. Mas resta uma pergunta que esta coluna não responde – e que seria desonesto fingir que responde.
Se os dois polos são tão destrutivos, tão visíveis, tão documentados – por que as pessoas não simplesmente saem deles? Por que Roberto ficou três anos adoecendo antes de atravessar aquela porta? Por que Camila construiu uma identidade inteira em torno da impossibilidade de mudar?
A resposta não está na falta de informação. Está num lugar que a maioria de nós evita visitar e que tem um nome simples e um custo alto. Na próxima coluna, vamos nos sentar diante desse lugar.
Referências Científicas
- Addis, M. E., & Mahalik, J. R. (2003). Men, masculinity, and the contexts of help seeking. American Psychologist, 58(1), 5-14.
- American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-5-TR). Washington, DC: APA.
- Corrigan, P. W. (2004). How stigma interferes with mental health care. American Psychologist, 59(7), 614-625.
- Fishbain, D. A., et al. (1995). Secondary gain concept: a review of the scientific evidence. The Clinical Journal of Pain, 11(1), 6-21.
- Freud, S. (1926). Inibição, Sintoma e Angústia. Obras Completas, vol. XX. Rio de Janeiro: Imago.
Haslam, N. (2016). Concept creep: Psychology’s expanding concepts of harm and pathology. Psychological Inquiry, 27(1), 1-17. - Kahneman, D. (2011). Thinking, Fast and Slow. New York: Farrar, Straus and Giroux.
Möller-Leimkühler, A. M. (2002). Barriers to help-seeking by men. Journal of Affective Disorders, 71(1-3), 1-9. - Nestler, E. J., et al. (2002). Neurobiology of depression. Neuron, 34(1), 13-25.
World Health Organization. (2023). Depressive disorder: Key facts. Geneva: WHO.







