2 de fevereiro de 2026
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

César Lattes fez descoberta que marcou a física; saiba quem é o físico que marcou a história

No topo do Monte Chacaltaya, a 5,5 mil metros acima do nível do mar, em La Paz, o jovem físico brasileiro César Lattes, com apenas 23 anos, estava diante do cenário de sua descoberta mais notável em 1947. Respirando com dificuldade na altitude boliviana, ele sabia que seu esforço valeria a pena. Preparou um experimento com emulsões químicas em chapas fotográficas e conseguiu identificar as partículas méson Pí, até então apenas teorizadas para explicar o funcionamento do átomo.

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A descoberta rendeu o Prêmio Nobel para o chefe do laboratório em Bristol, na Inglaterra, Cecil Powell, para quem Lattes trabalhava. Embora não tenha sido agraciado individualmente, César Lattes foi aclamado e ganhou fama mundial. Embora tenha recebido convites de várias partes do mundo para trabalhar, ele optou por retornar ao Brasil. Lattes nasceu em Curitiba (PR) em 1924 e faleceu em 2005.

No meio acadêmico brasileiro, Lattes é homenageado pelo nome da plataforma que centraliza dados de pesquisadores e professores brasileiros, no âmbito do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Isso se deve à sua trajetória que transcendeu o campo da pesquisa e defendeu incansavelmente a ciência no Brasil.

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César Lattes foi um jovem prodígio que se formou em Física na Universidade de São Paulo (USP) aos 19 anos, entre 1941 e 1943. “Nas disciplinas do último ano, que abordavam temas avançados relacionados à física moderna do século 20, associados à relatividade e aos conhecimentos quânticos, ele obteve nota máxima em todas as matérias”, relata o professor Ivã Gurgel, da USP. Seu desempenho excepcional era raro naquele curso, que estava alinhado com os principais avanços científicos mundiais da época.

Após a graduação, Lattes mostrou interesse pelo trabalho realizado na Inglaterra na detecção de partículas de raios cósmicos, um tema que já explorava com seus professores Gleb Wataghin e Giuseppe Occhialini no Departamento de Física. Em 1946, a convite de Occhialini, Lattes foi para a Universidade de Bristol, no Reino Unido, com uma bolsa do British Council, para trabalhar no laboratório de Cecil Powell na calibração de novas emulsões nucleares, um avanço das chapas fotográficas convencionais.

O experimento visava entender como prótons (partículas carregadas positivamente) permanecem unidos no núcleo do átomo sem se repelirem, um problema crucial na física nuclear da década de 1930. “As partículas mésons estavam sendo pesquisadas há uma década por físicos não apenas na Inglaterra, mas também nos Estados Unidos”, explica Antonio Augusto Videira, professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e colaborador do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF).

Lattes rapidamente começou a explorar métodos alternativos para melhorar a confiabilidade dos experimentos com emulsões, após observar que os métodos anteriores não conseguiam fornecer dados quantitativos precisos sobre massa e energia dos eventos. “O méson funciona como uma partícula intermediária entre o próton e o nêutron”, acrescenta Videira.

Inicialmente, Lattes tentou realizar experimentos no Pic du Midi, a 2.880 metros de altitude na França, utilizando emulsões tratadas com boro, mas sem sucesso satisfatório. Decidiu então tentar em uma montanha mais alta, na Bolívia, onde, após deixar as chapas fotográficas expostas, retornou um mês depois para recolhê-las e finalmente encontrou os registros desejados.

“A estrutura existente no Monte Chacaltaya, incluindo um clube de esqui e uma estação meteorológica instalada pelo governo boliviano, facilitou o acesso”, explica Videira. Lattes retornou com entusiasmo ao Brasil e apresentou suas descobertas na antiga Faculdade Nacional de Filosofia, vinculada ao Museu Nacional. “Ele ficou bastante animado, chegando a dar um seminário sobre os resultados positivos obtidos nas chapas expostas na Bolívia”, detalha Videira. Ao retornar para Bristol, a equipe revisou os dados e publicou trabalhos que confirmaram a existência dos mésons, contribuindo significativamente para o reconhecimento de Cecil Powell em 1949.

Embora indicado sete vezes ao Prêmio Nobel, Lattes nunca foi agraciado. No entanto, suas pesquisas tornaram-se amplamente reconhecidas e destacadas na imprensa nos anos seguintes. “Sua crescente notoriedade foi fundamental para a transformação da física e da ciência brasileiras”, destaca Videira.

Lattes foi convidado a trabalhar em várias instituições ao redor do mundo, mas optou por retornar ao Brasil, onde não apenas contribuiu para o avanço da física, mas também se engajou na defesa da ciência, juntando-se a outros pesquisadores na luta por melhores condições e investimentos. “Ele foi fundamental na campanha pelo regime de tempo integral para professores, hoje conhecido como dedicação exclusiva”, relata Gurgel.

O contexto do pós-Segunda Guerra Mundial enfatizava a importância da ciência para o desenvolvimento econômico, social e cultural de um país, o que culminou na criação de instituições como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). “A física não podia avançar isoladamente; era necessário o suporte de químicos, engenheiros e matemáticos”, observa Videira.

Para Gurgel, é essencial preservar e divulgar a memória de Lattes para inspirar as gerações mais jovens. “Muitos alunos de graduação desconhecem quem foi César Lattes. Precisamos trabalhar na preservação e divulgação de sua história”, destaca o professor da USP.

A vida de César Lattes, um defensor apaixonado da ciência e de ideais nacionalistas, serve como um exemplo inspirador. “Seria muito enriquecedor se as escolas pudessem multiplicar histórias como a dele, utilizando textos e vídeos para disseminação nas redes sociais”, conclui Videira.

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