Dizem que, no Brasil, o ano começa oficialmente após o Carnaval. Para muitos, as Escolas de Samba parecem ser as únicas instituições que realmente funcionam antes dos festejos momescos. 2026 resolveu ser diferente e desde o seu início, uma agremiação do Rio de Janeiro já começou a fazer alguns políticos se movimentarem antes do início “verdadeiro” do calendário.
Com um enredo que homenageia o presidente Lula, a Acadêmicos de Niterói vai abrir o primeiro dia de desfile do grupo especial do Carnaval do Rio de Janeiro. Como estamos em ano de eleições, a iniciativa da escola gerou controvérsias e moveu o bloco oposicionista do congresso a entrar na justiça contra o desfile da Acadêmicos de Niterói.
ACADÊMICOS DE NITERÓI 2026 – CLIPE OFICIAL RIO CARNAVAL
Essa, no entanto, não é a primeira vez que uma escola de samba homenageia uma personalidade política. Em 2016, a Unidos de Vila Isabel contou a história do pernambucano Miguel Arraes. Movidos pelo tema Memórias do ‘Pai Arraia’ – um sonho pernambucano, um legado brasileiro, Martinho da Vila, Mart’nália, Arlindo Cruz se juntaram à ala de compositores da escola para fazer um samba de enredo em primeira pessoa sobre Pernambuco, o que nos passa a impressão de que era o próprio Arraes o narrador daquela história.
Vila Isabel 2016 Letra e Samba
Apesar desses dois exemplos biográficos, a política é um tema recorrente no Carnaval e nos desfiles de escolas de samba. Isso ficou mais evidente no início da Nova República, na segunda metade da década de 1980, quando a liberdade de expressão começou a ser uma realidade em nosso país.
Em 1986, a Império Serrano fez do seu desfile um pedido por meio de um samba de enredo baseado em um pedido: “Me dá, me dá/ Me dá o que é meu/ Foram vinte anos que alguém comeu”. Esses versos eram uma crítica evidente aos vinte anos de ditadura empresarial-militar no Brasil.
Além desses versos, a escola de samba carioca ressaltou alguns desejos que os brasileiros tinham após os anos de chumbo. Na letra, o regime militar é chamado de “tempestade”, enquanto a recéminaugurada democracia é apontada como a “liberdade”.
Por falar em liberdade, a Imperatriz Leopoldinense celebrou o centenário da república, em 1989, com um samba enredo baseado no refrão do hino à sua proclamação: “Liberdade, Liberdade, abre as asas sobre nós”. Vale lembrar que aquele também foi o ano da primeira eleição direta para presidente do Brasil.
Samba enredo – Imperatriz Leopoldinense 1989
Como o carnaval não é exclusividade de nossas terras, embora sejamos o país do Carnaval, não poderíamos deixar de falar da carnavalização da última edição do Super Bowl, promovida pelo porto riquenho Benito Antonio Martinez Ocasio, ou simplesmente Bad Bunny.
Bad Bunny’s Apple Music Super Bowl Halftime Show
O fato de o seu espetáculo ter acontecido no período de pré-carnaval pode ser uma mera coincidência, mas não podemos negar a presença de elementos típicos da festa de Momo. Por ser um período de catarse, é muito comum ver no carnaval críticas não só a figuras políticas, mas a problemas sociais e econômicos, o que faz dessa época um momento propício para celebrar a resistência do nosso povo.
A manifestação artística de Bad Bunny, feita quase toda em espanhol, foi uma forma de celebrar a resistência dos povos latino-americanos dentro e fora dos Estados Unidos e criticar uma política que considera os países do seu entorno como uma mera extensão territorial a ser explorada. Para quem pensa que coelho não morde, Bad Bunny mostrou que além de morder, ele também contribui para esquentar ainda mais o carnaval.







