Dizer não te faz vilão? A resposta é sim, caro leitor!
Evidentemente, suas experiências, histórias e aventuras te moldaram de uma maneira única. Somos mais de 8 bilhões de seres dotados de habilidades que nos tornam singulares entre todas as espécies. O fato de sermos bípedes, termos desenvolvido técnicas e ferramentas ao longo dos milênios, possuirmos consciência da morte e da efemeridade da vida nos coloca em um patamar privilegiado de existência. Contudo, entre todas as habilidades sociais que nos mantiveram vivos, a maior de todas é saber dizer NÃO.
Imagine que você nasce em um lar pobre, no meio do nada. A escassez é cortante; faltam insumos, utensílios e ferramentas vitais. Nesse cenário, você ouvirá excessivos “nãos” do mundo, mas verá seus pais dizendo excessivos “sins” ao entorno pelo motivo mais visceral de todos: a sobrevivência! Eu explico: uma criança pobre recebe um “não” para quase todos os seus desejos — o doce, a mochila, o sapato da moda. Tudo é desejo negativado. Ao mesmo tempo, essa criança aprende que precisa dizer “sim” para tudo e para todos, pois o “sim” é a ferramenta que agrada e garante a sobrevivência, mesmo em meio ao abuso.
Eu vivi isso. Para sobreviver, era preciso suportar absurdos. Diante da fragilidade, não restava alternativa senão o “sim” constante ao algoz. Mas, isso mudou. O menino fragilizado pela pobreza e pela obrigação de agradar cresceu!
Mesmo sem mentores ou grandes filosofias, abracei as pequenas oportunidades. Mudei-me para a cidade grande (que nem é tão grande) carregando aquele menino ferido pela dureza da vida, mas que ainda esperava ouvir dela um “sim”. Esse momento chegou: veio o vestibular, a pós-graduação, o mestrado, o trabalho com figuras importantes e o meu próprio negócio. Mas, por dentro, eu ainda era o menino pronto para receber “nãos” e distribuir “sins” impensados.
A virada de chave veio com a análise. Foi nela que o homem adulto e seguro resgatou o menino. Eu o abracei, o vesti com as roupas que ele sempre sonhou e disse a ele todos os “sins” que lhe foram roubados. A análise nos libertou. Ficou claro para ambos: o “não” e o “sim” são recursos vitais e ferramentas de evolução pessoal.
Parece que estou dando voltas, mas este é um relato de libertação. Quando se vive na escassez, o lar deixa de ser direito e passa a ser caridade; o absurdo ganha contornos aceitáveis e a violência torna-se flexível. Mesmo após o sucesso, quem veio da escassez costuma ser visitado pela Síndrome do Impostor. Aí mora o perigo! Quem lutou para ganhar um lugar ao sol precisa entender que este lugar é seu por direito. É preciso repetir todos os dias: “Eu estou aqui, eu pertenço e eu mereço”!
Essa posse de si é o crucifixo que expulsa o vampiro; é a cruz que exorciza demônios. O vampiro chega querendo te sugar e você logo percebe. Às vezes, você até o deixa entrar em sua casa, mas não tarda para que o menino alerte o adulto. É então que surge o grande poder: o NÃO.
Desrespeito? Não.
Manipulação disfarçada de favor? Não.
Ofensa camuflada de “crítica construtiva”? Não.
Gaslighting? Não.
A maior arma contra manipuladores e narcisistas sempre será o limite. Eles buscam troféus, por isso não procuram pessoas fracas. Se você é transparente, sensível e mantém a humildade aprendida na escassez, você é o suprimento ideal para eles. Se você é forte, mas mantem a candura, o sorriso e a receptividade, você será alvo!
Se você viveu a falta e sente uma explosão de amor por quem lhe oferece “sins” fáceis, cuidado: você pode estar caindo numa armadilha. Na dúvida, proteja-se: diga não!







