A fome representa uma das formas mais primitivas de comunicação do organismo. Ela indica a carência de energia, direciona a procura por alimentos e integra uma dinâmica que abrange também prazer, lembraça, hábitos e interação social. Assim, sua ausência prolongada durante um processo terapêutico merece ser analisada com mais cautela do que entusiasmo.
Os fármacos agonistas do GLP-1 expandiram as possibilidades de manejo da obesidade e do diabetes melito tipo 2. A diminuição do apetite integra seu mecanismo de ação e pode auxiliar no controle ponderal e da glicemia.
Na rotina clínica, no entanto, venho observando uma situação que transcende a simples perda de peso: indivíduos que passam longos períodos sem qualquer estímulo de fome e começam a enxergar esse vazio como indicador de que o tratamento está surtindo efeito.
Esse quadro recebe a denominação de agonorexia, termo que associa a ação dos agonistas do GLP-1 à inibição excessiva do apetite. O conceito funciona como um instrumento clínico, não como um novo distúrbio alimentar ou diagnóstico formal. Ele auxilia a identificar quando a saciedade induzida pelo tratamento se transforma em uma desconexão prolongada dos estímulos corporais.
Quando a ausência de fome é vista como sucesso
Em uma sociedade que valoriza o emagrecimento acelerado, deixar de sentir fome pode ser interpretado como uma conquista. A experiência, todavia, também pode gerar receio de que o apetite retorne, ansiedade diante de pequenas variações de peso e uma monitoração cada vez mais intensa sobre a alimentação. A fome, que é um indicador fisiológico, passa a ser encarada como risco ou fracasso pessoal.
Existe ainda um impacto mais sutil: a perda de referencial interno. Quando o corpo deixa de demandar comida, o ato de se alimentar pode converter-se em obrigação, cálculo ou dever. A pessoa precisa recorrer unicamente ao relógio e a orientações externas como parâmetros para decidir quando e quanto consumir. Essa alteração pode prejudicar a percepção dos próprios sinais e modificar a relação com a comida, inclusive em suas dimensões afetivas e sociais.
Por outro lado, a supressão persistente do apetite pode ocasionar uma ingestão deficitária de proteínas e demais nutrientes. Nessa situação, a perda de peso pode vir acompanhada de diminuição de massa magra, força e energia, com possíveis consequências metabólicas. O número exibido pela balança não revela, de maneira isolada, o que o organismo perdeu.
Cansaço, debilidade, flacidez, mau hálito, queda capilar, dificuldade para atender as exigências nutricionais e desinteresse contínuo pela alimentação não devem ser considerados custo inevitável do emagrecimento. Esses são dados clínicos. É igualmente necessário estar atento a alterações de humor e ao medo excessivo de que a fome retorne, sobretudo quando passam a estruturar a rotina e as decisões da pessoa.
Manter a escuta durante o tratamento
O acompanhamento precisa ir além dos quilos eliminados. Nutrição, composição corporal, força, funcionalidade, estado emocional e resposta individual ao medicamento integram a mesma avaliação. Conforme o caso, esse cuidado inclui o ajuste da dosagem pelo médico responsável, a orientação dietética e o suporte psicológico.
Ao propor uma reflexão sobre a agonorexia, busco abrir espaço para uma questão que costuma ficar oculta pelo resultado imediato: de que forma essa pessoa está perdendo peso?
Os agonistas do GLP-1 são ferramentas relevantes e não devem ser reduzidos a uma narrativa de temor. O cuidado reside em preservar, ao longo do tratamento, a capacidade de nutrir o organismo e continuar em diálogo com ele. A saciedade pode ser terapêutica; o silêncio completo demanda atenção.
Maria Klien é psicóloga e criadora do projeto Psicologia da Moda, iniciativa que articula comportamento, identidade e expressão a partir da relação entre vestuário e subjetividade.







