Patrimonialização do antigo hospital Pedro Fontes em Cariacica

Patrimonialização e reparação do antigo hospital Pedro Fontes em Cariacica-ES: a luta pelo dever de memória dos sujeitos periféricos da saúde

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Tratava-se de uma população estigmatizada pelo acaso ou pela ideia de punição divina. Era sob esse prisma que autoridades, cidadãos comuns e intelectuais concebiam aqueles acometidos por tal chaga. A estratégia secular para enfrentar o enigma dessa condição foi o isolamento social e a exclusão territorial, moral e simbólica. Exilados de seus núcleos familiares e círculos afetivos, esses indivíduos eram submetidos a um apartheid sanitário à espera de uma cura perenemente ausente, revivendo o arquétipo do calvário cristão: a experiência da repulsa e do medo.

Com o transcorrer do tempo, a despeito das mutações nos saberes, nas técnicas e nas tecnologias, perpetuaram-se a estigmatização, a deterioração da identidade pessoal e social, bem como o internamento compulsório. Essa experiência traumática, indissociável da violência institucional e de saberes médicos que objetificavam o sujeito e lhe negavam a humanidade, não impediu que, no confinamento imposto, esses indivíduos buscassem agência. Tentavam garantir liberdade, autonomia e equidade nos detalhes cotidianos — amiúde subestimados por autoridades que priorizavam a tutela, o mando e a vigilância.

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Essa trajetória de violação de direitos fundamentais, persistente inclusive em sociedades ocidentais que os engendraram, manteve-se legitimada pelo discurso científico durante décadas. Sua desconstrução é recente, fruto de anos de lutas, resistência e contestação política. Pesquisadores de relevo, no âmbito global e nacional — com destaque para a historiografia do Espírito Santo —, dedicaram-se a investigar esse exílio compulsório. Analisaram a “carimbação” social como estratégia de controle, convertendo o sujeito em símbolo de perigo e ameaça à ordem pública e à moralidade vigente. Todavia, tal cenário suscita uma questão premente: como gerir as memórias e a materialidade de uma longa história de privação de direitos e de humanidade?

Se parte da sociedade e das instituições negligenciou tais demandas em prol de uma reconciliação ou anistia institucional, para os sobreviventes e seus descendentes — herdeiros dessa violência estatal — a luta persiste. É uma busca por reparações materiais e imateriais, bem como pela restituição simbólica face à imposição de uma identidade ultrajante e simplificada. Em escala global, observa-se uma marcha contínua em busca de reparações e pedidos oficiais de desculpas. Contudo, há escasso suporte social para essas demandas políticas, que frequentemente acabam reduzidas a meras compensações pecuniárias.

As políticas de memória enfrentam óbices multidimensionais — políticos, religiosos e econômicos — na preservação da territorialidade e de sua materialidade. Trata-se do que Milton Santos denomina “rugosidades”: marcas do passado que o poder tentou sequestrar sob o pretexto da cura e da salvação pública, frequentemente revestidas de matizes teológicos. O desafio prolonga a disputa pelo “dever de memória” em diversas instâncias da vida social, perpassando os campos intelectual, artístico, jornalístico, médico e jurídico.

Crédito: Leonardo Sá

Esta controvérsia não se restringe a cenários distantes. No Espírito Santo, um coletivo de atingidos, amparado por assistência jurídica e movimentos sociais, resiste à demolição de suas residências. Lutam contra interesses econômicos que negligenciam a relevância histórica da manutenção da territorialidade relacionada à memória da Hanseníase. Esta é a história que se descortina: uma memória da qual somos partícipes e que não podemos permitir que se apague, sob o risco de reiterarmos violações espaciais e humanas.

Os sobreviventes do Hospital Pedro Fontes urgem por uma decisão das autoridades antes que seu patrimônio material se converta em poeira e sua história se restrinja à oralidade. A patrimonialização transcende o ato de narrar histórias ou fortalecer laços de pertencimento. Ela representa a oportunidade para que o Estado, o mercado e as instituições científicas prestem contas de suas ações. Caminha-se, assim, para uma autoconsciência ética e para um agir responsável, capaz de produzir memória crítica acerca do autoritarismo institucional e seus efeitos deletérios.

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Igor Vitorino da Silva
Igor Vitorino da Silva
Professor, historiador e mestre em História pelo Programa de Pós-Graduação em História pela Universidade Federal do Paraná (/PPHIS/UFPR). Pesquisador Associado Externo do LHIPI – UFES e do LHIPU – IFES/Campus Vitória-ES

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