Das coisas positivas do bairrismo vou citar o reforço de uma identidade local e o orgulho de ser e de pertencer a um espaço geográfico com características únicas!
Pelo lado negativo, o bairrismo leva ao isolacionismo e à invalidação do que vem de fora. Traz a ilusão de que os costumes e tradições locais devem ser inquestionáveis e imutáveis.
Na visão de Clifford Geertz, um dos antropólogos mais relevantes do século XX, o que “vem de fora” é o “oxigênio” que impede uma cultura de se tornar um sistema fechado e, eventualmente, estagnado.
Defender a nossa cultura e identidade, nos fortalece como povo, mas, rejeitar contribuições externas e jogar um pano em cima dos reais problemas que acontecem na nossa cidade é um efeito colateral preocupante do bairrismo!
Vejo muita gente dizendo: ah, mas capixaba é antissocial mesmo, não gosta de sair, não gosta de cumprimentar, não gosta de nada que fuja à sua rotina…
Mas, até que ponto essa performance deve ser vista como algo normal? Não seriam esses “costumes” práticas grosseiras banalizadas? Práticas essas que nos isolam, estagnam e nos impedem de progredir em diversas áreas, como o turismo e as artes, por exemplo?
NÃO devemos chamar de “cultura” o que é negativo, mas, de “desvio cultural”!
Geertz defende que “o homem é um animal suspenso em teias de significados que ele próprio teceu.”
Na minha interpretação de Geógrafo, eu diria que Geertz está a falar de causa e efeito!
No espaço geográfico nada acontece por acaso, tudo é interconectado!
Foi ainda na primeira metade do século passado que o Geógrafo Russo Viktor Borisovich Sochava contrapõe com primor a teoria do ecossistema e trouxe a teoria do “geossistema”, muito mais completa e relevante.
O geossistema é uma teia de interações, onde nada acontece isoladamente! Clima, hidrologia, ciclos naturais, geologia, os animais, incluindo os seres humanos (sim, somos animais), tudo está integrado!
Alguns exemplos: uma mata que foi destruída em Cariacica, afetará o clima de Vitória. Uma seca em Santa Leopoldina, afetará o abastecimento de água da capital, uma política xenófoba nos EUA causará um fluxo inesperado de pessoas em diversas partes do mundo, causando impactos socioeconômicos brutais!
E qual a correlação da teoria dos geossistemas, de Sochava e o conceito de desvio cultural de Geertz? Integração!
Integração é o remédio que combate o isolacionismo, esse traço tóxico do bairrismo, que estagna cidades e povos!
Trazendo a análise para Vitória, de onde vem o silêncio e a indiferença às práticas de socialização básicas, como: cumprimentar, pedir licença, agradecer, pedir por favor?
Essas atitudes são frutos de uma performance construída ao longo de séculos de isolamento e de uma história marcada por coronelismo, silenciamento e autoritarismo!
Em um estado que serviu como escudo para proteger o ouro de MG, a autonomia de seus senhores era absoluta!
Portanto, naqueles tempos, questionar, falar, protestar e ter visibilidade era sempre um risco, afinal, o que acontecia em Vitória, ficava em Vitória.
Por aqui os barões faziam suas leis e regras e só havia uma alternativa: obedecer! Pois a certeza de impunidade por parte dos senhores era inquestionável e ao povo restava a discrição e o isolamento como recursos de sobrevivência.
À medida que o porto se amplia, que o aeroporto passa a existir e que o transporte rodoviário democratiza o acesso à viagens e passeios, as oligarquias perdem força e o povo começa a acessar caminhos outrora impossíveis!
Portanto, a apatia que antes era um “desvio cultural” passa a entrar em desuso.
Diante do volume de turistas aumentando, da economia aquecida, das famílias coronelistas perdendo poder e de toda a movimentação da “teia”, o capixaba passa a se expor mais, uma nova cultura começa a ser construída e os velhos comportamentos apáticos passam a ser questionados!
Assim, nós capixabas passamos a observar que afeto é bom, que é possível cumprimentar o vizinho, que ajudar o próximo não é um risco, mas, uma gentileza possível!
Começamos a perceber que não existe fora, somos todos parte da mesma teia e que podemos olhar para outras cidades, estados e países como inspirações e fontes de aprendizado.
A partir de 2026 não há espaço para apatia, nem para glamourizar comportamentos grosseiros, tampouco para se orgulhar de atitudes egocêntricas e isolacionistas.
A era do silêncio e indiferença já nos adoeceu o bastante, agora é hora de falar, criar, protestar, questionar, romper com os escudos e defesas que são frutos de um passado que não existe mais!
É hora do capixaba entender que integração é democracia, democracia é liberdade e liberdade é aprendizado, evolução e prosperidade!
É hora de abraçar o turista, cumprimentar os vizinhos, puxar assunto com grupos diferentes, sair da bolha, aprender a ouvir não, aceitar críticas e ter uma vida plena, livre de medo e repleta de felicidade.
Afinal, não há outra alternativa para sobrevivermos como espécie se não a INTEGRAÇÃO!






