O que a ciência ensina sobre estudar melhor

Especialistas em educação apontam que o problema de grande parte dos estudantes não é falta de esforço, mas o método usado para estudar. Pequenos ajustes na rotina podem render meses de vantagem para quem prepara provas escolares, vestibular ou concursos públicos

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Sentar por seis horas seguidas com o caderno aberto, reler o mesmo capítulo três vezes e sublinhar quase tudo. Essa é a rotina de estudo de milhões de estudantes brasileiros, e, segundo pesquisadores da área de psicologia cognitiva, uma das formas menos eficientes de aprender. O que realmente fixa conteúdo na memória é bem diferente do que o senso comum sugere.

“O aluno confunde a sensação de familiaridade com o conteúdo com o real domínio dele. Reler um texto várias vezes dá a impressão de que se sabe a matéria, mas na hora da prova essa sensação não se traduz em desempenho”, explica a pedagoga Fernanda Aquino, que há 15 anos orienta estudantes de escolas públicas e cursinhos preparatórios para concursos.

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Levantamentos internacionais sobre técnicas de aprendizagem, reunidos por universidades como Harvard e Cambridge, mostram um padrão consistente: os métodos mais eficazes são também os menos usados espontaneamente pelos estudantes. A seguir, uma seleção das estratégias mais recomendadas por educadores e mais respaldadas por pesquisas na área.

1. Recuperação ativa vale mais que releitura

Em vez de reler anotações, feche o material e tente escrever ou falar tudo o que lembra sobre o assunto, como se estivesse explicando para outra pessoa. Esse exercício de “puxar” a informação da memória, chamado de recuperação ativa, fortalece a conexão neural muito mais do que apenas reconhecer o conteúdo em um texto já pronto.

Na prática: depois de estudar um tema, feche o livro e faça de cabeça um resumo, um mapa mental ou um pequeno teste com perguntas que você mesmo cria.

2. Espaçar o estudo em vez de concentrá-lo

Estudar uma hora por dia durante seis dias fixa mais conteúdo do que estudar seis horas em um único dia. O cérebro consolida memórias durante os intervalos, especialmente durante o sono. Revisar o mesmo assunto em momentos espaçados, por exemplo, um dia depois, uma semana depois e um mês depois, é uma das técnicas com mais evidência científica de eficácia, segundo pesquisadores da área.

3. Alternar matérias e temas (intercalação)

Passar horas seguidas apenas em um único assunto costuma ser menos eficiente do que alternar entre temas diferentes na mesma sessão de estudo. Intercalar, por exemplo, exercícios de matemática com questões de português exige que o cérebro identifique qual estratégia usar em cada caso, o que aprofunda o aprendizado, mesmo que, no início, dê a sensação de que se está rendendo menos.

4. Sono não é tempo perdido, é parte do estudo

Cortar noites de sono para “ganhar tempo” de estudo costuma ter efeito contrário. É durante o sono profundo que o cérebro organiza e consolida o que foi aprendido durante o dia. Pesquisas em neurociência mostram que dormir mal na véspera de uma prova prejudica tanto a memória quanto a capacidade de raciocínio no momento da avaliação.

“Vejo muito aluno de concurso orgulhoso de estudar até de madrugada. Na prática, ele está sabotando a própria memorização”, afirma Fernanda Aquino.

5. Pausas estruturadas rendem mais que sessões maratona

Dividir o tempo de estudo em blocos de foco intenso, intercalados com pausas curtas, ajuda a manter a concentração por mais tempo. Um formato bastante usado é o de blocos de cerca de 25 a 50 minutos de estudo, seguidos de 5 a 10 minutos de descanso real, sem checar redes sociais, apenas levantar, respirar, tomar água.

6. Ambiente de estudo importa mais do que parece

Estudar sempre no mesmo lugar, com barulho e iluminação constantes, é confortável, mas variar o ambiente de estudo, como uma biblioteca, uma sala silenciosa e uma mesa em casa, pode ajudar o cérebro a associar o conteúdo a múltiplos contextos, tornando a lembrança mais flexível na hora da prova, que raramente acontece no mesmo lugar onde se estudou.

7. Alimentação e água influenciam o rendimento

Nutricionistas apontam que quedas de glicose no sangue, comuns quando o estudante pula refeições ou abusa de açúcar e cafeína em excesso, afetam diretamente a concentração e a memória de curto prazo. Refeições equilibradas, com proteínas e carboidratos complexos, e boa hidratação ao longo do dia de estudo, são recomendadas por especialistas como parte da rotina de quem está se preparando para provas.

O que evitar

Educadores citam três hábitos comuns que atrapalham mais do que ajudam:

  • Grifar tudo: sublinhar excessivamente dá a falsa sensação de que o conteúdo foi processado, mas exige pouco esforço mental real.
  • Estudar apenas na véspera: sem tempo de consolidação e sono adequado, a retenção cai drasticamente.
  • Multitarefa durante o estudo: alternar entre o material de estudo e o celular fragmenta a atenção e reduz a profundidade do aprendizado, mesmo que o tempo total dedicado pareça o mesmo.

Para quem estuda para concursos

Além das técnicas gerais, quem se prepara para concursos públicos enfrenta um desafio a mais: volume grande de conteúdo e edital extenso. Especialistas recomendam montar um cronograma de revisão cíclica, priorizando primeiro as disciplinas com maior peso na prova e retomando os temas já estudados em intervalos regulares, em vez de avançar linearmente pelo edital sem nunca voltar aos assuntos anteriores.

“O concurseiro que revisa é sempre mais competitivo do que aquele que só avança matéria nova. Editais são longos demais para confiar apenas na primeira leitura”, resume a pedagoga.

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