Fala, galera! Tudo certo por aí? Ou estamos apenas naquele modo automático, respondendo “tudo bem” enquanto a mente já está calculando quando será o próximo feriado?
Vamos falar sobre as Palavras Vazias. Sabe aquele “Bom Dia” que sai da boca como um bocejo? Ou aquele “Feliz Natal” que a gente manda no grupo da família com um emoji de Papai Noel só para não ser excluído do testamento da avó? Pois é. Virou protocolo, um espasmo social.
Como diria o mestre do humor Millôr Fernandes: “Livre-se de todas as palavras inúteis. Só então você perceberá quão poucas sobraram”. O Millôr sabia das coisas: ele se referia à precisão da escrita, mas a gente aplica aqui na vida. Se tirarmos o “automático”, será que sobra conversa para chegar até o próximo bloco de Carnaval?
Dizer “bom dia”, “boa tarde”, “feliz Natal” ou “feliz ano novo” (ou qualquer saudação desse tipo) virou um reflexo condicionado. A boca fala, o cérebro ainda está bocejando e o coração segue em modo economia de bateria. Não é falta de caráter, é hábito social. Um gesto pequeno, quase burocrático, feito para evitar o olhar atravessado, a fama de mal-educado e o julgamento silencioso do elevador.
“Bom dia” ou “boa tarde” é, tecnicamente, o que os sociólogos chamam de lubrificante social. É o que impede a engrenagem da sociedade de ranger. No Brasil, e especialmente aqui no nosso Espírito Santo, a omissão desses cumprimentos é quase um pecado capital. Se você entra num elevador e não fala nada, o silêncio pesa mais que um quilo de moqueca (da legítima, claro!). Se você é verdadeiramente brasileiro, deve já ter dito um “Vamos marcar”, ou “Bora marcar um rock qualquer dia” (em capixabês), mas, aparentemente foi vazio, porque ou você não tinha a intenção de marcar ou simplesmente esqueceu! Você é malvado por isso? Talvez, mas, esse não é o ponto.
Curiosamente, não existe uma regra da ABNT para saber quando o “bom dia” vira “boa tarde”. É puro feeling. Às vezes você diz “bom dia” às 11:59 e recebe um “boa tarde” atravessado de volta. É o choque de fusos horários individuais! Mas, como diz o ditado popular: “Educação vem de berço”. Não importa a classe social ou o cargo; cumprimentar é o básico do “manual de como ser humano”.
O filósofo alemão Martin Heidegger tinha um termo para isso: Gerede, ou o famoso Falatório. Para ele, o falatório é o modo como a gente vive na inautenticidade. É a conversa fiada, a repetição do que “se diz”.
- Superficialidade: A gente fala porque todo mundo fala.
- Impessoalidade: Não sou “eu” desejando algo para “você”, é apenas uma função social sendo executada.
- Distanciamento da Verdade: O falatório encobre quem realmente somos.
Norbert Elias já explicava isso lá atrás. Para ele, a educação cotidiana não nasce do afeto, mas da necessidade de convivência. Cumprimentar é um acordo tácito. Eu te reconheço, você não me faz nada comigo, seguimos vivos até o café. Funciona como lubrificante social. Não emociona, mas evita atrito.
O curioso é que todas as culturas têm alguma versão desse ritual. Em inglês se deseja uma “boa manhã”, em francês a noite tem dois turnos, e em mandarim a pergunta clássica é se a pessoa já comeu arroz. Educação global, cardápio local. O sentido muda, mas a função permanece. Criar uma ponte mínima entre dois estranhos que preferiam estar em casa.
O problema começa quando confundimos educação com afeto. Aqui entra o saudoso Zygmunt Bauman. Ele explicava que vivemos na Modernidade Líquida. Tudo escorre, nada é sólido. O “Feliz Ano Novo” virou um afeto descartável, bonito na embalagem, mas frágil no uso. Bauman dizia que esses cumprimentos são como senhas de acesso social. É o equivalente verbal ao “tô online”.
Ah, Bones, você é um cara “extrovertido”… Na verdade, não… Eu invento um papel social (mas, isso é tema para outra coluna).
Para falar a verdade, eu mesmo às vezes não dou “Bom Dia” para as pessoas, mas, isso não por falta de educação, é apenas que naquele dia eu não estou com vontade de falar nada, então fico mais sério. Entre outras vezes, fico calado por estar concentrado numa tarefa ou pensando em outras coisas que julgo importante para o momento. Talvez seja um traço de “introspectividade” (não sei se a palavra existe), mas, ficar em silêncio não é falta de educação, é talvez um traço de personalidade, não defeito de caráter.
A confusão aí nasce porque vivemos numa cultura que confunde extroversão com gentileza e barulho com simpatia. Psicologia básica desmonta isso rápido. Estudos sobre traços de personalidade mostram que introversão está ligada a processamento interno, não a desprezo pelo outro. O cérebro do introspectivo funciona diferente, ele pensa antes de falar, e às vezes prefere nem falar. Simples assim. Então, vamos aprofundar um pouco, sem caricatura, sem moral barata e sem obrigar ninguém a dizer sorrindo.
A teoria de personalidade de Jung foca em atitudes (Introvertido/Extrovertido) e funções psicológicas (Pensamento, Sentimento, Sensação, Intuição), e nos arquétipos (modelos universais) no inconsciente coletivo, visando a individuação (autoconhecimento e totalidade), com destaque para Persona (máscara social) e Sombra (lado reprimido). Carl Gustav Jung não criou a introversão como sinônimo de timidez, grosseria ou uma anti sociabilidade. Ele descreveu uma direção da energia psíquica. Introvertidos direcionam energia para dentro. Extrovertidos, para fora. Nenhum é melhor ou é defeito. O problema começa quando a sociedade exige comportamento extrovertido como uma “norma moral”.
“Ah não querer conversar”, para Jung, o introvertido precisa de economia psíquica. Conversar não é neutro. Exige gasto de energia. Quando essa energia está baixa (física ou espiritual), o organismo pede recolhimento. Não conversar não significa rejeição do outro, mas, é um tipo de autorregulação. Porque o introvertido pensa antes de falar, processa mais, observa mais, escolhe onde, quando e o que vai falar. Ai nesses momentos, forçar conversas, gera cansaço, irritação, desconexão, repostas secas e automáticas, ou seja, palavras Vazias.
Aí, sim, nasce a falsa impressão de má educação. Não porque ele é rude, mas porque foi empurrado além do limite. A cultura atual valoriza resposta rápida, opinião pronta e presença constante. Para o introvertido, isso é violência simbólica leve, mas contínua. Silêncio, aqui, é pensamento em andamento.
“Dar bom dia” (ou qualquer saudação), é o ponto mais mal interpretado socialmente. Quem não performa é rotulado. Para Jung, rituais sociais sem sentido interno geram dissociação no introvertido. Ele executa por obrigação, não por verdade. Isso cansa. Nesse caso, não dar bom dia não é desprezo, é apenas uma ausência de energia para performance social naquele momento.
Um erro social da modernidade é confundir silêncio com arrogância, confundir recolhimento com frieza, confundir fala constante com afeto. Valorizar apenas um tipo psicológico, adoece os outros. Educação, do ponto de vista junguiano, não é repetir gestos vazios, mas respeitar o próprio estado psíquico e o do outro.
Desejar felicidade por obrigação, como alertava Hannah Arendt, anestesia nosso pensamento crítico. A palavra “felicidade” vira papel de presente sem nada dentro. Oco. Vazio. E convenhamos, profundidade dá trabalho. Num mundo de likes e stories, quem tem tempo de realmente desejar que o dia do outro seja bom?
“As palavras suaves são favos de mel, doces para a alma, e saúde para os ossos.” (Provérbios 16:24)
A Bíblia já dava o gabarito: palavras têm poder, energia. Elas invocam conceitos. Quando você diz algo com intenção, você cria algo positivo. Quando diz por vazio, é só poluição sonora.
Se as palavras estão inflacionadas e vazias, o que fazer? A resposta pode estar na ação. Num mundo que fala demais, agir virou uma língua morta. Nietzsche provavelmente riria da nossa cara, dizendo que falamos de virtude como quem anuncia liquidação em shopping: muito cartaz, pouco estoque.
Talvez o gesto mais subversivo hoje seja: Dizer menos. Sentir mais. Quando falar, olhar nos olhos.
Dizer “bom dia” e realmente esperar para ouvir a resposta (ou perceber o tom de voz do outro) é o que separa a civilização no modo econômico do encontro real. Como dizemos por aqui, não precisa ser “metido”, mas também não precisa ser um rádio ligado fora da estação.
Não precisamos abolir o “Bom Dia”. O mundo já está amargo demais para sermos grosseiros. O ponto é não deixar a palavra virar um pedágio. Que tal, na próxima vez que encontrar alguém, tentar transferir aquele valor que Bauman dizia estar em falta: a Empatia?
As palavras podem destruir ou criar. Que tal usarmos as nossas para criar pontes sólidas em vez de apenas boiar no mar raso das gentilezas automáticas? Afinal, um olhar sincero acorda mais que um café extra forte na segunda-feira.
E aí, como vai ser o seu próximo “Bom Dia”? Com alma ou só no automático?







