Crítica: A Maldição e o Mistério de Kalá

Nesse texto me serviu como um desafio: Fazer uma crítica na peça “A Maldição e o Mistério de Kalá” do Grupo de Teatro Rerigtiba. Pesquisei sobre o que era uma Critica, e de tudo o que eu vi, achei estranho, pois, quem sou eu para falar bem ou mal de algo? Mas, como uma das atrizes disse: “Você é uma pessoa que tem a sua opnião!” Então com base nisso, tentei realizar uma crítica desse espetáculo, mas, da minha maneira. Eu sou ator, escritor, e já trabalhei em algumas peças teatrais nos bastidores e na produção, então, deixarei aqui a minha versão dos fatos junto a minha opinião sobre o mundo em que vivo. Então ai vai a minha Crítica sobre essa produção.

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A Maldicao e o Misterio de Kala by Daniel Bones

Na noite de domingo fui ao teatro Carlos Gomes para registrar uma história, registrar mesmo, fazer fotos, mas, de certa forma, eu que fui “registrado” ou “marcado” de alguma forma… foi uma surpresa, algo que não imaginaria que poderia me ocorrer… (eu não sou bom em receber elogios, não seu como agir na hora, mas, pelo menos me motiva). 

Dizem que o mineiro não vê o mar, mas o capixaba, às vezes, não vê o tesouro que tem debaixo do nariz. Entre um clique e outro, fui pego de surpresa por um elogio — e eu, como todo bom brasileiro que trava na hora de receber um “mandou bem”, só soube sorrir e pensar: “Isso aqui dá uma matéria”.

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A encenação começa de maneira simples e direta. A atriz se posiciona à frente do palco e inicia a narrativa sobre um lugar chamado Kala.

Imagine um lugar descrito como belo e tranquilo, mas envolta por um mistério antigo, onde o Wi-Fi não funciona (desespero total, eu sei), um Imperador tóxico. E uma lenda que circulava entre seus moradores, uma maldição pairava sobre o lugar. Quando chegasse um crepúsculo lunar, a pessoa mais jovem que permanecesse na cidade morreria. Essa é a Vila de Kalá. O resultado? O pessoal “deu linha”, fugiu todo mundo. Jovens, adultos e idosos decidiram partir. A cidade foi sendo abandonada pouco a pouco, até restarem apenas duas pessoas. Dois amigos que escolheram permanecer ali. Sobraram apenas Nelayan, o pescador que curte uma melancolia e uma boa cachaça, e Timur, o hoteleiro.

É nesse cenário que surge a figura de MasaDepan, uma jovem que chega à cidade carregando consigo apenas uma fotografia antiga de sua avó. A avó havia vivido em Kala muitos anos antes, mas partira da cidade e nunca mais voltara. Curiosa sobre o passado familiar e sobre as histórias que ouvira durante a infância, a menina decide visitar o lugar.

Em Kalá, o medo era a lei, mas o amor precisava virar o rei. A Vila é a metáfora perfeita para aquela zona de conforto mofada onde a gente se tranca. Sabe quando você quer trocar de curso, terminar aquele namoro que virou amizade ou mandar um currículo novo, mas fica parado? Pois é, você está morando em Kalá.

“A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás; mas só pode ser vivida olhando-se para frente.”Søren Kierkegaard

Um dos pontos mais profundos da história é a amizade entre o pescador e o hoteleiro. Eles cuidam um do outro, colocam cobertor quando o outro exagera na “bebida de bico”, jogam xadrez, pescam juntos, criam suas próprias histórias e aventuras. Eles são o exemplo vivo de que o coletivo é a cura. Sozinho, o pescador só pega peixe; o hoteleiro só troca lençol. Juntos, eles quebram ciclos.

Essa amizade não nasce apenas da solidão da cidade vazia. Ela nasce do tempo compartilhado. A escolha de permanecer em Kala aproximou os dois homens. Curiosamente, a cidade ainda seria grande o suficiente para que cada um seguisse sua vida isoladamente, mas isso não aconteceu. O espaço vazio acabou criando proximidade. O que restou acabou unindo os dois.

Vivemos tempos de polarização, onde as pessoas se apedrejam por qualquer post no X (Twitter). Parar para ouvir uma história sobre afeto é quase um ato de rebeldia. Como diria o comediante Paulo Gustavo com sua eterna Dona Hermínia: “A gente tem que rir para não chorar, mas tem que estar junto para aguentar”. A conexão humana é o que nos diferencia de estátuas de sal.

A chegada de MasaDepan causa estranhamento. Não apenas por ela ser jovem, mas por ser uma novidade em um lugar onde ninguém aparecia há muito tempo. Os moradores ficam intrigados e perguntam por que alguém escolheria ir até ali sabendo da maldição. A menina responde que conhece a história, mas não tem medo. Ela explica que veio por causa das memórias de sua avó e que gostaria de entender melhor aquele passado.

É nesse momento que surge uma figura misteriosa que atravessa toda a encenação: o vento. E esse é o grande trunfo do espetáculo, na minha opinião, além das famosas máscaras do grupo Rerigtiba (que são um show à parte, mas hoje o foco é o roteiro!), é a figura do Vento (que aqui vou chamar de “Oráculo”). Imagine um ser espiritual que controla não só o clima, mas o tempo da cena. Ele pausa, acelera, muda o cenário de sol para lua e, de quebra, faz uma foto voar do bolso da jovem MasaDepan para as mãos de um dos velhinhos.  O Vento é o “agente do destino”. Na peça, ele é quem move o mistério. Esse personagem não atua apenas como um elemento cênico. Ele representa algo maior. O vento parece controlar o tempo da narrativa. Às vezes altera o cenário, às vezes interrompe ações, às vezes acelera ou desacelera acontecimentos. Ele pode transformar o clima, mudando do dia para a noite, do sol para a lua, ou preparando o ambiente para a chegada do eclipse anunciado durante toda a história. 

Mas, na vida real, quem é o seu vento? Às vezes é um conselho de um amigo, às vezes é esse artigo que você está lendo. O oráculo segurava o eclipse, esperando o momento em que os personagens decidiriam agir. Porque, sejamos sinceros: não adianta rezar, pedir pro universo ou fazer mapa astral se você não der o passo.

Ao olhar a imagem, o pescador reconhece a pessoa retratada. Aquela figura fazia parte de seu passado.

A partir desse instante, a trama ganha outra dimensão. O passado começa a emergir. O pescador percebe que precisa descobrir quem é a jovem e qual sua ligação com aquela fotografia. Ao conversar com o amigo da hospedaria, descobre algo ainda mais surpreendente: ele também estava naquela imagem antiga.

Enquanto o pescador confronta suas próprias memórias, o dono da hospedaria acredita ter encontrado uma possível solução para quebrar a maldição sem que a jovem morra. Porém, para que isso aconteça, uma decisão precisa ser tomada. O pescador se vê diante de uma escolha fundamental. Ele pode permanecer na vida tranquila que construiu com o amigo ou enfrentar o passado e abrir espaço para uma nova história. 

Esse é o verdadeiro eixo dramático da peça: a escolha. Continuar como tudo sempre foi, ou arriscar transformar o presente. 

A presença constante do vento reforça essa ideia. Ele parece ajudar a conduzir os acontecimentos, mas nunca decide por ninguém. Ele cria condições. Ele provoca encontros. Ele move os elementos da história. Porém, a decisão final pertence aos personagens.  Ai qqui vai a “real”: se omitir também é escolher. Quando você deixa o outro escolher por você, você está entregando o volante da sua vida para alguém que talvez nem saiba para onde está indo. Escolher conhecer a história da sua família, como fez a personagem MasaDepan ao buscar as origens de sua avó, é um exercício de autoconhecimento.

Uma Escolha Ativa pode gerar autonomia e segurança, pode também possibilitar o erro construtivo, mas, Fortalece a carreira e a vida. Uma Omissão/Escolha do Outro, gera dependência e frustração, pode afastar você do próprio caminho, mas, mantem você na sua versão da “Vila de Kalá”. 

Como exemplo: Pense numa pequena história. Um sujeito chega numa encruzilhada. Não tem placa, não tem Waze, não tem GPS. Só duas trilhas. Uma pede decisão. A outra pede espera. A vida inteira cabe nesse instante. Agora entra o contexto.  Desde cedo muita gente aprende um truque estranho da vida adulta: esperar que alguém escolha por ela. Esperar o chefe decidir. Esperar o mercado reagir. Esperar o amor aparecer. Esperar a sorte bater na porta como vendedor de enciclopédia em 1994. Só que esperar também é uma escolha. E, quase sempre, uma escolha cara. Quando a pessoa faz uma escolha ativa, ela entra no jogo da própria história. Erra, claro. Tropeça, às vezes faz besteira digna de novela das seis. Mas o erro vira ferramenta. O caminho vai sendo ajustado. Surge autonomia. Surge segurança. É tipo aprender a andar de bicicleta: cai, levanta, pedala torto… daqui a pouco está descendo a ladeira gritando vitória e sentindo o vento. 

Já quando a decisão fica na mão dos outros, nasce uma dependência silenciosa. A vida vira fila de banco em dia de pagamento. Lenta, cansativa e com alguém sempre dizendo o que você deve fazer. A frustração aparece porque o rumo nunca é realmente seu. É aí que entra a metáfora da tal “Vila de Kalá”.

A Vila de Kalá é aquele lugar imaginário onde vivem as pessoas que adiaram a própria escolha. Tudo parece confortável, mas ninguém sai do lugar. Todo mundo espera que alguém traga a solução pronta. O tempo passa, o café esfria, e a vida fica em modo pausa. 

No final da apresentação, uma pergunta feita por crianças da plateia reforça essa interpretação. Elas perguntam quem era a figura misteriosa presente no palco. A atriz responde de forma ambígua, sugerindo que talvez fosse ela mesma. Essa resposta abre espaço para uma leitura simbólica. O vento pode representar o tempo, o destino ou até uma força espiritual que observa e conduz os acontecimentos. Ainda assim, ele não substitui a ação humana. A peça sugere que pedir ajuda ao universo, à espiritualidade ou ao destino não é suficiente. É preciso agir. O personagem precisava dar um passo adiante.

No desfecho, entende-se que a maldição só poderia ser quebrada quando alguém tivesse coragem de tomar uma atitude. O pescador Nelayan teve que escolher: reconquistar o passado ou deixar tudo como estava. Ele escolheu agir. E você? O eclipse está chegando, o que vai fazer?

Assim, a história de Kala deixa de ser apenas um mistério sobrenatural e se transforma em uma reflexão sobre escolhas, coragem e transformação. Porque, no fim das contas, esperar que as coisas aconteçam raramente muda o rumo da história. Mas decidir agir pode mudar tudo.

O teatro é o espelho da gente. Ele mostra que a maior treva não é um imperador vingativo, mas viver sem ter um abrigo na amizade ou no perdão. A maldição de Kalá só foi quebrada porque houve atitude. 

Então essa foi a minha Crítica. E só posso concluir, que o espetáculo veio para nos divertir com as piadas, com a forma alegre de se pensar, do clima agradável que os personagens nos entregam e fazer sentir a empatia por eles, desde o público infantil ao adulto, todos se divertem e passam um tempo agradável. Mas, o principal que me passa é a mensagem que me fez refletir.

Não espere o vento soprar a foto perfeita no seu colo. Dê o passo. Mude a direção. Como bem lembrou a atriz ao final da peça, o “ser misterioso” que controla tudo pode ser, na verdade, a nossa própria essência se manifestando no tempo certo. Saia da sua zona de conforto antes que o próximo crepúsculo lunar te pegue estagnado!

Porque, como diria aquele velho provérbio inventado agora mesmo:

“Quem escolhe o passo faz o caminho. Quem espera demais… perde o sapato e ainda erra o destino”.

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Daniel Bones
Daniel Bones
Sou o "Severino do Audiovisual Capixaba", já atuei em diversas áreas como fotografia, edição, sou ator, compositor, produtor e diretor de filmes e TV. Gosto de contar histórias. Ponto Final. (...) Aqui, minha coluna é cultural, mas vive com uma dor postural. Eventos, Arte, Cultura, Cinema e Teatro são comigo aqui! Se quiser, siga essa doideira ai!

1 COMENTÁRIO

  1. Daniel,
    que presente ler a sua escrita! Você não apenas assistiu ao espetáculo; você permitiu que ele te atravessasse e, ao compartilhar suas impressões, nos ofereceu uma verdadeira “degustação” de sentimentos.

    É encantador ver como você saiu do “quadrado” para habitar esse território livre e amoroso da escrita criativa. Sua reflexão sobre o vento, as escolhas e o poder da ação coletiva — personificado na amizade de Timur, Nelayam e Masadeyan — deu ainda mais cor ao trabalho tão primoroso da Tiche e do Rerigtiba.

    Obrigada por nos lembrar, com tanta leveza e doçura, que o mistério da vida se revela no passo que decidimos dar. Seu texto é um abraço em quem faz e em quem ama o teatro. Parabéns pela sensibilidade e pela coragem de soltar o verbo com tanta alma!

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