À medida que o horizonte político brasileiro se volta para o pleito de 2026, o ambiente público volta a ser tomado por uma atmosfera de tensão quase palpável. Reduzir o que veremos nos próximos dias a uma simples disputa entre ideologias, partidos e candidatos, porém, talvez seja insuficiente para compreender por que a política passou a ocupar tanto espaço na vida emocional de tantas pessoas.
A efervescência que antecede o voto pode ser lida também como expressão de uma crise de confiança, pertencimento e autoridade. Quando referências institucionais e morais deixam de oferecer segurança, cresce a tentação de procurar pessoas que encarnem, em nossa imaginação, aquilo que sentimos estar faltando. A arena política torna-se, então, mais do que um espaço de administração da coisa pública: transforma-se em palco para nossas expectativas, medos e esperanças.
A urna como confessionário
Uma das lentes possíveis para compreender esse fenômeno é a da transferência: o processo pelo qual sentimentos, expectativas e imagens construídas em outras relações podem ser deslocados para novas figuras de autoridade. Aplicada à vida pública com cautela — e sem transformar uma hipótese psicológica em diagnóstico coletivo — essa ideia ajuda a pensar por que determinados líderes deixam de ser percebidos apenas como administradores e passam a ocupar lugares simbólicos muito maiores.
Queremos, muitas vezes, um redentor. Um “messias de plástico”, fabricado sob medida pela comunicação política, capaz de simplificar o mundo e prometer proteção diante de uma realidade que não controlamos. Quando transformamos o gestor público em uma figura paternal, salvadora ou quase mítica, corremos o risco de transferir para ele uma responsabilidade que pertence também a nós: a de participar conscientemente da vida pública.
O cérebro diante da incerteza
Há, ainda, uma dimensão cognitiva nesse processo. Pesquisas em psicologia cognitiva mostram que seres humanos recorrem a atalhos mentais — heurísticas — para tomar decisões em ambientes complexos. A necessidade de reduzir incerteza e organizar rapidamente grandes volumes de informação pode favorecer narrativas simples, especialmente quando estamos diante de situações emocionalmente carregadas.
Isso ajuda a compreender por que discursos políticos que oferecem respostas absolutas podem ser sedutores. O problema começa quando a simplificação transforma o debate em uma batalha moral permanente: de um lado, os puros; do outro, os corruptos; de um lado, os que “salvarão” o país; do outro, aqueles que supostamente representam sua destruição.
Nesse ambiente, o adversário deixa de ser apenas alguém que defende outra política pública. Passa a ser percebido como ameaça à própria identidade. A discordância política se converte em conflito pessoal, e a convicção pode dar lugar ao dogma.
Quando a política vira fé
É nesse ponto que a metáfora religiosa se torna particularmente útil. Não porque política e religião sejam a mesma coisa, mas porque determinados comportamentos políticos podem assumir características semelhantes às de uma fé: a necessidade de pertencimento, a defesa incondicional do grupo, a demonização do adversário e a dificuldade de admitir contradições no próprio campo.
O problema não está em admirar um candidato, defender uma proposta ou possuir convicções políticas firmes. Uma democracia depende justamente da existência de diferenças. O problema surge quando a lealdade à figura substitui a avaliação das ideias, dos resultados e dos limites do poder.
A maturidade do voto
Diante disso, talvez seja necessário abandonar a fantasia de que a próxima eleição produzirá, finalmente, o personagem capaz de resolver nossas angústias coletivas. Nenhum presidente, governador, prefeito ou parlamentar poderá preencher sozinho os vazios de uma sociedade.
A política é menos épica do que gostaríamos. É feita de orçamento, instituições, negociação, limites, escolhas difíceis, resultados mensuráveis e consequências. Não há redenção permanente dentro de uma urna eletrônica.
Talvez a maturidade democrática comece justamente quando deixamos de perguntar quem será o nosso salvador e passamos a perguntar o que, concretamente, cada candidato pretende fazer, como pretende fazê-lo, quanto isso custará, quais são os limites de suas propostas e quais resultados podemos razoavelmente esperar.
A urna pode ser um instrumento de esperança. Mas não deveria ser um altar.
Votar não precisa ser um ato de fé. Pode ser um exercício de responsabilidade.
O trono e o vazio
Essa reflexão dialoga com duas colunas anteriores, “O Trono Desocupado” e “O Trono Visível”, nas quais procurei explorar a relação entre a crise de autoridade e nossa tendência humana de procurar figuras que ocupem simbolicamente o lugar deixado vazio.
Talvez o verdadeiro desafio de 2026 não seja encontrar o messias certo. Talvez seja descobrir se conseguimos viver sem precisar transformar nenhum político em messias.
E você?
Quando estiver diante da urna, talvez valha fazer uma pergunta simples: estou escolhendo um gestor para exercer uma função pública ou procurando alguém que preencha um vazio que não pertence à política?
A resposta não determina apenas a forma como enxergamos uma eleição. Ela pode revelar algo sobre a maneira como lidamos com incerteza, autoridade, responsabilidade e liberdade.








Você poderia detalhar o trecho que começa com “À medida que o horizonte político brasileiro se volta para o pleito…” com um exemplo concreto? Tenho uma pergunta separada sobre “O problema não está em admirar um candidato, defender uma proposta ou…”: o que um leitor poderia consultar para entender melhor esse ponto?
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