O Frankenstein que Há em Mim

A criatura que nenhum criador quis nomear e o que isso tem a ver com você

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Era uma noite de novembro, e eu contemplava o resultado da minha
labuta. Com uma ansiedade quase doentia, animei a argila inerte que
jazia a meus pés. E então ele abriu os olhos aquosos e amarelos.

Com essas palavras, Mary Shelley nos presenteou, em 1818, com uma das criaturas mais perturbadoras e ao mesmo tempo mais humanas da literatura ocidental.
Frankenstein ou o Prometeu Moderno não é, como muitos imaginam, o nome do monstro. É o nome do criador. O ser que ele forjou de pedaços de cadáveres e animou com o fogo da ciência jamais recebeu um nome. E talvez seja justamente aí, nessa ausência de nome, que reside o seu maior tormento e a nossa maior identificação com ele.

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A criatura de Shelley nasce do nada e acorda no meio de tudo. Tem oito pés de altura, pele translúcida que deixa à mostra os músculos e as veias, olhos que causam repulsa imediata. Não é um ser maligno por natureza aprende a linguagem observando uma família em segredo, lê os clássicos da filosofia, sente compaixão, amor, saudade. Deseja acima de tudo pertencer.

Mas o mundo não o deixa. Cada vez que se aproxima de alguém, é expulso com horror e violência. Crianças fogem. Homens o atacam. O próprio criador aquele que deveria ser seu pai, seu âncora, seu lar ao vê-lo respirar pela primeira vez, foge aterrorizado. Abandona a criatura na escuridão, sem explicação, sem nome, sem afeto.

Eu era benevolente e bom; a miséria me fez um demônio. Torna-me
feliz, e serei virtuoso novamente.

A frase é da própria criatura, dirigida ao doutor Frankenstein. E ela carrega uma verdade psicológica devastadora: não nascemos desajustados. Nos tornamos.

A Ferida do Olhar: quando o espelho nos deforma

A psicologia do desenvolvimento nos ensina que a identidade se constrói no espelho do outro. O psicanalista Donald Winnicott afirmava que o rosto da mãe é o primeiro espelho que uma criança encontra e o que ela vê refletido nesse rosto começa a moldar quem ela acredita ser.

Quando esse espelho devolve horror, rejeição, indiferença ou vergonha, algo se quebra por dentro. A criança ou o adulto que um dia foi criança aprende que há algo fundamentalmente errado consigo. Não com o que fez, mas com o que é. E isso é diferente de sentir culpa: é sentir vergonha. Uma distinção crucial.

A vergonha patológica estudada amplamente por pesquisadores como June Price Tangney e Brené Brown não diz “eu fiz algo ruim”. Ela diz “eu sou algo ruim”. É uma condenação do ser, não do ato. E ela nasce, quase sempre, de um olhar externo que veio antes de qualquer autoconhecimento.

A criatura de Frankenstein viveu isso em sua forma mais crua. Antes de qualquer escolha, antes de qualquer ação, ela já era o monstro no olhar de quem a via. E ao internalizá-lo ao ver a própria imagem pela primeira vez refletida em um lago e recuar com horror compreendemos que o monstro não estava no corpo. Estava no espelho que o mundo foi para ela.

O Pai que Fugiu: abandono, vínculo e a dor da origem

Há algo ainda mais sombrio na narrativa de Shelley do que a rejeição do mundo: o abandono do criador. O doutor Victor Frankenstein passa anos obcecado com o projeto de criar vida. E no momento em que consegue no instante em que a criatura abre os olhos, a reação é o pânico e a fuga.

Do ponto de vista da psicologia do apego, essa cena é a de um trauma de abandono em sua forma primordial. John Bowlby, ao desenvolver a teoria do apego, demonstrou que o ser humano necessita, desde o nascimento, de uma figura de vínculo seguro alguém que diga, com presença e constância: “você pode existir, e eu estarei aqui”. Quando essa figura falha, especialmente de maneira abrupta e inexplicável, o indivíduo desenvolve o que Bowlby chamou de apego inseguro, com consequências que se estendem por toda a vida.

A criatura não recebe sequer uma palavra. O criador vai embora. E ela acorda no mundo sem mapa, sem nome, sem ninguém. Como tantas pessoas que crescem sob o peso de pais emocionalmente ausentes, abusivos, ou simplesmente incapazes de oferecer aquilo que foi prometido apenas pelo ato de gerar uma vida.

Maldito criador! Por que formaste um monstro tão hediondo que até
tu mesmo te afastaste de mim com horror?

Essa pergunta não é apenas da criatura. É de todo adulto que carregou uma infância em que o amor foi condicionado, retirado ou nunca chegou. A raiva que emerge daí não é maldade: é dor. É a dor legítima de quem foi abandonado no momento mais vulnerável de sua existência.

A Criatura que Existe Hoje: quem são os sem nome do nosso tempo

Não é preciso ter oito pés ou pele translúcida para se sentir a criatura. Basta ter um corpo que não se encaixa no padrão, uma mente que funciona diferente, uma história que não cabe nos moldes, uma sensibilidade que parece excessiva demais para o mundo que a cerca.

Pense no adolescente neurodivergente que tenta, repetidamente, entrar em um grupo na escola e é ignorado não por malícia, mas por simplesmente não operar na mesma frequência dos outros. Pense no adulto que vive com ansiedade social severa e que, em cada reunião de trabalho, sente que todos perceberam que ele não deveria estar ali. Pense em quem abre as redes sociais e enxerga, nos feeds curados de vidas aparentemente perfeitas, a prova de que existe uma festa que nunca recebeu convite
para entrar.

A pesquisadora de exclusão social Kipling Williams identificou, em décadas de estudos, que o ostracismo a experiência de ser ignorado ou excluído ativa as mesmas regiões cerebrais que a dor física. Ser rejeitado pelo grupo dói literalmente. E para aqueles que vivem essa experiência de forma crônica seja por neurodivergência, por orientação afetiva, por aparência, por origem socioeconômica, por qualquer marca que os tornasse “diferentes”, a dor não é episódica. É constante.

O ambiente digital potencializou isso de maneiras que Mary Shelley não poderia imaginar. As redes sociais criaram uma nova forma de ostracismo público e silencioso: a mensagem não respondida, o stories visto sem reação, a foto com poucas curtidas, o comentário ignorado. São pequenas rejeições que, isoladas, parecem fúteis mas que se acumulam com a precisão cruel de gotas formando um
oceano.

A psicologia clínica reconhece um conjunto de padrões que emergem dessa experiência crônica: o isolamento como autoproteção, a dificuldade em estabelecer vínculos seguros, a hipersensibilidade à rejeição, a crença central de que há algo errado com quem se é. Não é fraqueza. É uma resposta adaptativa a um ambiente que ensinou que existir da forma que se existe é perigoso.

A criatura de Shelley nos dá um retrato devastadoramente preciso disso. Ela não começa violenta. Ela começa curiosa, gentil, esperançosa. E vai sendo moldada para a destruição por cada rejeição que experimenta, por cada porta que se fecha, por cada mão que se levanta contra ela antes que pudesse sequer abrir a boca.

O Retorno ao Nome: o que a psicologia oferece à criatura

Mas a história não precisa terminar como a da criatura em gelo e solidão, em ódio ao próprio criador, em autodestruição. E é aqui que a psicologia contemporânea oferece algo que Mary Shelley não podia imaginar em 1818: caminhos.

O primeiro deles passa por nomear o que não foi nomeado. A criatura nunca recebeu um nome e essa é uma ferida simbólica poderosa. Em terapia, nomear é curar. Dar palavras à dor, à vergonha, ao abandono é o início da diferenciação entre “algo ruim aconteceu comigo” e “eu sou algo ruim”. Essa distinção, que parece pequena, é revolucionária. É a diferença entre ser definido por uma experiência e ser, simplesmente, alguém que a viveu. Na clínica, esse momento costuma ser descrito pelos próprios pacientes como uma virada: quando o sofrimento que sempre pareceu ser a sua essência ganha contornos, e você percebe que ele tem bordas e que você existe além delas.

O segundo caminho é o da rememoração do olhar. Dentro de cada pessoa que se sentiu monstruosa, há memórias do momento em que aprendeu a se ver assim. Uma professora que disse, na frente da turma, que você era lento demais. Um pai que olhou para você com decepção antes que você soubesse que havia falhado. Um grupo de colegas que deu risada de algo que você disse com genuína inocência. Identificar esses espelhos distorcidos e reconhecer que eram espelhos quebrados, não reflexos da realidade é parte essencial do trabalho terapêutico. Você não era o problema. Você estava no lugar errado, diante de um espelho que já estava rachado antes de você chegar.

O terceiro é o mais difícil e o mais necessário: o risco do pertencimento. A criatura de Shelley desistiu de pertencer após rejeições suficientes. É compreensível. Mas o isolamento que começa como autoproteção frequentemente se transforma em prisão. A conexão humana imperfeita, assustadora, imprevisível continua sendo o principal fator de saúde mental identificado pela ciência. Não há atalho que a substitua. E o paradoxo cruel é que justamente aqueles que mais precisam de conexão são os que mais aprenderam, por experiência, a se defender dela. O trabalho terapêutico, muitas vezes, é exatamente esse: aprender, devagar, que nem todo espelho vai devolver um monstro.

A criatura de Frankenstein é a metáfora perfeita para uma experiência que nenhuma estatística captura completamente: a dor de existir em um mundo que parece ter sido construído para todos, menos para você. Se você se reconhece nessa sensação de ser feito de pedaços que não combinam, de ocupar um espaço que não foi desenhado para o seu corpo, a sua mente, a sua história , saiba que essa identificação já é, em si, um ato de coragem.

Porque a criatura nunca teve a chance de ser compreendida. Você ainda tem.

Thiago Luciani | Psicólogo e Neuropsicologo

Nota sobre a obra e as citações
Sobre o livro: A maioria das pessoas conhece Frankenstein pelos filmes, especialmente a versão clássica de 1931 com Boris Karloff aquela figura de parafusos no pescoço, movimentos lentos e grunhidos. O Frankenstein do livro de Mary Shelley (1818) é radicalmente diferente: a criatura é articulada, inteligente, lê Paraíso Perdido de Milton e as Confissões de Rousseau, e expressa seus sentimentos com eloquência e profundidade. Seu sofrimento não é o de um monstro é o de um ser humano que nunca foi tratado como tal. Quem desejar ir à fonte, a obra está disponível em domínio público e pode ser lida gratuitamente em diversas plataformas digitais. Em português, recomenda-se a tradução de Miécio Araújo Jorge Honkis (Editora Martin Claret) ou a edição da Penguin Companhia.

Sobre as citações: As falas da criatura reproduzidas neste texto foram adaptadas para o português a partir do original em inglês, priorizando a fidelidade ao sentido e ao tom da obra em detrimento da literalidade de uma tradução específica. A frase “Eu era benevolente e bom; a miséria me fez um demônio” corresponde ao original “I was benevolent and good; misery made me a fiend” (Volume II, Capítulo IX). A frase “Maldito criador! Por que formaste um monstro tão hediondo que até tu mesmo te afastaste de mim com horror?” corresponde ao original “Accursed creator! Why did you form a monster so hideous that even you turned from me in disgust?” (Volume III, Capítulo VII). Leitores que cotejarem com traduções publicadas encontrarão variações naturais de uma versão para outra o sentido, no entanto, é fiel à obra.

Referências científicas: Os conceitos psicológicos mencionados neste texto têm base em literatura científica consolidada. A teoria do espelho de Winnicott está em O papel do espelho da mãe e da família no desenvolvimento infantil (1967). A teoria do apego de Bowlby está desenvolvida na trilogia Attachment and Loss (1969–1980). Os estudos sobre vergonha patológica de June Price Tangney estão em Shame and Guilt (2002). As pesquisas de Kipling Williams sobre ostracismo estão em Ostracism: The Kiss of Social Death (2007, Social and Personality Psychology Compass). O trabalho de Brené Brown sobre vergonha está amplamente documentado em sua pesquisa qualitativa na Universidade de Houston, com destaque para The Gifts of Imperfection (2010).

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Thiago Luciani
Thiago Luciani
Psicólogo, Neuropsicólogo e Neurocientista. Apaixonado por pessoas e movido pela curiosidade, dedica-se ao estudo do comportamento humano e ao desenvolvimento de estratégias para promover saúde mental, inteligência emocional e autoconhecimento. Acredita no poder do conhecimento como ponte para a transformação individual e coletiva.

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