Desperte sua vitalidade

Muitas pessoas conhecem alguém que reclama de falta de energia, exaustão, cansaço matinal, corpo pesado logo cedo e perda de interesse por atividades antes prazerosas. Honestamente, grande parte de nós já reproduziu esse discurso com uma frequência crescente.

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Não me refiro apenas àquela fadiga compreensível após um período intenso de trabalho ou algumas noites mal dormidas. Falo de um cansaço que parece ter se incorporado à rotina, que vai minando o ânimo, diminuindo a clareza, encurtando a respiração e nos empurrando para uma vida automática. Seguimos fazendo o necessário, claro, mas com a sensação de que algo essencial está faltando, como se a vida acontecesse sem nossa presença plena.

Talvez por isso a ideia de vitalidade tenha voltado a despertar tanto interesse. Não como um luxo ou um capricho de quem busca euforia permanente, mas como uma necessidade básica. Vitalidade envolve disposição, sim, mas também desejo e a sensação de habitar verdadeiramente o próprio corpo e a própria história.

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É curioso perceber como, nesse debate sobre cansaço, indisposição e falta de ânimo, um nervo até então desconhecido para muitos acabou ganhando destaque. O nervo vago saiu dos livros de anatomia, atravessou consultórios, tomou conta das redes sociais e passou a ser mencionado em conversas sobre ansiedade, inflamação, equilíbrio, descanso e bem-estar. Ainda assim, para muita gente, ele continua sendo uma descoberta recente, que nos faz pensar: “Como assim nunca ouvi falar disso antes, se ele participa de algo tão decisivo para a forma como vivo, sinto e reajo ao mundo?”

Talvez o fascínio em torno desse nervo venha justamente da percepção de que existe no corpo uma via silenciosa, que trabalha incessantemente para manter certa harmonia entre cérebro e órgãos, estado emocional e funções vitais, alerta e repouso. No recém-lançado O nervo vago: As descobertas sobre o nervo que regula sistemas vitais do nosso corpo e pode curar doenças crônicas e autoimunes (Sextante), o neurocirurgião Kevin J. Tracey mostra que esse nervo, composto por cerca de 200 mil fibras que partem do tronco cerebral e se ramificam pelo tórax e abdômen, participa da regulação da inflamação e integra uma rede contínua de comunicação entre cérebro e corpo.

Exercícios de respiração, meditação e atividade física podem melhorar o funcionamento dessa malha sensível. Não é pouca coisa. Entretanto, não se trata de uma nova febre de autocuidado, mas da oportunidade de entender melhor o que o corpo vem tentando dizer há tempos. Lembremos que, antes de se tornar tema de vídeos curtos, postagens e promessas de bem-estar, ele faz parte de algo maior: o sistema nervoso autônomo, essa engrenagem silenciosa que regula funções sem que precisemos pensar nelas: batimentos cardíacos, pressão arterial, sudorese, temperatura, respiração e funcionamento do intestino.

Um sistema completo

É mais ou menos por esse caminho que segue a médica e psicoterapeuta Cristiane Marino. Em vez de aderir sem ressalvas à ideia repetida de que bastaria “ativar o nervo vago”, ela faz uma observação importante: “A questão central é manter o sistema nervoso autônomo regulado. Na vida moderna, vivemos com uma ativação constante do sistema nervoso simpático, sempre nos preparando para luta, fuga ou congelamento devido aos estímulos estressantes e à aceleração, e com pouquíssimas atividades que favoreçam o sistema nervoso parassimpático, responsável pelo equilíbrio, regulação e restauração do organismo.”

Quando ela organiza a questão desse modo, muita coisa começa a fazer sentido. Talvez uma das razões de a vitalidade nos parecer hoje tão distante seja justamente essa: oferecemos muito pouco espaço para o corpo sair do modo de sobrevivência. Quando isso se prolonga, o desgaste deixa de ser impressão e se torna aquela sensação, tão difundida entre nós, de viver sempre um pouco acima do próprio limite.

E talvez valha insistir nisso, porque, por muito tempo, fomos treinados a imaginar a vitalidade como um atributo físico, quase atlético, como se dissesse respeito apenas à disposição, energia, resistência, produtividade e vigor. Mais ainda: é possível um corpo “funcionando bem” conviver com uma vida sem vitalidade? “A vitalidade é o resultado de um equilíbrio entre alma e corpo. Não existe vitalidade só de alma ou só de corpo, não dá para pensar assim. A vitalidade é resultado do equilíbrio dessas duas partes. Na verdade, não tem duas partes, é uma só, porque tudo o que você pensa, tudo o que você sente, você secreta neurotransmissores, hormônios etc., que se refletem no corpo físico”, enfatiza Cristiane.

Se aceitamos que a vitalidade não depende apenas de o corpo estar funcionando sem doença aparente, então também precisamos admitir que uma vida sem entusiasmo, sem presença e sem sentido já diz algo sobre o estado de saúde, ainda que exames e check-ups não acusem nada grave. Cristiane é direta nesse ponto: “Se não tem vitalidade, significa que não está funcionando bem, tem alguma coisa errada. A perda da vitalidade é o primeiro sinal de que há um desequilíbrio interno muito grande acontecendo”.

O nervo vago faz parte do sistema nervoso autônomo, que regula funções sem que precisemos pensar nelas

Nem todo descanso renova

Respirar melhor, meditar, caminhar, tomar sol, fazer exercício, dormir mais cedo, olhar menos para as telas, estar mais perto da natureza. Em tese, muitos de nós já ouvimos esse conjunto de conselhos tantas vezes que ele quase perdeu a força. Sabemos o que faz bem, mas nem sempre conseguimos transformar esse saber em experiência real. Talvez isso aconteça porque até o cuidado foi capturado pela lógica da produtividade. Não queremos apenas descansar, queremos descansar direito. Não queremos apenas caminhar, queremos cumprir a meta. Não queremos apenas respirar melhor, queremos transformar a respiração em ferramenta para render mais. Sem perceber, levamos para dentro das práticas que poderiam nos reparar a mesma cobrança que já nos adoece no resto da vida.

Cristiane Marino toca exatamente nesse ponto: “Como eu sei se estou focada em metas ou se estou focada em processo? Porque é isso que diferencia o que vai me vitalizar do que vai me exaurir. Se estou focada em metas, ticar os itens da minha lista, o que fiz hoje, o que não fiz, ah, porque devia ter feito, não fiz, etc., então vou exaurir meu sistema interno. Ao passo que, se estou focada em processos, estou vitalizando meu corpo.”

Há algo de muito verdadeiro na fala dela, pois são muitas as vezes que transformamos a caminhada, a ida ao parque, a aula, o repouso, a meditação ou até uma pausa breve em mais um item para cumprir, mais um motivo de culpa quando não conseguimos realizar. A fala da médica me faz pensar que talvez uma das tarefas mais difíceis do nosso tempo seja justamente reaprender a fazer certas coisas sem transformar tudo em desempenho.

Quando começamos a olhar para isso de outro jeito, a conversa naturalmente se amplia. Se com Cristiane entendemos melhor o que acontece no sistema nervoso quando vivemos em estado de alerta contínuo, com Matheus Rocha, professor de Yôga Terapia, a reflexão se volta para a experiência da vitalidade no corpo vivido. Ele começa por um ponto muito simples, embora nem sempre fácil de sustentar na prática: a presença acontece através do corpo. O que chamamos de energia vital, diz ele, deixa de parecer abstrato quando passamos a perceber como emoções, pensamentos, hábitos e estados internos se manifestam concretamente em nós.

Matheus, também conhecido como Manatosh, fala dessa vitalidade menos como uma energia mística solta no ar e mais como uma força que se expressa no corpo real, no dia a dia, na disposição ao acordar, na clareza mental, na capacidade de se envolver com o que está sendo vivido. “Quando a pessoa está no presente, menos presa ao passado e menos ansiosa pelo futuro, ela começa a sentir a própria vida acontecendo. E isso se manifesta de forma simples: na disposição ao acordar, na clareza mental, na capacidade de se envolver com o que está sendo vivido. Surge um certo ‘sim’ interno para a vida.”

Quando essa energia diminui, ele observa, os sinais também aparecem de maneira concreta, com “cansaço constante, respiração curta, rigidez no corpo, mente dispersa, falta de desejo”. Mais uma vez, corpo e vida interna não se separam. Assim, a falta de vitalidade não surge apenas porque trabalhamos demais ou dormimos mal, embora isso conte. Ela também aparece quando vamos perdendo a capacidade de escutar o corpo, de reconhecer o que, de fato, nos move.

E talvez seja essa uma das razões de tantos de nós descansarmos sem nos renovar de verdade. Dormimos, tiramos férias, deitamos um pouco mais cedo, adiamos tarefas por um dia, mas seguimos internamente tomados pelo mesmo ruído, pela mesma dispersão, pelo mesmo excesso de estímulo. Matheus faz uma distinção importante entre descansar e se vitalizar: “Descansar recupera. Vitalizar renova. Porque a vitalidade não está apenas na pausa, ela está na qualidade da energia que circula no corpo. No yôga, chamamos essa energia de prana: a força vital que sustenta o movimento, o desejo e a ação. É ela que nutre não só o corpo físico, mas também a capacidade de realizar, de se envolver com a vida. Quando essa energia não está sendo bem absorvida ou direcionada, o corpo até descansa, mas não se revitaliza. E isso passa por aspectos muito concretos: a forma como respiramos, como nos alimentamos, o contato com a natureza, com o sol, com o ambiente. Até porque, não adianta estar em um lugar de natureza e não sentir, não adianta respirar, se não há presença na respiração. A vitalidade nasce da experiência vivida com consciência.”

Respirar de novo

Ainda há uma boa notícia no meio de tudo isso, um pequeno pronto-socorro para tempos tão acelerados. Se a exaustão se tornou uma experiência espalhada, se o corpo parece viver em alerta e se até o cuidado às vezes pesa, há caminhos simples que podem começar a restaurar algum equilíbrio. O que aparece, tanto no livro O nervo vago, de Kevin Tracey, quanto nas falas da médica e psicoterapeuta Cristiane Marino e do professor de Yôga Terapia Matheus Rocha, é algo ao mesmo tempo mais modesto e mais profundo, em torno da necessidade de criarmos condições para que o corpo volte a se sentir seguro.

Cristiane chama atenção para um ponto que tão bem sabemos, mas fingimos que não: o excesso de estímulo visual. Ela explica que, quando mantemos o olhar fixo por muito tempo, sobretudo nas telas, o padrão respiratório muda. A respiração fica mais curta, mais rápida, e o corpo permanece em estado de alerta, mesmo que estejamos vendo vídeos leves, engraçados ou aparentemente relaxantes. De repente, desligamos o celular e seguimos exaustos. “Não adianta descansar deitado com o celular na mão”, diz ela.

É por isso que, quando a exaustão já se instalou, a resposta não deveria ser se cobrar mais, mas interromper o ciclo. Cristiane fala disso de maneira concreta: descanso sem tela, ritmo de sono mais regular, menos luz forte à noite, sol diário, mesmo que por 20 minutinhos, algum contato com a natureza, mesmo que breve. Um banco de praça, uma varanda, uma árvore, um pedaço de verde, os pássaros. Nada disso parece grandioso, mas talvez a vitalidade volte justamente por onde quase deixamos de olhar.

Nesse ponto, a fala de Matheus ajuda a não deixar o assunto escorregar para uma lista de hábitos saudáveis. O yôga, na leitura dele, não entra como pacote de bem-estar nem como técnica para performar serenidade. Entra como prática de estar presente. “O yôga, na sua origem, não é apenas uma prática física, é um caminho filosófico de autoconhecimento. Quando ele é reduzido a uma performance do corpo, perde-se o seu propósito mais profundo. Os movimentos, as posturas e as respirações são ferramentas. Mas o que sustenta a prática é a forma como a pessoa se relaciona com ela.” A observação tem peso porque devolve a prática a um lugar menos preservado pelo mercado.

No fim, não estamos falando apenas de energia, no sentido mais imediato da palavra. Estamos falando de segurança interna, de ritmo, de significado. De um corpo que não precise passar o tempo todo em alerta. De uma vida em que parar não vire motivo de culpa. De um cuidado que não seja só mais uma obrigação para cumprir. E, para nós, que tantas vezes confundimos vitalidade com alta performance, talvez seja libertador descobrir que ela pode começar de outro jeito, mais silencioso, mais orgânico, mais humano.

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