Como nasce um samba?

Da ansiedade até a plenitude: os compositores vivem momentos mágicos na elaboração de um samba-enredo.

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O processo criativo na elaboração de uma música já foi divulgado várias vezes pela mídia, mas o processo do samba-enredo para o desfile de Carnaval de uma Escola de Samba é pouco conhecido pelo público.

Explicando

O samba-enredo é uma vertente do samba. Surgiu para traduzir, em música, o estudo de um tema histórico, folclórico ou de outra categoria. É escolhido por uma Agremiação Carnavalesca para representá-la em canto e dança no desfile do ano seguinte.

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A obra musical, comumente chamada de hino, não nasce de uma só vez. É fruto de um processo complexo de criação que envolve pesquisadores, enredistas, carnavalescos, compositores, músicos, produtores, ritmistas, cantores, entre outras pessoas, bem como o estúdio de gravação para finalização.

Antes de ser cantado por uma Escola de Samba, ele passa por uma ampla sequência de ações realizadas pelos compositores. Envolve leituras, reflexões e escolhas.

As dúvidas e desencontros são comuns, mas colaboram para um estágio melhor, o de consonância entre as ideias, frutos da inspiração.

Compositores

Foi esse contexto que fui observar e acompanhar: o trabalho dos compositores Marcelo Rosário e Leo Vieira, durante a elaboração de um samba-enredo para o Carnaval de 2027.

Cheguei à residência na exclusiva condição de jornalista. Um observador do processo criativo e da produção da arte musical. Deixei de lado totalmente a minha história de participação no Samba Capixaba. Mantive somente a experiência na mente e o silêncio. O momento era deles, sem qualquer interferência.

O ambiente parece o de uma “resenha”. E seria, se não fosse de trabalho. Quem disse que seriedade não acontece em um lugar agradável? A inspiração exige concentração, mas também uma “aura” de tranquilidade e bem-estar.

O trabalho começa. Marcelo explica que a sinopse, quando é entregue pela Escola de Samba junto com outras informações, como a setorização, é fundamental para o compositor.

É importante conhecer, por exemplo, a ordem das alas, seus significados, os nomes dos carros alegóricos, entre outros dados. Esses detalhes ajudam a manter a composição do samba em sintonia com aquilo que é necessário apresentar na Avenida.

O termo sinopse, citado acima, diz respeito ao resumo narrativo do enredo. Funciona como um guia para orientar os autores musicais. Um roteiro daquilo que será apresentado no Desfile, porém, matéria-prima para os compositores transformarem tal enredo em obra musical. Eis, então, o processo “mágico” da inspiração.

Aquecimento

Antes de entrar na composição do samba-enredo, a conversa dos parceiros teve um breve e espontâneo “aquecimento”.

De forma descontraída, fizeram um bate-papo comentando sobre estilos de composições e autores consagrados do samba. Uma conversa sobre musicalidade, ritmo e preferências.

Leo Vieira comentou sobre a maneira como determinadas músicas podem perder características importantes quando são interpretadas em andamento acelerado.

De posse do violão, ele cantou um trecho do samba Contos de Areia, de Romildo e Toninho Nascimento, e expôs seu entendimento sobre a execução da música:

“Marcelo, tá vendo só? Tem gente que canta essa música hoje e coloca um BPM (batimentos por minuto) aceleradíssimo. Lá em cima! A música perde a beleza. Esse tipo de música precisa de uma nota prolongada. O sotaque baiano precisa dessa nota prolongada”, disse o músico.

Ele reforçou falando sobre a interpretação pela cantora Mariene de Castro, nascida em Salvador, Bahia:

“Imagine você cantar com um BPM mais rápido! Para mim, perde a beleza! A Mariene de Castro interpretando essa música é fantástica”, afirmou.

Marcelo complementou a conversa ao lembrar de outra composição musical: O Ouro e a Madeira, de Ederaldo Gentil.

Citando que o autor também é baiano, trouxe outro aspecto ao assunto. O sentimento expresso na letra e na melodia. Característica musical que ele considera importante:

“Tem que ter essa dolência. O nome disso é dolência. O que Dona Ivone Lara tem, Nelson Rufino tem. Dolência! O Arlindo (se referindo a Arlindo Cruz) tem. Ele cativou muito com isso”, expressou o compositor.

Processo criativo

A conversa, então, muda de direção. Iniciam o segundo momento do encontro. A elaboração do samba-enredo.

Com a sinopse disponível na mesa, conversam sobre a história. Procuram entender o que precisa ser contado e como transformar aquele conteúdo em letra, melodia e harmonia. Marcelo resume o início desse trabalho em uma frase:

“A música tem isso! A gente tem que entrar na atmosfera da história”, relatou.

Leo começa a cantar o que já havia sido construído no encontro anterior. A letra é revista. Uma palavra é discutida. Outra é experimentada.

Marcelo explica que a composição funciona como um mosaico de palavras e que qualquer alteração precisa ser avaliada dentro do conjunto:

“Qualquer palavra que você coloca, você tem que analisar o texto todo. Se essa palavra já não está representada. Se isso já não aconteceu”, disse o artista.

Então, Leo completa a explicação de Marcelo:

“Se vai fazer sentido”, expressa o músico.

Eles falam o que já sabem e já fizeram inúmeras vezes, mas se comunicam como se a revisão do conhecimento participasse da ativação da inspiração. Esta é apenas a impressão de um observador.

Marcelo cita um caso. Sobre uma sinopse em outro trabalho, que foi ajustada após os compositores concorrentes terem produzido suas obras e terem, inclusive, gravado.

Modificar, inserir ou retirar alguma palavra ou expressão da sinopse para que o conteúdo do enredo seja ajustado não é algo fácil:

“Isso causa uma tensão”, afirmou Marcelo.

A composição exige escolhas permanentes. O que entra como algo novo precisa “conversar” com aquilo que já foi construído.

Ansiedade natural

O trabalho continua. Marcelo e Leo se levantam, caminham, voltam ao texto e retornam aos trechos do samba, como se burilassem um diamante ainda bruto.

Há momentos de concentração e outros de pausa. Uma ideia não funciona. Outra surge. Até que uma palavra é escolhida para um lugar certo. O ambiente muda. O sorriso acontece.

A inspiração, naquele momento, não parece ser apenas uma ideia repentina. É também consequência da procura incansável. Ainda assim, o processo não termina.

Novas revisões são feitas. O enredo volta a ser consultado. A letra é conferida. A melodia é repetida. Eles procuram saber se aquilo que estão construindo corresponde ao que precisa ser apresentado.

No samba-enredo, letra e música precisam caminhar juntas. A palavra precisa contar a história, mas também precisa caber na melodia.

“Acorde” final

No final do encontro, Marcelo olha para o texto escrito e anuncia como se fizesse a leitura mental do parceiro:

“O samba tá aí, Leo!”, falou com voz serena.

Para Leo, ainda havia algo a responder, e ele pergunta:

“Do que está aqui, vocês curtiram?”

Marcelo, então, responde empolgado. Ele usa uma definição do próprio modo de trabalho dos sambistas:

“Nós temos que jogar pedra na gente mesmo. E nós temos que ter as respostas para nossas questões”, disse o compositor, também de forma serena.

Apoteose Musical

A criação termina entre sorrisos, brincadeiras, salgadinhos e cerveja gelada. Momento tradicional entre compositores deste gênero musical.

Para quem vê apenas o samba pronto, cantado e dançado pela Escola de Samba na Avenida, talvez seja difícil imaginar o que aconteceu antes.

Ali, naquele encontro entre Marcelo e Leo, um samba foi construído. A história precisava ser contada e, então, a arte musical foi produzida.

Os próximos passos são a inscrição do samba, depois, a apresentação para a escolha do hino oficial, em disputa com outros concorrentes em data agendada pela Agremiação.

Uma nova fase do processo ocorre. Os sambas descartados vão para a “gaveta” dos compositores. O samba vencedor passa pela análise do intérprete. Este irá realizar os ajustes do canto e, após isso, segue para produção musical, gravação e os ensaios preparatórios do desfile.

Mas aí, é outra história.

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Tony Silvaneto
Tony Silvaneto
Jornalista formado e credenciado pela FENAJ. É o codinome de Antonio da Silva Neto, reconhecido como artista com mais de 15 anos na Cultura Popular Capixaba. Pesquisador e escritor regional, registrou por cinco anos diversas manifestações culturais capixabas. Criador do canal CultureVox (YouTube), dedicado à Cultura Contemporânea, Experiências de Vida e Meio Ambiente. Integra o Coletivo Rede de Memórias de Cultura Popular.

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