Hoje a conversa é sobre um espetáculo diferente. Interativo, íntimo e cheio de camadas: “Vai Lá Em Casa”, do Grupo Árvore Casa das Artes. Uma experiência que mistura palhaçaria, café quentinho e aquela cachaça que, como dizem os antigos, é a legítima “água que passarinho não bebe”. Então, já de início, o espetáculo faz questão de deixar claro: não é para crianças.
Sabe aquela frase “O sorriso é o arco-íris do rosto”? Pois bem, na sede do Grupo Árvore, no Centro Histórico de Vitória, o arco-íris vem acompanhado de cheiro de bolo de fubá e uma boa dose de deboche mineiro. A palhaça Xexa, vivida por Vanessa Darmani, não levanta cortinas; ela abre a porta da cozinha e já vai logo avisando: o papo aqui é de adulto.
Essa delimitação surge logo na primeira interação. A palhaça Xexa, ainda na abertura, brinca com uma criança na plateia, sugerindo que talvez fosse melhor ela ir assistir desenho com seu filho. A piada se constrói ali, leve, mas precisa. Não se trata de excluir por excluir, mas de alinhar o público à linguagem proposta. A maneira que foi tratado, foi levado como um recurso cênico, e não apenas um aviso burocrático ou falta de educação.
A experiência começa antes mesmo de entrar. O público espera do lado de fora, e esse tempo, que poderia soar incômodo, é estrategicamente aproveitado, (é claro, tem a ansiedade e certo desconforto de esperar em pé, e o calor sinistro que estava, mas, acho que tudo é experiência). Existe ali uma construção de expectativa, quase um aquecimento sensorial. Você fica curioso, tentando imaginar o que acontece dentro daquela casa. No meu caso, sendo a primeira visita ao espaço, a ansiedade virou combustível.
Quando Xexa aparece, ainda de cima, tocando uma sanfona (eu não sei a diferença se era sanfona ou acordeom, ou outro), o espetáculo já começa a se desenhar em camadas. Ela não surge de uma vez. Vai descendo aos poucos, contando histórias, criando vínculo, puxando o público pela escuta. Faz piada sobre a casa, os cachorros que estão latindo, (nesse ponto eu pensei duas vezes entrar na casa… rs… tenho medo de cachorros… mas, vesti a coragem e fui). É uma entrada fragmentada, quase episódica, que já anuncia o tom da encenação: tudo nasce do encontro. Cada fala puxa um fio, cada olhar amarra outro, e quando se percebe, já estamos dentro da casa e dentro da história. O espetáculo vive da interação. Uma resposta da plateia vira piada, vira rima, vira cena.
“Cê já tomou um cafezin hoje?” – Xexa
As histórias vêm carregadas de memória. Família, vivências, afetos. Mas nada é fixo. O espetáculo se molda a partir da interação. Xexa escuta, reage, improvisa. E é nesse jogo que a palhaçaria mostra sua força. Como ator penso que saber lidar com o público é algo muito importante, mas cá entre nós, é muito difícil de se fazer… lidar com o inesperado, sem saber o que vai sair do público e como você vai responder sem perder a pose, oi sair do personagem, é complexo, ainda mais com o público tão perto, o pensamento tem de ser rápido. E acredito que Vanessa faz isso com maestria.
O Capixaba carrega uma certa fama nacional de não ser hospitaleiro, ou não receber bem suas visitas. Eu não estou generalizando, mas, é sim uma fama que se tem, acredito que muitos sabem disso. Para entrar na casa de um capixaba raiz, você precisa de um alvará, três testemunhas e um exame de sangue. Já o mineiro… ah, o mineiro te convida para entrar antes mesmo de saber seu nome. E o espetáculo tenciona isso (apesar de perguntar o nome de algumas pessoas, mas, é mais um sinal de educação do que investigativo). Xexa, mineira, traz outra energia: oferece café, bolo, cachaça, conversa. O gesto de receber vira dramaturgia.
O coração de “Vai Lá Em Casa” bate em dois ritmos: improviso e hospitalidade. O nome é mais que a simples expressão “vai lá em casa qualquer dia”. Mesmo sabendo que não é sua casa, Xexa faz você se sentir parte dela. Existe um limite físico, claro. Espaço reduzido, proximidade com outras pessoas, a consciência de estar num evento. Mas, ainda assim, o acolhimento acontece. É um conforto possível, quase um abraço cênico.

Em cena, o cotidiano vira matéria-prima. Em um momento, ela pergunta se todos estão bem, e distribui plantas para as pessoas prometendo curar suas doenças, mas, a verdadeira cura vem do “acreditar que aquilo vai funcionar”. O acreditar se passa aqui não só como piada para qualquer doença que ela tenha inventado ou não, mas, me passa pela simples questão de que para você se entender e se situar no universo da Xexa, mesmo que pareça absurdo, você precisa acreditar nas coisas… uma lógica que permeia o teatro. Mas, voltando à pergunta se as pessoas estavam bem, uma visitante respondeu que estava com um pouco de dor de estômago. Pronto. Isso vira jogo. Xexa puxa uma planta, inventa um cuidado, cria uma rima: “Te benzo e te curo, amanhã você caga duro”…. O improviso não é acessório, é motor, e um motor bem-feito, gera riso, empatia, comoção.
O uso de “ervas”, “Pó” e elementos naturais aparece com frequência, muitas vezes carregado de duplo sentido. Há insinuações, brincadeiras que flertam com temas adultos, mas sem cair em apologia. Funciona como uma válvula de humor mais sutil, quase cúmplice. E, nesse ponto, a escolha de “afastar” crianças no início faz ainda mais sentido: o espetáculo confia na maturidade do público para captar essas camadas.
É rústico? É. É engraçado? Demais. E por que funciona? A palhaçaria, enquanto linguagem, para mim, é sobre o erro, rir de si mesmo e das situações cotidianas, o risco, a vulnerabilidade, aprender com tudo isso e transformar em algo novo. Não o erro que falha, mas o erro que revela. Xexa expõe fragilidades com leveza e transforma o cotidiano em matéria-prima cênica. Histórias de família, memórias afetivas, causos simples ganham dimensão simbólica. O riso vem, mas não vem vazio. Vem acompanhado de reconhecimento e uma boa “Consciência de Classe” (nome dado a Cachaça produzida pelo grupo Árvore), que desce queimando na garganta.

Nem tudo são flores, ou ervas como Xexa diz, o que me tirou um pouco da experiência, foi a interação dela com os pais (personagens reais das histórias que Xexa conta, que ali atuaram como atores coringas, ora representando ora agindo como público). Eles interagem como se fossem participantes do público, mas, como já estavam dentro da casa quando o espetáculo começou lá fora, me quebrou a surpresa e a expectativa de algumas piadas visuais inseridas, pois de certa forma, meu cérebro já sabia que era tecnicamente “combinado” para aquilo ocorrer… Talvez se ambos os “atores coringas” estivessem desde o início, aguardando com o público desde o começo, a experiência seria mais inclusiva e não quebraria muito dessa expectativa.
Ainda falando de expectativas, fora essa questão dita anteriormente, as quebras são muito boas, no âmbito de estar falando de um assunto sério, mas, que ainda consegue fazer piadas. O uso das “Anáforas” (repetição de uma palavra para causar impacto) para compor e causar identificação com o público. Para Xexa, tudo é “Herança”, cada fragmento, cada palavra, objeto, tudo o que ele recebe, é uma herança. O que me faz pensar que cada “visitante” que vai até a casa dela, se torna para ela uma nova herança.
Aí as piadas vêm em tempo certo, onde se contam as histórias, que no tempo onde ela consegue lidar com as pessoas e os elementos cênicos. Vanessa (ou Xexa) tem um próprio tempo cômico. Para alguns podem parecer demorado e difícil de lidar, mas, isso tudo, para mim, se explica quando no início ela faz a piada do “SlowFood” (na casa dela, se pratica a comida lenta), então, mesmo que algumas piadas demorem a engrenar, faz parte do cênico. E isso me faz acreditar que toda a encenação, está cozinhando a passos lentos, mas, certeiros, porque algo bom, leva tempo… Então, estamos sendo “preparados” para a próxima história, que nos prepara para a próxima, e, para a próxima.
Ser um visitante que circula pela sede do Grupo Árvore (nesse espetáculo), o espectador deixa de ser um número na poltrona para se tornar parte da mobília. A repetição de elementos — o café, o causo, a herança, a cachaça, o forró, e até as mortes — não é cansaço de roteiro, mas sim um recurso estético para criar intimidade. No final das contas, o espetáculo consegue o que muitos blockbusters de milhões de dólares não conseguem: presença.

A dramaturgia não se organiza em estrutura clássica. Aqui, o roteiro é elástico. Estica, encolhe, respira conforme o público reage. Isso pode causar estranhamento em quem espera começo, meio e fim bem marcados. Mas essa aparente desordem é, na verdade, a espinha dorsal. E é aí que o espetáculo acerta em cheio.
O espaço do Grupo Árvore Casa das Artes contribui decisivamente para essa experiência. Não há separação rígida entre palco e plateia. O público circula, se acomoda, se aproxima. Em certos momentos, quase esquece que está assistindo a algo. Está vivendo.
No fim, o que fica não é só a lembrança das risadas. É a sensação de ter sido recebido. De ter participado. De ter, por um instante, habitado o mundo de outra pessoa. E talvez esse seja o maior trunfo de “Vai Lá Em Casa”: borrar fronteiras. Entre ator e espectador, entre cena e vida, entre ficção e memória. Fica a sensação de ter visitado alguém. Não só a casa da Xexa, mas um lugar interno, meio esquecido, onde rir de si ainda é possível. Se o teatro é encontro e o riso é estrada, Xexa não faz peça, faz visita guiada. E isso, num tempo de distâncias tão bem ensaiadas, já é um pequeno milagre em cena. Um espetáculo, divertido, caótico e intimista, que você pode ver mais de uma vez, porque com certeza será diferente, porque mesmo que as histórias sejam as mesmas, a interação é diferente. Um espetáculo que depende de você estar presente, acreditar que algo é possível e se tornar uma “Herança”.







