Nos últimos anos a Inteligência Artificial e o seu uso nas mais diversas atividades humanas têm sido alvo de inúmeros debates. No campo musical não tem sido diferente. No princípio, as tarefas da inteligência artificial eram quase mecânicas. Limitavam-se a separar faixas de uma determinada canção ou criar linhas melódicas de apoio a um tema principal.
Com o tempo e o avanço da tecnologia isso mudou. Agora, além das atividades listadas acima, as ferramentas de IA passaram a fazer suas próprias criações musicais. Durante os últimos anos, surgiram vários aplicativos que criam de canções a obras instrumentais a partir de um conjunto de comandos conhecidos como “prompts”.
Basta fazer o prompt certo para que em poucos minutos seu aplicativo crie duas versões de uma canção cuja letra também pode ser gerada por outra ferramenta de IA, como o Chat GPT ou o DeepSeek. As únicas funções humanas nesse processo seriam gerar um prompt e fazer alguns ajustes para que a canção fique com a cara do criador humano.
Neste momento, uma pergunta deve vir à mente de quem lê este texto: como uma Inteligência Artificial consegue criar e desenvolver uma ideia musical com ou sem letra? Da mesma forma que outras atividades, os aplicativos de IA fazem, a partir de um comando dado, uma busca no banco de dados vasto que é a internet, encontra padrões e cria uma música em pouquíssimo tempo.
A conclusão óbvia que tiramos é que a IA não faz nada novo, ela só busca ideias entre obras previamente escritas e as dispõem de forma diferente em uma canção nova. Se analisarmos a fundo o processo criativo de compositores humanos é isso que eles fazem de forma inconsciente, em uma velocidade mais lenta e tendo como base um banco de dados limitados ao gosto musical de quem cria.
Como escrevi em um texto publicado por este site em 3 de abril de 2023, as músicas são muito mais o fruto de um processo de trabalho do que uma inspiração que atinge o artista. Nele também apresentei um esquete do grupo australiano Axis of Awesome no qual se demonstrava como uma estrutura de quatro acordes era capaz de gerar a maior parte dos sucessos musicais de várias décadas.
Axis of Awesome – Four Chords (legendado)
Esse e outros métodos tradicionais, no entanto, diferem na criação por IA em um único ponto: a possibilidade de uma pessoa sem qualquer formação musical apresentar ao mundo uma música de sua autoria. Essa, porém, não foi a primeira vez na história em que a criação musical foi democratizada.
Em 1650, o jesuíta Athanasius Kircher apresentou ao mundo a sua Arca Musarithmica. Por meio desse mecanismo, qualquer pessoa podia compor uma música. Seu funcionamento se dava da seguinte forma: a arca continha um conjunto de tablets nos quais estavam grafados números que correspondiam a notas de uma escala ou modo, além das possibilidades de tratamento rítmico para essas notas. A partir dessas informações era possível compor uma música em contraponto simples ou imitativo.
https://youtube.com/shorts/-Cc6yoW5TJA?si=cAqF7aCpkQPrmeWS
Para quem achou esse sistema muito complexo e prefere algo mais objetivo, existe o Musikalisches Würfelspiel. Esse é um sistema por meio do qual pode-se compor uma música jogando dados. A ideia era jogar dois dados para cada compasso de uma música e buscava-se o resultado em uma tabela com 176 compassos diferentes. Assim, aos poucos, criava-se uma música sem a necessidade de grandes conhecimentos musicais.
Isso tudo demonstra que a busca por métodos automáticos de criação musical sempre existiu. O que precisamos saber é como lidar com as implicações e consequências da atual tecnologia para que não se perca o que há de mais precioso na obra de arte: a alma humana.







