Guerrilheiros, pelo senso comum, são associados ao terrorismo, à ruptura da ordem estabelecida e a uma rebeldia incompreendida pelas massas. Porém, quando fugimos da visão superficial, percebemos que guerrilheiros são pessoas com senso apurado de justiça, que, movidos pela revolta contra injustiças históricas, se insurgem.
Nessa perspectiva podemos claramente dizer que as pessoas LGBTs em stonnewell, no ano de 1969 foram guerrilheiras! Afinal, aqueles homens e mulheres uniram-se e responderam à violência do estado pelo DIREITO de ser e existir!
Mandela, Gandhi, Marighella, Che Guevara e tantos “guerrilheiros”, moveram-se por um instinto comum entre eles: o senso coletivo de justiça social. Ao longo da minha existência sempre ouvi coisas como: “não fale”, “não discuta política“, “deixa isso para lá”, etc.
Porém, avaliando a minha trajetória seria uma imensa irresponsabilidade ficar calado.
Em Ecoporanga, terra que nasci, cresci em meio a pequenos produtores rurais e senti na pele as dores de um estado ausente, afinal, vivi o auge do neoliberalismo na década de 1990 e fui vítima do rolo compressor que levou milhões às favelas e à miséria. Meu avô Pedro Costa, um pequeno produtor rural, sempre esteve ao lado das lutas pelos mais pobres. Ele, um homem que carregava a essência Católica: universal, caridoso e empático, vivia a doutrina do Cristo verdadeiro, aquele que multiplicava o pão, curava os feridos e abraçava os excluídos!
O Jesus do vô era bem diferente desse Jesus fake que está na boca de homicidas, criminosos, golpistas e canalhas que se escondem por traz da bíblia e de templos luxuosos! Meu avô nos ensinou que todos, como ele, deveriam ter um pedaço de terra para cultivar e viver e por isso, ele era um apoiador importante do Movimento dos Sem Terra (MST). Meu tio Pedro Costa Filho, após 5 anos como seminarista, desistiu de servir a igreja Católica e se casou, tornou-se professor de filosofia, vereador e prefeito de Ecoporanga, pelo Partido dos Trabalhadores (PT).
Foi o tio Pedro a grande luz que estimulou a minha mãe a concluir o magistério e inspirou meu tio Everaldo Costa a migrar para a capital e estudar na UFES. Foi o meu tio Everaldo que deu a oportunidade aos irmãos e sobrinhos de viverem sob sua tutela até serem aprovados na Federal ou, mais tarde, no PROUNI. No próximo mês assistirei orgulhosamente a minha prima que carreguei no colo se formando em direito, a primeira advogada da família!
Eu graduado e mestre em geografia, minha irmã, policial militar e educadora física. Primos e tios formados e concursados nas mais diversas áreas. Eu, o rebelde, virei empreendedor, mas, o amor e o respeito da minha enorme, humana e justa família, eu sempre tive!
Então como seria possível me tornar um alienado, se Deus me deu a sorte de nascer na Família Soares e Costa?
Como poderia eu, deixar de falar de justiça social se a minha existência é fruto das pequenas oportunidades que o estado brasileiro me abriu?
Como guardar o silêncio se ainda há milhões de brasileiros inteligentes e talentosos vivendo em miséria, isolamento e descaso? Como banalizar a gritante desigualdade social e o fato de que o 1% mais rico detém, sozinho, 48% de toda a riqueza do planeta?
Neste processo, me tornei um guerrilheiro por consequência! As inspirações que eu tive assistindo meus familiares me mostraram que o silêncio não é opção! Foi fazendo barulho que venci a homofobia na infância e adolescência, aos 17 gritei para o mundo: “sou gay sim e sua opinião sobre mim não interessa!”.
Foi estudando, trabalhando e aproveitando as frestas das janelas abertas que me graduei, pós graduei, mestrei e construí um restaurante de sucesso. Portanto, nem todo silêncio vale a pena! O barulho, quando usado em prol da dignidade humana, é pedagógico!
Escolher bem as nossas guerras é maturidade! E as vezes o silêncio é palavra! Os alienados berram contra a igualdade, contra a fraternidade, contra os direitos civis e sociais mais básicos, os lúcidos e justos bradam por valores verdadeiros!
Os alienados praticam a barbárie, defendem a tortura, querem a morte de gays, negros e acham que mulheres merecem ser violentadas por qualquer motivo que os homens julgarem “imoral”. Os alienados desprezam a história, odeiam a arte, abominam a leitura. Usam suas mãos, bocas e vozes para padir por ditaduras! Acham que é liberdade demais o gay se casar, o negro ser médico, a mulher ser piloto de avião, a travesti ser deputada!
Os guerrilheiros não, esses sabem que a vida é curta, por isso lutam por momentos doces!
Querem ver os mais pobres tendo acesso a uma mesa farta, a natureza equilibrada, a paz de ter ao lado aqueles que vibram na frequência dos que sabem que luxo não vale mais que um abraço, uma prosa, uma casa cheia de afetos e conversas enriquecedoras! Querem crianças nas escolas, praças e parques, longe das telas, dos abusadores e agressores e perto daqueles que as amam e mantém seguras, independente do lar ser formado por dois homens, duas mulheres, ou um homem e uma mulher!
Portanto, responsabilidade pede posicionamento e clareza nos nossos ideais, pede trabalho, ética, postura, transparência e coragem!
Esses valores estão em escassez! Em uma sociedade onde o afeto virou mercadoria e as relações são cada vez mais atreladas ao consumo, onde a troca é inviável e aquele que não é “útil” e “produtivo” é desprezado pelo sistema!
NÃO é por acaso que tanto se vê falar sobre o comportamento narcísico. Visto que o narcisismo é um transtorno de personalidade que caracteriza uma completa falta de empatia e se vale do egoísmo como instrumento motivacional, NÃO é de se admirar que esteja em voga, uma vez que a coletividade e sociabilidade encontram-se em decadência.
Em uma sociedade de consumo exagerado, onde a competitividade tóxica é posta como caminho para se ter status, vemos a falência ética e do afeto e adoecimento mental e físico em larga escala.
Portanto, ser guerrilheiro é estar na contramão de toda essa superficialidade.
Ir a um bar e ter um diálogo longo e profundo; passar um dia silencioso imerso na natureza e em silêncio; reformar a mobília, a roupa e o sapato rasgado; jogar cartas; dominó; uno; montar quebra cabeças; fazer colagens; ir à exposições; valorizar os artistas e ter amor próprio, são alguns exemplos do que entendo como “técnicas de guerrilha urbana”.
Mais que isso, sobreviver como empreendedor em um restaurante grande e complexo no Centro de Vitória, também é um ato revolucionário.
Sobre a minha trajetória e as guerras que enfrento por aqui, deixarei para contar algumas histórias na próxima coluna, até lá!







