De Cariacica para Florença, na ponta do pé: Aos 14 anos, bailarina capixaba cruza o Atlântico, vira destaque internacional e prova que talento também fala italiano
Se toda grande história começa com um sonho, a de Maria Júlia Cremasco começou com uma sapatilha pequena demais para conter tanta vontade. Aos 14 anos, a bailarina de Cariacica se prepara para dançar em Florença, na Itália, no dia 20 de fevereiro, durante a Expression International Dance Competition, evento que integra o tradicional Danza in Fiera, um dos maiores encontros de dança da Europa. Não é exagero dizer que o Espírito Santo vai entrar em cena sob aplausos internacionais, e sem dublê.
Maria Júlia será a única representante da América Latina na competição, que reúne bailarinos de diversos países e estilos. O convite veio após o envio de um vídeo à curadoria do evento, responsável por selecionar jovens talentos do mundo inteiro. Nada de empurrãozinho ou coreografia ensaiada nos bastidores. Foi técnica, presença e verdade em movimento.
O Danza in Fiera acontece há mais de 20 anos em Florença e já recebeu mais de cinco mil bailarinos ao longo de sua história. Segundo a organização, o evento funciona como uma vitrine global, conectando jovens artistas a bolsas de estudo, prêmios em dinheiro e oportunidades profissionais. Traduzindo para quem não fala balé, é um trampolim direto para o futuro.
Além do talento, Maria Júlia carrega uma trajetória marcada por disciplina e superação. Diagnosticada com diabetes tipo 1 aos sete anos, ela aprendeu cedo que cuidar do corpo também faz parte do espetáculo. Entre ensaios, controles glicêmicos e rotina rígida, a bailarina encontrou equilíbrio sem perder leveza.
“Se tem uma coisa que o diabetes me ensinou é que disciplina e coragem andam juntas. A dança me mostrou que meu corpo é forte e que nenhum desafio é maior do que os meus sonhos”, afirma Maria Júlia. Frase que poderia virar cartaz motivacional, mas aqui vem acompanhada de fatos.
Formação, incentivo e política cultural funcionando
A participação da bailarina foi viabilizada por meio do Edital nº 01/2025 – Circulação, do Fundo de Cultura do Estado do Espírito Santo (Funcultura), gerido pela Secretaria da Cultura (Secult). O projeto conta com produção da Max Music Produções, apoio da Associação Capixaba de Esportes, Cultura e Arte para o Desenvolvimento Social (ACECADS) e acompanhamento artístico da coreógrafa Thayná Fabiano.
Para especialistas em políticas culturais, como aponta a própria Secult em relatórios públicos, editais de circulação são fundamentais para garantir que artistas jovens tenham acesso a experiências internacionais, ampliando repertório e profissionalização. No caso de Maria Júlia, o investimento público dança em sintonia com o talento individual.
Apesar da pouca idade, Maria Júlia já acumula passagens importantes. Em 2023, conquistou o segundo lugar no Festival Bravos, em São Paulo. Em 2024, cruzou o oceano para a Croácia, onde ficou em terceiro lugar no Festival Internacional Chorus Inside. Também participou de competições no Rio de Janeiro e em diversas cidades capixabas.
O pai, Maestro Carvalho, lembra que o talento apareceu cedo. “Ela começou com três anos, ainda na creche. Aos sete, a professora nos procurou dizendo que havia algo especial ali. Desde então, apoiamos sem frear os sonhos”, conta.
Representar o Espírito Santo em um evento internacional não é só medalha ou troféu. É símbolo. Em tempos de telas rápidas e atenção dispersa, ver uma jovem artista capixaba ocupar um palco histórico europeu lembra que arte também é resistência, disciplina e futuro.
Florença vai aplaudir. Cariacica vai vibrar. E quem estiver assistindo talvez pense, meio sem querer, que sonhar alto não dá diabetes, não dá medo e não tem contraindicação. Pelo contrário, dá asas. E, no caso de Maria Júlia, dá pirueta perfeita.






