ESPECIAL
O episódio de um antigo Boeing 737-200 que aterrissou em Viracopos com imigrantes haitianos — cuja documentação não foi verificada no embarque — trouxe à tona uma das figuras mais controversas de Honduras.
A aeronave, com 43 anos de serviço e há muito fora de operação no Brasil, chegou ao aeroporto na quinta-feira, 12, após sair do Haiti e fazer escalas no Peru e na Bolívia. Durante o desembarque, as autoridades descobriram que apenas dois passageiros tinham de fato a papelada exigida para entrar no país. Os demais estavam sem os documentos obrigatórios ou, pior, portavam papéis falsificados, segundo a Polícia Federal.
Por isso, foram inicialmente impedidos de entrar, cabendo à empresa aérea Aviatsa repatriá-los ao Haiti. No entanto, o avião não decolou, gerando um impasse que o manteve no solo com os passageiros por quase dez horas, até que finalmente receberam autorização para ingressar no país.
O caso levantou várias questões: como uma transportadora opera um voo fretado sem checar devidamente os documentos? Por que esses imigrantes não usaram as rotas aéreas regulares que ligam o Haiti ao Brasil? E qual a razão de fretar um jato antigo de outro país, havendo opções mais próximas? As respostas podem estar ligadas ao dono da aeronave.
O empresário por trás da operação
Felix Francisco Pacheco Reyes é o proprietário da Aviatsa, conforme registro oficial. Ele é uma figura conhecida em Honduras e peça central numa trama que lembra uma telenovela latina, envolvendo políticos, empresários e o crime organizado.
Além de dono da companhia aérea do Boeing que pousou em Viracopos, ele tem outras dez empresas registradas em seu nome, a maioria no setor de transportes, incluindo a Inversionistas Tecnológicos Unidos (Itusa). Além do nome pouco criativo, essas empresas compartilham uma característica: contratos considerados suspeitos.
No fim do ano passado, a Itusa fechou um acordo com a Polícia Nacional de Honduras para alugar um jato, representando o caso mais recente de negócio entre o empresário e o poder público, como destacou o veículo de jornalismo investigativo hondurenho Criterio.
Conexões com o poder e acusações
A principal ligação de Reyes com o governo se deu através do ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández, que governou o país de 2014 a 2022 e depois foi preso numa operação da Agência Antidrogas dos Estados Unidos (DEA), acusado de corrupção e tráfico internacional de entorpecentes. Ele foi deportado e condenado a 45 anos de prisão, mas cumpriu pouco mais de três, pois no final do ano passado recebeu um perdão presidencial de Donald Trump e retornou a Honduras.
Segundo um documento obtido diretamente do Departamento de Justiça dos EUA (DOJ), o empresário teria intermediado a venda de três aeronaves: um Beechcraft King Air C90, outro King Air do modelo B200 e um helicóptero Bell 429. Essas aeronaves, com matrículas HR-AXL, HR-CLQ e HR-GCA, foram importadas dos Estados Unidos em 2012 e registradas em Honduras.
A aquisição foi conduzida por Reyes, com os aviões registrados em nome do irmão do então presidente Hernández. O que parecia uma operação legítima foi considerada ilegal pelo DOJ, pois o próprio governo hondurenho fretava essas mesmas aeronaves usando uma empresa de fachada de Reyes, efetuando pagamentos ao empresário, que por sua vez os repassava para a família presidencial.
Aeronaves do tráfico
Ainda de acordo com o DOJ, Hernández estava envolvido no uso de aviões, lanchas rápidas e até um submarino para processar, transportar e distribuir “milhares de toneladas de cocaína que chegavam a Honduras”, produzida em laboratórios na Colômbia.
Outras acusações incluem a intermediação de subornos entre a organização criminosa Los Cachiros e policiais hondurenhos, para assegurar o fluxo contínuo da droga pelo território. Parte desses pagamentos teria sido feita com financiamento de campanhas de políticos do Partido Nacional de Honduras (PNH), uma das maiores agremiações do país. Grande parte dessas negociações foi secretamente gravada pela DEA e usada em processos contra todos os envolvidos.
Pista de pouso na cidade da família do ex-presidente
Essas aeronaves também foram avistadas transportando políticos e jornalistas durante a inauguração do Aeródromo de Río Amarillo, no interior do país, que possui uma pista de 1.400 metros.
A construção desse aeródromo envolve doações questionáveis e a utilização de diversas empresas de aliados do então presidente Hernández, que por uma grande coincidência nasceu na região, conforme aponta uma extensa investigação do periódico Expediente Público.
Outros nove aeródromos e aeroportos foram inaugurados durante os dois mandatos de Juan Orlando Hernández, sempre com a presença da primeira-dama, suas filhas e sua sogra, utilizando um dos King Air importados por Reyes e pagos pelo governo hondurenho.
Caixa de Pandora
Outro caso que envolve Reyes é o chamado “Caso Pandora”, com desvio de 12 milhões de dólares de fundos públicos de campanha, que ainda está sob investigação e nesta semana teve um novo desdobramento: Juan Hernández é foragido da Justiça e teve um pedido de habeas corpus negado.
Havia pressão para que o mandado de prisão fosse retirado, a fim de permitir que Hernández se candidatasse novamente a cargos públicos.
Nesse caso, foi revelado o uso de empresas privadas para lavar dinheiro de desvios de recursos públicos, com a Aviatsa envolvida em contratos de fretamento de outro Boeing 737-200, de matrícula HR-AVR, conforme aponta o próprio Ministério Público de Honduras.
Essa aeronave também teria sido usada num contrato de 2020, no qual a Aviatsa teria sido contratada para buscar 50 médicos hondurenhos que estavam em Cuba e eram necessários no país para auxiliar no tratamento das vítimas do coronavírus. Esse contrato serviu de justificativa para retirar uma restrição de saída de Reyes do país, inicialmente aceita pela Justiça. No entanto, após ser contestada por uma unidade anticorrupção do próprio governo hondurenho, a decisão foi revertida, impedindo o piloto de operar o Boeing para resgatar seus compatriotas.
Caso Brasil
Até o momento, não está claro quem bancou o fretamento da Aviatsa para trazer os imigrantes haitianos ao Brasil, nem o motivo de não terem usado outras companhias aéreas que fazem essa rota regularmente e sem complicações alfandegárias ou legais.
A Polícia Federal informou que investiga a Aviatsa por possível tráfico de pessoas. A companhia aérea, por sua vez, alegou que “passou a ser compelida a decolar com os passageiros, o que não foi acatado, pois entende que estariam vários direitos das pessoas sendo violados, com o que não concorda”, mas que “reconhece a competência do Estado brasileiro para realizar controle migratório e fiscalização administrativa. Caso a autoridade entendesse haver qualquer irregularidade, medidas administrativas poderiam ser adotadas contra a companhia aérea”.
Por fim, a Aviatsa destacou que “o fato ocorrido somente evidenciou uma atitude intransigente que vem sendo adotada pela Polícia Federal já há algum tempo em relação aos nacionais haitianos que chegam ao Brasil pela via aérea, que é a mais controlada e segura”, ignorando que os voos realizados pela AeroRegional, do Equador, ocorrem semanalmente do Haiti para Viracopos, há vários anos, sem qualquer problema.






