15 de janeiro de 2026
quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

A geografia da injustiça está escrita no cérebro

Como o lugar onde você nasce molda estruturas neurais, um relato da prática clínica.

No meu consultório, duas crianças da mesma idade. Uma come três refeições por dia. A outra vai para escola com fome. A diferença não está apenas nas oportunidades. Está nas estruturas cerebrais delas. E eu posso provar.

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O que vejo todos os dias

Laura, 7 anos, chega sempre pontual. Vive em apartamento de classe média – não é luxo, é estabilidade. Alimentação regular. Mãe presente. Escola particular com recursos. Bairro seguro. Rotina previsível. Nas avaliações neuropsicológicas, Laura apresenta desenvolvimento típico em memória, atenção e funções executivas. Tem dificuldades específicas (por isso está aqui), mas respondem bem às intervenções.

Miguel, 6 anos, costuma chegar atrasado. “Teve problema.” A mãe trabalha 12 horas como diarista. Miguel vive com ela e três irmãos em dois cômodos na periferia. A comida é incerta. O bairro vive tensão constante. Escola pública sucateada, superlotada. A única constante: imprevisibilidade. Nos mesmos testes, Miguel vai mal em memória, atenção e controle de impulsos. Mas entenda: Miguel não é menos inteligente que Laura. Está navegando um ambiente infinitamente mais hostil e isso deixa marcas neurobiológicas reais.

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O que a neurociência comprova

Explico aos pais usando dados científicos. Pesquisadores da USP e Columbia University escanearam cérebros de mais de 1.000 crianças. O resultado? Injustiça em pixels. Crianças em extrema pobreza têm até 6% menos volume no hipocampo, região da memória e aprendizagem. Não é genética. É padrão estatístico que mostra como ambientes hostis criam obstáculos neurobiológicos reais. O córtex pré-frontal, área de atenção, planejamento, controle emocional, também se desenvolve diferente sob estresse crônico severo. Exatamente as habilidades que Miguel precisa na escola, mas que o ambiente dele mina. No Brasil, onde crianças negras representam 70% daquelas em extrema pobreza (IBGE/UNICEF), esses dados não são abstratos. São sobre Miguéis reais que chegam ao meu consultório. “A pobreza não é apenas injusta. É biologicamente destrutiva.”

O estresse que nunca desliga

Explico para a mãe de Miguel: seu filho não tem “déficit de atenção” tradicional. Tem sistema nervoso em alerta constante. Cortisol, o hormônio do estresse. Em doses pontuais, nos protege. Mas quando uma criança enfrenta ameaças simultâneas e prolongadas – fome crônica, violência, imprevisibilidade, esse sistema nunca desliga. Cortisol em excesso é tóxico para o cérebro em desenvolvimento. Inibe novos neurônios. Enfraquece conexões. Reduz volume de estruturas cerebrais.

As capacidades invisíveis

Mas o cérebro de Miguel não é “danificado”. Está adaptado a ambiente extremo e isso exige capacidades sofisticadas. Hipervigilância que lê micro expressões instantaneamente. Maturidade social precoce. Avaliação constante de riscos. O escândalo? A escola só valoriza as habilidades de Laura. E diagnostica Miguel como “problemático” pelas adaptações que o mantiveram vivo.

Quando comer não é garantido

A mãe de Miguel me conta, envergonhada, que às vezes falta comida. Explico: não é vergonha. É violência estrutural. O cérebro infantil consome metade da energia corporal. Forma 700 novas conexões neurais por segundo. Precisa de ômega-3, ferro, proteínas. Segundo o IBGE (2022), 33,1% das crianças brasileiras vivem em domicílios com insegurança alimentar. No consultório, vejo as consequências: desnutrição grave nos primeiros anos afeta desenvolvimento cognitivo de forma duradoura.

O abismo de palavras

Durante as sessões, noto outra diferença: linguagem. Laura conta histórias elaboradas. Vocabulário rico. Perguntas complexas. Em casa, conversas com adultos responsivos. Na escola, atenção individual. À noite, alguém lê para ela. Miguel chega silencioso. Respostas curas. A mãe sai antes dele acordar. Volta exausta. Na escola superlotada, professor mal consegue atenção individualizada. Mas a mãe de Miguel não “se importa menos”. O sistema a força a escolher entre conversar com o filho e alimentá-lo. Não há tempo trabalhando 12 horas por salário mínimo.

Enquanto você lê isso, milhares de cérebros infantis no Brasil estão sendo moldados pela fome, pelo medo, pela ausência de esperança. Não metaforicamente. Literalmente. Menos neurônios. Menos conexões. Menos possibilidades. E nós, como sociedade, escolhemos permitir.

O que realmente funciona

No consultório, trabalho com ambas as crianças. E vejo a diferença brutal que recursos fazem. Laura responde rápido. A família paga terapias complementares. Há ambiente em casa para exercícios. Alimentação sustenta o trabalho cognitivo. Escola colabora com plano individualizado. Com Miguel, cada ganho é batalha. A família não pode pagar materiais. Não há espaço silencioso em casa. A fome sabota o progresso. A escola não consegue adaptações. Mas quando conseguimos apoio sistêmico mesmo pontual – Miguel avança. O cérebro infantil tem plasticidade extraordinária.

Evidências que funcionam

O Projeto Abecedarian ofereceu intervenção intensiva durante anos a crianças de baixa renda nos EUA. Aos 30 anos, tinham melhor escolaridade, renda e diferenças mensuráveis na estrutura cerebral. No Canadá, transferência de renda substancial para mães vulneráveis mostrou resultados em um ano: bebês apresentavam atividade cerebral similar a bebês de classe média. No Brasil, o Programa Criança Feliz, quando bem implementado, mostra resultados. O problema? Subfinanciamento e descontinuidade. Funciona. Mas exige investimento real.

O que realmente precisamos

Baseado em anos de prática e evidências científicas, sei o que faria diferença: renda básica adequada para famílias com crianças pequenas; licença parental remunerada de 6 meses mínimo; creches públicas de qualidade com educadores valorizados; segurança alimentar garantida para todas as crianças; escolas públicas equiparadas às particulares; fim da violência em territórios periféricos; combate estrutural ao racismo. James Heckman, Nobel de Economia, calculou: cada real investido na primeira infância retorna 7 a 10 em benefícios sociais. Não é caridade. É o melhor investimento de uma sociedade.

As perguntas que ficam

Por que permitimos fome infantil em país que produz comida para 1 bilhão de pessoas? Por que escolas públicas são sucateadas enquanto há dinheiro para isenções fiscais? Por que naturalizamos que mães trabalhem 12h/dia por salário mínimo? Quem lucra com esse sistema? No consultório, faço o que posso. Mas a neurociência nos dá argumento de urgência – os primeiros anos são janela crítica. A solução não é técnica. É política.

O que escolhemos

Miguel não precisa de pena. Precisa de justiça. Laura não escolheu vantagens. Miguel não escolheu obstáculos. Mas eu, como profissional de saúde, escolho não aceitar isso como inevitável. E você? A ciência mostrou que injustiça social tem custos neurobiológicos reais. E que intervenções funcionam. Agora é com todos nós: vamos continuar aceitando que código postal determine desenvolvimento cerebral? Ou vamos, finalmente, tratar isso como o escândalo que é?

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Thiago Luciani
Thiago Luciani
Psicólogo, Neuropsicólogo e Neurocientista. Apaixonado por pessoas e movido pela curiosidade, dedica-se ao estudo do comportamento humano e ao desenvolvimento de estratégias para promover saúde mental, inteligência emocional e autoconhecimento. Acredita no poder do conhecimento como ponte para a transformação individual e coletiva.

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