Há cerca de duas semanas, a Ministra Cármen Lúcia, em um discurso contundente, proferiu uma frase que ecoou profundamente em mim: “Parem de nos matar”. Embora vivamos diariamente a realidade de uma endemia de feminicídios e violências de gênero em suas mais variadas formas, ouvir esse apelo vindo de uma das instâncias mais altas do Judiciário teve um impacto avassalador.
Infelizmente, os fatos que se seguiram apenas reforçaram a urgência desse grito. Dois casos recentes chamaram a atenção pela brutalidade e pelas semelhanças institucionais: o assassinato de uma policial militar por seu marido, também tenente da corporação, e o feminicídio de Dayse, Chefe da Guarda Municipal de Vitória.
O Perigo Dentro da Farda
Um ponto crucial levantado pela Coordenadora do FORDAN UFES: Cultura no enfrentamento às violências – Rosely Pires, é a origem desses agressores. Ambos eram homens inseridos em corporações de segurança, detentores de treinamento específico para matar e, fundamentalmente, de armas fornecidas pelo Estado.
No caso de Diego, assassino de Dayse, o agravante é ainda mais revoltante: ele já respondia a processo por importunação sexual e, segundo apurações, estava prestes a ser condenado e afastado. Isso nos obriga a questionar:
* Qual é a formação humana dada a esses homens dentro das forças de segurança?
* Onde está o acompanhamento psicológico preventivo e rigoroso?
* Qual é a punição real para atos abusivos “menores” antes que eles escalem para o crime fatal?
A Farsa e a Premeditação
A violência não termina no disparo. No caso da policial morta pelo tenente, houve a tentativa sórdida de forjar uma cena de suicídio. A estratégia é antiga e cruel: tentar invalidar a vítima, pintando-a como “louca”, “desequilibrada” ou “depressiva” para justificar o injustificável.
Já no caso de Dayse, a premeditação foi explícita. O agressor invadiu a residência com um kit preparado para qualquer imprevisto — se não a matasse com a arma da corporação, o faria com fogo, pois levava álcool e isqueiro. Ele seguiu à risca a trágica cartilha do possessivo: “Se não for minha, não será de mais ninguém”.
O Silêncio das Mulheres de Ferro
Dayse ocupava um cargo de extrema relevância, à frente de uma Guarda Municipal em um ambiente político sabidamente machista e misógino. No dia de sua morte, ela postava sobre empoderamento feminino. É doloroso imaginar a batalha interna de uma mulher que está na “ponta da lança” do enfrentamento à violência, mas que se vê vítima dela em sua esfera privada.
O relato de que ela não acreditava que ele chegaria a tal ponto é o mal que aflige muitas de nós. Nós acreditamos na humanidade de quem amamos, mas precisamos entender: eles são capazes de matar. E, por isso, precisam ser denunciados.
Resistência contra o Acobertamento
Até quando as corporações fingirão que nada está acontecendo? Não se trata apenas de combater a corrupção ou o abuso de poder externo, mas de acabar com o acobertamento interno das violências cometidas contra as esposas de policiais e contra as próprias mulheres que vestem a farda e sofrem preconceito dentro dos quartéis.
Encerro esta reflexão retomando a frase citada pela Ministra Cármen Lúcia: Parem de nos matar. E acrescento o compromisso que nos mantém em pé: “Nós, mulheres, decidimos que não vamos morrer!”







