Sun Yuanzhu, interpretado pelo ator Liu Xiaobei, é o tipo de amigo que qualquer pessoa gostaria de ter por perto. Gentil, responsável e sempre atento às necessidades dos que o rodeiam, ele atua como um verdadeiro pilar para seu grupo em “The Early Spring”, drama chinês protagonizado por Jing Boran e Sun Qian, disponível na Netflix. Contudo, por trás da imagem de equilíbrio e altruísmo construída pelo ator Liu Xiaobei, esconde-se uma espiral silenciosa de sobrecarga emocional que termina em suicídio. A produção alcançou a terceira posição entre as séries mais assistidas da Netflix no Brasil na semana de 7 a 13 de setembro. Na lista da semana seguinte, ocupava o oitavo lugar.
A trajetória de Yuanzhu espelha uma realidade dura: depois de perder a mãe para o câncer, o rapaz assume o sustento da irmã mais nova e enfrenta a pressão financeira causada por um pai viciado em jogos de azar. Ao mesmo tempo em que se anula diariamente, deixando de lado a própria alimentação e o descanso para manter a família estruturada, ele permanece como o porto seguro dos amigos, sem conseguir expressar a própria dor.
De acordo com Marília Batarra, coordenadora de Saúde Mental das Linhas de Cuidado da Amil, essa dificuldade pode fazer com que o sofrimento passe despercebido até mesmo por aqueles que convivem com a pessoa:
“Existe uma dificuldade cultural em reconhecer que não estamos bem. Para algumas pessoas, admitir isso representa entrar em contato com uma sensação de fragilidade, dependência ou perda de controle. Assim, elas seguem funcionando, trabalhando, cuidando dos outros e cumprindo suas obrigações, enquanto por dentro ficam cada vez mais sobrecarregadas”.
A médica salienta que não há um perfil único de indivíduo em sofrimento psíquico ou com comportamento suicida. Segundo ela, a pressão para se mostrar forte e solucionar os problemas alheios pode virar um entrave quando acompanhada da crença de que demonstrar fragilidade ou pedir auxílio está fora de cogitação. Entre os homens, afirma a especialista, a expectativa de autocontrole e resistência emocional pode dificultar ainda mais a expressão dos sentimentos.
A dimensão do problema entre os jovens
Neste mês, a história de Yuanzhu se integra às discussões do Setembro Amarelo, campanha de conscientização sobre a prevenção do suicídio. Os dados brasileiros evidenciam a dimensão do problema entre os jovens. O segundo Informe Epidemiológico sobre a Situação de Saúde da Juventude Brasileira: Saúde Mental, da Fiocruz, de 2025, indica uma taxa de 31,2 mortes por suicídio a cada 100 mil jovens, superior à taxa de 24,7 por 100 mil habitantes na população geral. Entre os homens jovens, o índice alcança 36,8. O estudo também registra que menos da metade dos jovens internados por problemas de saúde mental recebe acompanhamento médico ou psicológico após a alta.
Sinais de alerta e busca por ajuda
Tristeza, medo e frustração fazem parte da vida. Conforme Batarra, o sinal de alerta é a persistência ou o agravamento do mal-estar, especialmente quando interfere no sono, no trabalho, nos estudos, nas relações ou na capacidade de sentir prazer.
“Também precisamos ficar atentos quando a própria pessoa percebe: ‘não estou conseguindo retomar meu funcionamento habitual’. E há um ponto importante: não é necessário esperar que o sofrimento se torne extremo para buscar ajuda”, afirma.
A especialista destaca que o acompanhamento com psicólogos e psiquiatras também pode auxiliar na compreensão do que mudou antes que o quadro se agrave. Para ela, a história de Yuanzhu pode funcionar como ponto de partida para um diálogo sobre cuidado, contanto que o suicídio não seja retratado como consequência inevitável de uma perda nem como solução para o sofrimento.






