“Estamos diante de um cenário complexo, em que as crianças são as mais afetadas. Seu bem-estar e proteção sofrem com o aumento dos conflitos, deslocamentos, pobreza, violência e outras carências”, afirmou a Dra. Najat Maalla M’jid, Representante Especial do Secretário-Geral da ONU sobre Violência contra Crianças, ao abrir um debate sobre seu relatório anual no Conselho de Direitos Humanos, em Genebra.
O documento destaca tendências preocupantes no ciberbullying, uma das maiores preocupações entre os jovens. Uma pesquisa realizada pelo Escritório da Representante Especial com mais de 30 mil crianças de várias partes do mundo revelou que 66% acreditam que o ciberbullying aumentou e que metade delas não sabe onde nem como denunciar e obter apoio.
Como explica o UNICEF, o ciberbullying envolve atos de intimidação praticados por meios digitais. Pode ocorrer em redes sociais, aplicativos de mensagem, ambientes de jogos online e telefones celulares. É um comportamento repetitivo, com o objetivo de assustar, irritar ou envergonhar as vítimas. Exemplos incluem:
- Divulgar informações falsas ou compartilhar imagens constrangedoras de alguém nas redes sociais;
- Enviar mensagens ou ameaças humilhantes por plataformas de comunicação;
- Fingir ser outra pessoa para enviar conteúdo ofensivo a terceiros em seu nome.
A inteligência artificial está transformando a ameaça
O avanço rápido e a ampla disponibilidade da IA generativa estão mudando o ciberbullying, tornando-o mais rápido, personalizado, difícil de identificar e com potencial para se espalhar em larga escala por várias plataformas. Isso permite a criação de deepfakes, o direcionamento automatizado e a manipulação de crianças por meio de chatbots e outras ferramentas nas quais elas muitas vezes confiam excessivamente, sem conseguir distingui-las de uma interação humana genuína. Imagens e vídeos deepfake gerados por IA, inclusive por meio de aplicativos de “nudificação”, são usados cada vez mais para envergonhar, ameaçar e explorar crianças online.
O relatório alerta que as crianças geralmente não denunciam o ciberbullying com facilidade, pois enfrentam estigmas, não sabem a quem recorrer, temem a rejeição dos colegas ou o julgamento dos adultos.
As consequências do ciberbullying podem ser imediatas e devastadoras, causando angústia psicológica e danos duradouros à reputação em questão de segundos. Nos casos mais extremos, pode levar os jovens ao suicídio.
É essencial a participação de todos os setores da sociedade
A Dra. Maalla M’jid ressaltou a importância de mobilizar todos os envolvidos no ecossistema de proteção infantil online, como governos, setor privado, educadores, famílias, crianças e adolescentes.
Essa é a única maneira de criar uma estrutura multissetorial para proteger as crianças dos perigos online, garantindo ao mesmo tempo uma participação virtual segura. Ela destacou a necessidade urgente de assegurar que a proteção e a privacidade das crianças sejam integradas em todas as plataformas digitais e em toda a cadeia de valor da inteligência artificial.
Em seu relatório anual ao Conselho de Direitos Humanos, a Dra. Maalla M’jid enfatizou o papel crucial das crianças e dos jovens, que precisam ser capacitados com pensamento crítico e cidadania digital e incluídos nas soluções, como disse uma criança consultada por seu escritório:
“Os espaços digitais não devem se tornar lugares onde os abusos são apenas informados, mas nunca resolvidos. Eles precisam ser locais onde a ajuda chega de forma rápida, segura e humana. Não construam o futuro digital para as crianças. Construam conosco.”







