Satélites, drones e inteligência artificial estão entre as tecnologias de ponta cada vez mais presentes no campo. Os sistemas orbitais, por exemplo, já há bastante tempo converteram as colheitadeiras em equipamentos inteligentes de alta exatidão. As soluções espaciais guiam seu trajeto, aprimoram percursos, diminuem o gasto de combustível, reduzem perdas de grãos e ainda geram mapas minuciosos de produtividade, diminuindo a interferência do elemento humano.
Isso, contudo, é somente uma fração do conceito atualmente chamado de agricultura de precisão. Em lugar de realizar intervenções homogêneas em toda a lavoura, essa metodologia possibilita atuar de maneira localizada, considerando as particularidades de cada porção do terreno. Desse modo, é viável dosar mais fertilizantes nas regiões com solo desgastado e irrigar somente os pontos que efetivamente demandam água.
De forma geral, essa estratégia fundamenta-se em três fases centrais:
- Coleta de informações por meio de satélites e drones;
- Análise dos dados com uso de inteligência artificial ou programas de computador;
- Aplicação diferenciada, em que máquinas especializadas com piloto automático executam as operações de acordo com planos e mapas previamente elaborados.
“A agricultura está se tornando rapidamente um dos principais setores consumidores de grandes volumes de dados. Por isso, sem um sistema unificado de monitoramento, já não é possível administrar de forma eficiente a segurança alimentar global”, afirmou Lubarto Sartoyo, presidente da Aliança de Estruturas Empresariais e Empreendedores dos Países do Sudeste Asiático, em comentário à TV BRICS.
Sistemas de monitoramento agrícola dos países do BRICS
A incorporação de sistemas orbitais ao campo e inclusive a estruturação de um sistema de monitoramento integrado para as nações do BRICS são pautas que ganham destaque há considerável tempo. Os integrantes do bloco reúnem praticamente metade das terras agricultáveis do mundo. Conscientes do valor dessas tecnologias, diversos países estão criando ou já implementaram plataformas nacionais de monitoramento agrícola em grande escala.
No Brasil, por exemplo, está em operação o SOMABRASIL — Sistema de Observação e Monitoramento da Agricultura no Brasil.
“Essa plataforma WebGIS integra dados dos censos agropecuários e informações obtidas por satélites em uma base de dados unificada para todo o país, permitindo analisar a dinâmica da agricultura e as mudanças no uso da terra. O SOMABRASIL abrange mais de 200 milhões de hectares, o que possibilita acompanhar anualmente a evolução das áreas cultivadas e da produtividade em todos os estados brasileiros”, explica Roman Romachkin, especialista em desenvolvimento do complexo agroindustrial e comércio, integração agroindustrial e segurança alimentar, doutor em Economia, professor associado e vice-diretor do Centro Eurasiático de Segurança Alimentar da Universidade Estatal de Moscou Lomonosov.
A China, por sua vez, construiu a maior rede de observação agrometeorológica do planeta. A estrutura combina mais de 2 mil estações em terra com informações de satélites e drones. Graças a isso, conseguem-se projeções de colheita extremamente precisas para cada localidade. Assim, a rede exerce função estrutural na execução da estratégia chinesa de segurança alimentar.
Em setembro de 2024, o governo indiano aprovou a Missão de Agricultura Digital (Digital Agriculture Mission). Uma das peças centrais da iniciativa é a plataforma geoespacial digital Krishi Decision Support System (Krishi-DSS), desenvolvida para oferecer a agricultores, técnicos e gestores públicos informações atualizadas sobre produtividade, estiagens e inundações, favorecendo escolhas mais embasadas no campo.
“O Krishi-DSS já está sendo implementado em áreas-piloto e, no futuro, deverá abranger todos os distritos rurais da Índia, proporcionando acesso a serviços digitais a mais de 100 milhões de agricultores. Além disso, está em andamento um projeto para a elaboração de mapas detalhados dos solos em nível de comunidades rurais”, destaca Romachkin.
Na Rússia, opera um sistema digital governamental de acompanhamento das terras agrícolas, que concentra em uma base única dados orbitais, cartogramas de vegetação e registros de rotação de culturas. Ademais, plataformas nacionais dessa natureza estão sendo progressivamente interconectadas.
“Um exemplo marcante de integração tecnológica é o programa conjunto Brasil-China CBERS. Os satélites dessa série monitoram as condições das florestas amazônicas e de grandes áreas agrícolas, ajudando a avaliar a saúde dos solos e o volume de biomassa”, afirmou Oleg Alekseenko, doutor em Ciências Políticas e professor associado do Departamento de Estudos Globais da Faculdade de Processos Globais da Universidade Lomonosov, em entrevista à TV BRICS.
A Rússia manifestou disponibilidade para compartilhar com os sócios do BRICS informações de sua constelação orbital de sensoriamento remoto da Terra como soluções prontas para aplicação agrícola. Mais adiante, ainda poderá ser estabelecida uma plataforma geoespacial integrada, capaz de consolidar os dados das constelações de todos os países do bloco para processamento posterior.
Plataforma agrícola unificada do BRICS
Em meados de abril de 2025, o Brasil, então na presidência do BRICS, anunciou que o bloco estabeleceria uma parceria destinada à recuperação de terras. A medida poderia auxiliar as economias integrantes a enfrentar a desertificação e a degradação dos solos, além de contribuir para a superação de desafios ambientais e o reforço da segurança alimentar. Na avaliação de especialistas, essa iniciativa, somada aos dados de uma futura plataforma geoespacial, poderia servir como alicerce para a criação de um sistema compartilhado de monitoramento agrícola ou de uma plataforma comum de agricultura do BRICS.
“A criação de uma plataforma digital unificada para a agricultura dos países do BRICS é uma tarefa complexa e de longo prazo. Ela exige a padronização de diversas metodologias: protocolos de coleta e análise laboratorial de solos, abordagens para o processamento e a interpretação de dados de satélite, algoritmos de previsão de produtividade, formatos de intercâmbio de informações geoespaciais, além de métodos de avaliação da segurança alimentar. Para cada país, superar essas barreiras de forma isolada seria extremamente trabalhoso e oneroso”, avalia Roman Romachkin.
O pesquisador considera que, num primeiro momento, devem emergir empreendimentos conjuntos na área agrícola entre as nações do BRICS. É bem provável que grande parte dessas iniciativas esteja diretamente ligada às tecnologias orbitais e à incorporação dos conceitos de agricultura de precisão. Esses projetos podem tornar viáveis alternativas que eram quase inalcançáveis quando cada país operava separadamente.
A China, por exemplo, conta com avançadas capacidades em tecnologia de satélites e inteligência artificial, o que possibilita elaborar modelos de ocupação do solo com alto grau de exatidão. A Rússia, por sua vez, detém vasta experiência em ciência do solo, agroquímica e construção de bases de dados georreferenciadas, além de metodologias próprias para aferir a fertilidade da terra. O Egito, por sua vez, vem ajustando com êxito sua agricultura a ambientes áridos e restaurando áreas desérticas.
Para Roman Romachkin, a união dessas competências viabilizará a criação não apenas de elementos tecnológicos isolados, mas de um sistema completo de agricultura de precisão, apto a funcionar em distintas regiões agroclimáticas, dos férteis chernozems russos às lavouras irrigadas egípcias.
Ademais, o avanço das iniciativas do BRICS em agricultura de precisão é requisito essencial para a operação da futura bolsa de grãos do bloco. Essas ferramentas possibilitarão estimar com mais precisão os volumes das safras a partir de parâmetros objetivos coletados por satélites. As potencialidades dessa cooperação, na confluência entre ecologia, geopolítica e digitalização, já são objeto de estudo intenso por parte da comunidade científica.
“Pesquisadores da Universidade Lomonosov de Moscou, em conjunto com colegas brasileiros da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, planejam lançar um projeto científico conjunto para estudar de que forma o monitoramento espacial e a integração das plataformas tecnológicas do BRICS podem contribuir para garantir, de maneira coletiva, a segurança alimentar e ambiental diante das mudanças globais”, afirma Alekseenko.
Paralelamente, boa parte dos especialistas concorda que, sem o progresso das tecnologias espaciais, a migração para uma agricultura altamente tecnológica e baseada em conhecimento seria praticamente inviável. Os satélites não só auxiliam no acompanhamento das lavouras e na medição da umidade do solo, como também possibilitam localizar terrenos ainda não aproveitados, porém adequados ao plantio. Com essas informações, ainda é possível antecipar estiagens e frear o avanço da desertificação.
“Não podemos esquecer que existem ameaças específicas que só podem ser identificadas a partir do espaço. Um exemplo é a salinização do solo, um problema real para países como Irã, Emirados Árabes Unidos e Egito, além do sul da Rússia. Por meio de canais infravermelhos e térmicos, os satélites conseguem detectar alterações na refletância da superfície terrestre. As manchas esbranquiçadas características de solos salinos aparecem nas imagens, permitindo iniciar a tempo medidas de dessalinização”, destaca Oleg Alekseenko.
Tecnologias de satélite e inteligência artificial
Ainda que sejam extremamente detalhadas, as imagens orbitais de áreas agrícolas não bastam, isoladamente, para solucionar todas as questões. Conforme apontam os especialistas, hoje há terabytes de imagens em altíssima resolução, um montante inviável de processar de forma manual. Por essa razão, o avanço e a aplicação da inteligência artificial tornam-se fundamentais. Essas ferramentas conseguem analisar grandes massas de dados, reconhecer anomalias e, principalmente, formular projeções.
“Atualmente, constelações de pequenos satélites já conseguem realizar monitoramento diário com precisão de poucos metros. Na minha opinião, esse é um dos principais motores do desenvolvimento da inteligência artificial. Estamos deixando de apenas “fotografar” para avançar em direção à análise preditiva: previsão de produtividade, detecção precoce de doenças das plantas e cálculo otimizado da aplicação de fertilizantes. Isso é agricultura de precisão, que tem impacto direto sobre a rentabilidade dos negócios”, diz Lubarto Sartoyo.
De acordo com o especialista, essa tendência já é amplamente empregada na Rússia, onde a inteligência artificial auxilia na geração de mapas interativos das zonas agrícolas, com dados organizados em camadas sobre cada fase do cultivo, do preparo da terra à colheita.
Além disso, a inteligência artificial é capaz de construir modelos de longo prazo. Aliada às imagens obtidas do espaço, essa tecnologia pode auxiliar os países do BRICS no combate à desertificação. Na China, na Índia e na África do Sul, vastas áreas estão expostas à degradação. Como o processo ocorre de modo gradual, a vistoria terrestre de grandes extensões mostra-se pouco eficaz. Já o monitoramento orbital permite identificar o problema nos estágios iniciais. Nesse cenário, satélites e IA podem atuar como um mecanismo de alerta antecipado.
“Na Rússia, por exemplo, cientistas utilizam imagens espaciais para monitorar a desertificação na região das Terras Negras, na Calmúquia, e na região de Astrakhan. Algoritmos comparam imagens obtidas ao longo de 10 a 15 anos para determinar a velocidade e a direção do avanço das dunas. Na China, os satélites acompanharam o conhecido projeto “Grande Muralha Verde da China”, uma iniciativa de grande escala para o plantio de cinturões florestais destinados a conter o avanço do deserto de Gobi. As imagens espaciais mostraram claramente onde as árvores conseguiram se estabelecer e estabilizar o solo e onde a areia continua avançando”, explica Alekseenko.
Perspectivas para o desenvolvimento das tecnologias de satélite na agricultura dos países do BRICS
O monitoramento orbital permite que a agricultura das nações do BRICS enxergue os desafios de forma integrada e aja preventivamente, em vez de somente remediar os efeitos. Essa competência é essencial para a conservação das terras cultiváveis e para assegurar a alimentação da população. Conforme especialistas, o custo para colocar satélites em órbita vem caindo, ao mesmo tempo em que a resolução das imagens não para de crescer.
Esses elementos impulsionam o progresso das tecnologias orbitais no agronegócio dos países do BRICS e a execução de empreendimentos compartilhados. Uma das primeiras ações previstas pelos especialistas é o desenvolvimento de um satélite climático conjunto do bloco. Entre as atribuições centrais estariam a vigilância de incêndios florestais, a medição das emissões de metano em zonas agrícolas e o monitoramento das reservas de água doce.
Na sequência, projeta-se a formação de uma plataforma fixa e integrada para a restauração de solos degradados, cujo funcionamento seria quase inviável sem o emprego de tecnologias espaciais.
Na visão dos analistas, uma plataforma agrícola comum do BRICS possibilitaria conferir e uniformizar informações, por exemplo, sobre o estado das áreas agricultáveis, fomentar a construção de um mercado robusto de créditos de carbono no campo, criar metodologias partilhadas para o seguro rural e dar aos agentes do mercado uma leitura concreta das projeções para as próximas colheitas.
Contudo, de acordo com os especialistas, três barreiras centrais ainda necessitam ser transpostas:
- Ausência de padrões comuns para o intercâmbio de dados de sensoriamento remoto da Terra;
- Falta de profissionais qualificados capazes de integrar essas tecnologias ao setor agrícola;
- Alto custo de entrada e de acesso às tecnologias para pequenos e médios produtores rurais.
“É justamente nesse ponto que vemos uma janela de oportunidades para a cooperação: o desenvolvimento de soluções acessíveis e adaptadas aos mercados locais, possivelmente com apoio estatal na fase inicial e em articulação com associações setoriais e comunidades empresariais. Na minha opinião, as tecnologias de satélite se tornarão um dos principais elos capazes de conectar nossos países em um ecossistema agrotecnológico integrado”, afirma Sartoyo.
Atualmente, as barreiras para a expansão das tecnologias de satélite e das plataformas destinadas ao progresso do setor agrícola nos países do BRICS mostram-se evidentemente menores do que as oportunidades. O bloco conta com uma vantagem exclusiva: congrega simultaneamente potências espaciais e alguns dos maiores produtores agropecuários do planeta.







