Artes marciais para mulheres crescem 80% no Brasil e viram escudo contra a violência de gênero

Academias de judô, jiu-jitsu e krav maga registram demanda recorde entre mulheres de todas as idades. Além da técnica, especialistas destacam o impacto psicológico do treino: autoconfiança que muda comportamentos antes mesmo de qualquer situação de risco.

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Nas periferias de São Paulo, no interior do Ceará e nos bairros populares do Rio de Janeiro, um mesmo movimento ganha força dentro de quadras simples, com tatames surrados e paredes de concreto: mulheres aprendendo a lutar. Não apenas no sentido literal, mas no sentido mais amplo da palavra. O crescimento das artes marciais femininas no Brasil deixou de ser uma tendência para se tornar um fenômeno social com raízes fincadas na realidade da violência de gênero no país.

Segundo dados da Confederação Brasileira de Jiu-Jitsu, o número de mulheres matriculadas em escolas de lutas cresceu 80% entre 2023 e 2025. O krav maga, sistema de defesa pessoal desenvolvido em Israel e focado em situações reais de risco, registrou aumento ainda maior: 120% na mesma janela. Academias de bairros periféricos, muitas vezes com aulas subsidiadas por ONGs e associações comunitárias, são o epicentro dessa transformação.

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“O maior benefício não é físico. É quando a aluna para de andar olhando para o chão e começa a olhar para frente.” Mestre Cláudia Tanaka, instrutora de judô, Rio de Janeiro.

O perfil de quem busca as aulas é diverso: mães que querem se sentir mais seguras ao sair à noite, jovens universitárias que sofrem assédio no caminho para a faculdade, mulheres que passaram por relacionamentos abusivos e buscam reconstruir a relação com o próprio corpo. Uma pesquisa da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, publicada em abril, revelou que uma em cada três alunas iniciou o treinamento após vivenciar alguma forma de violência ou ameaça direta.

Para além da defesa física, instrutoras e pesquisadoras ressaltam que o tatame funciona como um espaço de ressignificação. O contato controlado, a superação de limites e a convivência com outras mulheres em situação semelhante criam um senso de comunidade que vai muito além do esporte. Em muitas academias, os treinos são seguidos de rodas de conversa sobre direitos, segurança pública e saúde mental.

Psicólogas que acompanham grupos de sobreviventes de violência doméstica relatam que o treinamento marcial funciona como ferramenta terapêutica complementar. O senso de controle corporal e a gestão da adrenalina em situações de pressão ajudam no tratamento do transtorno de estresse pós-traumático. Estudos conduzidos em parceria com o Instituto Promundo apontam redução de 41% nos sintomas de ansiedade entre mulheres que praticam artes marciais há pelo menos seis meses.

“Não ensinamos mulheres a brigar. Ensinamos a não precisar brigar, porque a postura, o olhar e a consciência corporal já comunicam que não serão alvos fáceis.” Professora Mariana Leal, coordenadora do projeto Guerreiras do Bairro, Fortaleza.

O Ministério das Mulheres está em tratativas para incluir oficinas de defesa pessoal na rede de Centros de Referência de Atendimento à Mulher em todo o país. A proposta, apresentada ao Congresso em maio, prevê convênios com federações esportivas para oferecer aulas gratuitas nas 94 unidades já existentes. Se aprovada, a iniciativa pode alcançar mais de 200 mil mulheres por ano até 2028.

O desafio, porém, vai além da oferta de vagas. Especialistas alertam que é preciso garantir que as aulas sejam conduzidas por instrutoras capacitadas para lidar com traumas, e que os

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