Crítica: Ayla e o Marmelo

Se você acha que teatro de bonecos é coisa apenas para quem ainda não perdeu os dentes de leite, sinto informar: sua criança interior deve estar trancada no quartinho da bagunça, precisando desesperadamente de uma chave chamada ludicidade. Como diria o psiquiatra Augusto Cury, precisamos libertar nossa “criança alegre”. Já Jung reforçava que resgatar essa essência transforma alegrias em memórias eternas. 

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E foi com esse espírito de “terapia do brincar” (ou ludoterapia, para os aficionados nos termos acadêmicos) que atravessei as portas do Palácio da Cultura Sônia Cabral. Mas, ao chegar, uma surpresa: em vez de um mar de lancheiras, mamadeiras e gritinhos, dei de cara com uma plateia predominantemente adulta e até muitos idosos. Parecia que o jacaré capixaba tinha mais fãs na terceira idade do que no TikTok! Até me fez repensar se o espetáculo era mesmo infantil. Eram uma média alta de pessoas de 25 a 60 anos. E as crianças que estavam presentes, pareciam ter em média 2 a 3 anos… Eu fiquei pensando, se elas entenderam a mensagem por trás ou só ficaram (leia a seguir com a voz de um pai babão falando com o filho de menos de 3 anos) “olha lá filho, um jacaré… jacaré, né! Jacaré….”. Mas, em contraponto, a ansiedade nos rostos maduros provava que o teatro de animação, quando bem-feito, não tem idade de CPF.

Ao entrar, o clima já nos transporta. Uma névoa artística no ar, (típico de um pântano), um farolzinho aconchegante e uma trilha sonora intimista preparavam o terreno para o fantástico. Mas, quando se trata de crianças, a demora para iniciar, deixou as poucas crianças inquietas, e os pais mais ainda, pois criança impaciente gera adulto impaciente, e 18 minutos no tempo “infantil” equivale a três eras glaciais. Mas, quando as luzes finalmente baixaram, fomos apresentados a uma proposta técnica: 6 atores para manipular de 4 a 8 bonecos. Aqui, o Grupo Árvore não brinca em serviço (ou melhor, brinca com muita técnica). Eles utilizam a manipulação direta de mesa, mas com um tempero contemporâneo: o manipulador não se esconde. Ele é um “ator-manipulador”, que dialoga com o objeto, quebrando a quarta parede e convidando a gente a completar o jogo teatral.

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“A função do manipulador é ampliada. Ele aparece em cena como ator-manipulador, dialogando diretamente com os personagens”, explica o diretor Wyller Villaças. 

É o metateatro chegando de mansinho na Lagoa do Juara. A trama, baseada no livro de Duílio Kuster Cid, é um soco de sensibilidade no estômago da xenofobia. Ayla, uma menina refugiada da Turquia, chega ao Espírito Santo fugindo de conflitos e encontra no jacaré que ela apelida Marmelo (nome de um doce Turco que ela adorava em seu país) morador da Lagoa do Juara, seu porto seguro.

O Grupo Árvore consegue problematizar o conflito entre homem e natureza sem ser panfletário. Como dizia Paulo Freire: “A educação precisa dialogar com a realidade para formar cidadãos críticos”. E o teatro infantil é, talvez, a ferramenta pedagógica mais potente que temos.

Foto: Daniel Bones

Alguns momentos são soltos que a personagem fará aulas de “arco e flecha”, ou a expressão “meio” ou até mesmo os objetos de chapéus. Eu fiquei com isso na cabeça (não apenas os chapéus, mas, os itens soltos), pensando em que tempo se passa? Como arco flecha faz sentido para a trama? E houve outras palavras aparentemente “soltas” que de certa foram “explicadas”. A montagem flerta com o Teatro do Absurdo. Sabe aquela sensação de que a comunicação humana faliu? Como em “A Cantora Careca” do dramaturgo romeno-francês Eugène Ionesco, onde as palavras parecem soltas? Em “Ayla e Marmelo“, isso é usado para mostrar que, para quem realmente quer se conectar, a língua é o de menos. É a Comunicação Não-Verbal dando um show Ayla e Marmelo provam que empatia não precisa de dicionário. Quando duas pessoas realmente desejam se comunicar, elas tendem a encontrar meios, seja através de gestos, expressões faciais, empatia ou linguagem não-verbal. A linguagem corporal, o tom de voz e a expressão facial costumam transmitir mais do que as palavras faladas.  Inclusive, essa é para mim a mensagem principal e mais recorrente do espetáculo, pois Ayla “fala” com o jacaré, a família de Ayla são turcos que não falam o português, e de certa forma conseguem se comunicar com os donos do restaurante. Porque se você quer se comunicar, você acha sim uma maneira. Então se eu quero me comunicar com um Jacaré ou com alguém que não fala a mesma língua, eu arrumo uma forma. Ah, o arco e flecha apareceu nos momentos finais, então fechou o ciclo, apesar de eu não entender quem foi que atirou… Se eu pudesse especular, diria que foi a Dona do Restaurante.

Ainda falando de “Comunicação”, uma mensagem boa que me impactou foi a que mesmo as pessoas mais antigas de uma determinada região, que está ali faz um bom tempo, os novos moradores assumem achando que são donos da terra, e, os mais antigos, são tratados como estrangeiros. O espetáculo traz essa reflexão poderosa sobre pertencimento, onde se vê aquela política do “Dono da Terra”. Em um mundo com mais de 100 milhões de refugiados (segundo a ACNUR), ver Ayla sendo tratada como “estranha” por quem chegou ontem na terra dela é um espelho da nossa história. É o drama dos indígenas de 1500 repetido em loop. 

A cenografia é criativa: tapetes viram aviões e chapéus brancos tornam-se “extensões” dos atores para os bonecos. Porém, preciso pontuar: no momento da cena subaquática, a iluminação misturou um amarelo forte com o azul. Perdi um pouco da imersão marinha ali. Sendo que era para representar que os personagens estavam nadando no fundo do mar, então a luz seria, talvez, toda azul, e não uma amarelo junto ao azul. No fundo do mar, queremos o azul profundo, aquele que faz a gente prender o fôlego, um azul que traria a simplicidade e leveza que a cena pedia.

Foto: Daniel Bones

O teatro popular vive do agora. Como as falas eram um “áudio era gravado previamente” e não interpretado pelos atores em cena, havia poucos momentos de improvisos para os atores com os bonecos em cena. Então houve momentos em que o improviso tomou conta, e é aí que o artista brilha, entre dança, brincadeiras, interações com o público, gags, expressões exacerbadas, entre outros. Ali era o momento de o ator mostrar que não estava ali apenas para “mexer as pernas do boneco” (mas, com isso não quero dizer que fazer essa função é fácil ou indigna, pelo contrário). No palco, o improviso serviu para encurtar a distância entre o drama da refugiada e a risada da criança na primeira fila. O que tem haver? É simples: o riso desarma a resistência para que a mensagem séria entre sem pedir licença. 

A meu ver, eu não li o livro, sei pela história do espetáculo, eu senti falta de uma interação mais bem resolvida entre os personagens “protagonistas” da história, sim, os que dão nome ao título, Ayla e Marmelo. Pois eles se encontram, Ayla dá o nome ao jacaré, eles nadam, e logo em seguida, Marmelo já passa o perigo (não vou dar spoilers). Mas, eu senti falta de mais momentos dos dois juntos para dar uma crescente importância e sentirmos mais a conexão entre eles e dar mais sentimento no clímax final.

E pensando que eu estava tentando me manter imerso ao “mundo infantil”, haviam alguns momentos que fiquei estranho, quando um personagem, José Jacaré, (ficou um pouco confuso isso também de o nome de ser o que ele “mata”) aparece armado com um jacaré amarrado, a luz que bate, me parece que o jacaré estava morto, (não foi só viagem minhas, outras pessoas ao meu lado pensaram o mesmo), fiquei falando para mim mesmo que “eles não vão fazer isso, é um espetáculo infantil”. Mas, por sorte, às vezes um ator ia dar uma mexida no jacaré para tentar mostrar sua vivacidade. 

O espetáculo tem várias versões e variações de técnicas teatrais, no final até o teatro de sombras foi lembrado, e em momento bem oportuno, pois, para a cena não ser “gráfica” de uma flecha acertando um “ser-humano”, as sombras foram bem usadas para dar a dramaticidade do momento.

“Ayla e Marmelo” não é apenas uma “pecinha de bonecos”. É um registro histórico-social da nossa capacidade (ou falta dela) de acolher o diferente. Saí do Sônia Cabral pensando: será que somos os donos da lagoa ou apenas visitantes mal-educados? Na minha opinião, acredito que quem chega depois se acha dono, quem já estava vira intruso e o ciclo gira como roda de samba mal resolvida, em Ayla e Marmelo, a Lagoa de Juara é o nosso território, o Jacaré Marmelo é o Nativo, Ayla e sua família são os deslocados. E aí não é sobre geografia, é comportamento. A filosofia vai além de uma interação entre o homem e a natureza, é mais sobre como nos comportamos a cada momento de nossa vida, é mais que uma história de amizade entre humanos e animais, é mais profundo que isso. Não somos donos da lagoa, somos hóspedes sem memória e parece que às vezes chegamos pisando forte demais num chão que já tinha história.

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Daniel Bones
Daniel Bones
Sou o "Severino do Audiovisual Capixaba", já atuei em diversas áreas como fotografia, edição, sou ator, compositor, produtor e diretor de filmes e TV. Gosto de contar histórias. Ponto Final. (...) Aqui, minha coluna é cultural, mas vive com uma dor postural. Eventos, Arte, Cultura, Cinema e Teatro são comigo aqui! Se quiser, siga essa doideira ai!

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