Após a conclusão da aquisição da Activision Blizzard King (ABK) por US$ 68,7 bilhões (cerca de R$ 368,6 bilhões, na cotação de 28/09/2026) em outubro de 2023, o Xbox promoveu cinco grandes rodadas de demissões na divisão, em sua maioria alinhadas a cortes simultâneos em todos os demais departamentos da Microsoft, que resultaram no desligamento de 5.750 funcionários, no fechamento ou desmembramento de estúdios e no cancelamento de projetos.
Recentemente, o CEO da Microsoft, Satya Nadella, classificou os diversos cortes dos últimos anos como uma simples “simplificação” nos negócios da divisão, atualmente liderada por Asha Sharma, com o objetivo de torná-la lucrativa. Como resultado, o Xbox de hoje é bem menor do que era anos atrás, porém mais eficiente — só o tempo dirá.
A divisão Xbox vai terminar o ano de 2026 bem diferente (e menor) do que quando começou.
O Xbox não é mais aquele
É fato que o mercado de games em 2026 foi um verdadeiro pandemônio. Com cada vez mais estúdios e companhias obcecados pelo dinheiro fácil prometido pelo GaaS (Jogos como um Serviço), multiplicam-se as empresas que perseguem modelos de monetização contínua e garantida, em detrimento de experiências tradicionais como o single player.
A Sony, por exemplo, encerrou a Bluepoint Games por esta não se adequar ao modelo atual da empresa, focado em experiências online monetizáveis — filosofia que, anos antes, já havia vitimado o Japan Studio. O Xbox, enquanto ainda era gerenciado por Phil Spencer, tratou de expandir ao máximo e comprar todos os estúdios disponíveis, resultando em aquisições bilionárias como a Activision e a Bethesda, esta última por US$ 7,5 bilhões (cerca de R$ 39,1 bilhões) em 2021.
Outros estúdios e desenvolvedoras sob seu guarda-chuva incluíam a Double Fine de Tim Schafer, a Compulsion Games (South of Midnight), o Undead Labs (State of Decay), a Ninja Theory, a Arkane e vários outros. Para recuperar o investimento — e, paralelamente, devido à escalada vertiginosa nos preços de componentes, cortesia da inteligência artificial —, a Microsoft elevou de forma violenta o preço do Game Pass, que chegou a um reajuste de 100% no plano Ultimate no Brasil, saltando de R$ 60/mês para absurdos R$ 120/mês.
Desnecessário dizer que o plano fracassou. O público ficou furioso e começou a debandar em massa para outros sistemas, sejam consoles concorrentes ou lojas de PC fora do ecossistema da Microsoft (Steam, Epic Games Store, GOG etc.). Nessa mesma época, Satya Nadella foi tomado pelo espírito obsessivo da inteligência artificial e adotou uma filosofia de “queimar os navios”, ordenando a todos os gerentes e SVPs das divisões da Microsoft que refizessem todas as soluções da empresa em torno de soluções generativas, que passaram a ser a única prioridade daqui em diante.
O Xbox não escapou: Phil Spencer foi substituído por Sharma, até então uma executiva da divisão de… exatamente, IA. No início, ela tomou decisões simpáticas ao público, como reduzir o valor da assinatura do Game Pass e remover o Copilot do console, mas a boa vontade inicial desapareceu quando ela anunciou um reset completo na divisão, que demitiu 1.600 funcionários na primeira rodada e promete cortar ao todo 3.200 postos de trabalho, além de desmembrar a Double Fine e a Compulsion e colocar uma placa de “vende-se” na Ninja Theory e na Arkane.
Situação do Xbox Game Studios em setembro de 2026.
A segunda fase do reset, anunciada em 22 de setembro de 2026, resultou na demissão de mais 268 funcionários, a maioria desenvolvedores do Halo Studios, antigo 343 Industries, ao mesmo tempo em que promoveu uma série de mudanças na estrutura dos estúdios:
- World’s Edge (Age of Empires), que também teve desenvolvedores demitidos, e Rare (Sea of Thieves) foram absorvidas pela Activision, que lançará o próximo Halo. Alguns poucos desenvolvedores dos Halo Studios permanecerão, mas exercerão função de suporte;
- Obsidian (The Outer Worlds), que desenvolverá o próximo Fallout, foi absorvida pela Bethesda, que gerenciará o processo. A segunda garante que a primeira manterá sua identidade criativa;
- King (Candy Crush Online) absorveu todos os games casuais da Microsoft (Jewel, Solitaire);
- Playground Studios e Turn 10 “se fundiram” em um único estúdio, que adota o nome do primeiro e terá foco em Forza e Fable;
- Undead Labs foi desmembrado e, assim como Double Fine e Compulsion, voltou a ser independente. State of Decay 3 ainda será um Day One do Game Pass, mas será distribuído por outra empresa que não a Microsoft/Xbox; o estúdio já demitiu pessoal;
- Ninguém demonstrou interesse pela Ninja Theory, que pode ser fechada. Não há garantia alguma de que Senua, originalmente agendado para 2027, seja lançado um dia;
- A situação da Arkane ainda está em aberto, pois um possível fechamento foi questionado pelo governo e por sindicatos franceses, que não aprovaram nem um pouco a decisão. O futuro de Marvel’s Blade segue incerto.
Pouco tempo depois do anúncio da segunda fase do reset, Nadella concedeu uma entrevista ao Sources Podcast, na qual não escondeu a empolgação com os rumos que o Xbox está tomando… do ponto de vista corporativo, é claro:
“Estou muito satisfeito com as IPs que temos agora. Se eu olhar para os estúdios, o portfólio que possuímos e nossa capacidade de usar isso para produzir ótimos jogos no futuro, me sinto fantástico.
“A equipe Xbox e a Asha estão fazendo uma série de ajustes e simplificações, o que é ótimo, e precisamos criar um modelo de negócios sustentável e garantido, que nos permita levar esses games a cada vez mais pessoas.
Esse sempre foi o objetivo do Xbox: ser uma grande distribuidora e uma grande plataforma para games, tanto no PC quanto nos consoles.”

Asha Sharma precisa fazer o Xbox dar lucro a todo custo, mas sem enfurecer os fãs; o resgate de Physint, após a Sony cancelar o game de Hideo Kojima, também contou pontos a favor.
Muitas pessoas apontaram a falta de tato de Nadella ao demonstrar empolgação com o processo de “simplificação” do Xbox, que já enviou muita gente para a rua e enviará mais, fechou estúdios e exterminou possibilidades. No entanto, o CEO da Microsoft expressou seu ponto de vista como executivo, vislumbrando algo que a divisão jamais conseguiu: dar lucro. O indiano obcecado por inteligência artificial já deixou claro que a matriz não irá mais bancar a divisão, e Asha Sharma terá de se virar para torná-la lucrativa a todo custo — e, pior, no médio para curto prazo (de preferência, curto).
A margem de lucro de 30% imposta ao Xbox, embora seja um padrão para as demais divisões, é algo insano no mercado de games em geral, que sempre trabalha com números mais modestos, entre 10% e 15%. Mas Nadella e a CFO Amy Hood não quiseram nem saber; se o setor não ficar no verde, seu destino final muito provavelmente será a venda, integral ou aos pedaços.
Nesse sentido, é até compreensível que Sharma esteja, à sua maneira, se esforçando para manter a casa em ordem. Por um lado, ela precisa atender às ordens do chefe e elaborar um plano de negócios lucrativo para o Xbox, mas não pode fazer isso desagradando o público, principalmente se pretende cumprir a promessa de atingir meio bilhão de usuários diários na plataforma (os números atuais giram em torno de 100 milhões por dia).
A absorção providencial de Physint, o game da Kojima Productions desprezado pela Sony (caro demais, segundo rumores, e o Xbox também não arcará com tudo aquilo) e que, de acordo com Hideo Kojima, promete reinventar o gênero de espionagem tática consagrado por sua antiga série Metal Gear Solid, foi uma oportunidade que o Xbox não podia deixar passar — e não deixou. Porém, boa parte da recepção calorosa do público com a atitude se dissipou com a implementação da segunda rodada do reset, pouco depois, no melhor estilo “uma mão dá, a outra tira”.
A Sony também não está muito melhor nas graças dos gamers, devido ao seu plano de encerrar a produção de mídias físicas em seus consoles. Com os preços de games e sistemas cada vez mais altos, tornando o ato de jogar um hobby cada vez mais elitista, atitudes antipáticas de fabricantes de consoles e distribuidoras não ajudam a atrair consumidores — pelo contrário.







