Proposta na Câmara de Vitória sugere substituir homenagem à família Michelini por Gerson Camata após morte de investigado no Caso Araceli reacender feridas históricas.
Sabe aquele ditado que diz que “assombração sabe para quem aparece”? Em Vitória, parece que certos fantasmas do passado decidiram dar um passeio pela areia de Camburi. Se você já passou pela Avenida Dante Michelini e sentiu um calafrio que não era a brisa do mar, não está sozinho. O nome que estampa as placas da nossa principal orla carrega um peso que vai muito além do asfalto, e o capítulo mais recente dessa novela capixaba envolve mistério, justiça e uma proposta de mudança que promete dividir opiniões nas mesas de bar e nas redes sociais.
O Gatilho: Um crime em Guarapari e a memória de Araceli
A calmaria da semana foi quebrada pela notícia impactante de que Dante Brito Michelini, o “Dantinho”, foi encontrado morto, de forma violenta, em um sítio em Guarapari. Aos 76 anos, ele era um dos nomes centralmente ligados ao Caso Araceli, o crime mais brutal da história do Espírito Santo, ocorrido em 1973.
Embora o Dante que dá nome à avenida seja o avô (o empresário que doou as terras em 1967), para o imaginário popular e para 93% dos moradores que participaram de enquetes anteriores, o sobrenome Michelini é indissociável da tragédia da menina de 8 anos. Com a morte de Dantinho, o debate sobre a “higienização” histórica da via voltou com força total à Câmara Municipal de Vitória.
A Proposta: De Michelini para Gerson Camata
O vereador Armandinho Fontoura (PL) protocolou o Projeto de Lei nº 004/2026, que visa rebatizar a avenida com o nome do ex-governador e senador Gerson Camata. A escolha busca homenagear um ícone da política capixaba, evitando o conflito jurídico de nomear a via como “Avenida Araceli”, já que a menina já batiza o viaduto ao final da orla e a lei municipal impede duplicidade de nomes em logradouros.
A proposta é do vereador Armandinho Fontoura (PL) e revoga a Lei Municipal 1.701, de 1967, que oficializou o nome da avenida. A ideia é homenagear Gerson Camata, político capixaba que foi vereador, deputado estadual, federal, governador e senador por três mandatos. Segundo o parlamentar, a mudança busca valorizar uma figura histórica do Espírito Santo e, ao mesmo tempo, romper com um nome que gera dor coletiva.
“Gerson Camata teve papel central na vida pública capixaba por décadas. É uma forma de preservar a memória política do Estado e avançar num debate sensível para a cidade”, afirmou em justificativa do projeto.
As despesas com novas placas ficariam a cargo da Prefeitura de Vitória.
“A mudança representa um avanço e, ao mesmo tempo, prestigia um importante governador do nosso Estado”, afirmou o parlamentar em sua justificativa.
A Câmara Municipal analisa um projeto para rebatizar a avenida com o nome do ex-governador Gerson Camata. O gatilho da discussão foi a morte violenta de Dante Brito Michelini, conhecido como Dantinho, encontrado decapitado em um sítio de Guarapari, em fevereiro. Ele foi um dos acusados no Caso Araceli, crime que chocou o Espírito Santo em 1973, quando a menina de oito anos foi sequestrada, violentada e assassinada.
Absolvido em 1991 por falta de provas, o sobrenome Michelini nunca se desvinculou da tragédia na memória popular.
A avenida, o avô e a confusão histórica
Muita gente associa o nome da via diretamente a Dantinho, mas a história é mais complexa. A homenagem original foi ao empresário Dante Michelini, avô de Dantinho, que morreu em 1965, anos antes do crime. Empresário influente, ele doou terrenos da orla de Camburi para a pavimentação da antiga Avenida Beira Mar. Em reconhecimento, a Câmara Municipal batizou oficialmente o trecho como Avenida Dante Michelini em 1967.
Registros da época mostram que seu enterro parou o comércio do Centro de Vitória, Vila Rubim e Santo Antônio, tamanha era sua importância econômica para o Estado.
Ou seja, juridicamente e historicamente, a homenagem não teve relação com o Caso Araceli. Mas na prática social, o sobrenome virou sinônimo de um dos crimes mais brutais da história capixaba. E memória coletiva não anda com certidão de cartório no bolso.
A insatisfação com o nome da avenida não começou agora. Em 2017, a Prefeitura inaugurou o Viaduto Araceli Cabrera Crespo, com um memorial em homenagem à menina.
Pouco depois, uma enquete da Câmara de Vitória mostrou que 93 por cento dos participantes eram favoráveis à mudança do nome da avenida para Araceli. Em apenas um dia, mais de 700 pessoas votaram.
Houve até proposta de plebiscito, apresentada pelo então vereador Roberto Martins. O projeto, no entanto, foi vetado pelo ex-prefeito Luciano Rezende e o veto mantido pelos vereadores. Traduzindo em bom português: o povo quis, mas a burocracia disse “deixa pra lá”.
Para especialistas em patrimônio cultural urbano, como a historiadora Françoise Choay, nomes de ruas são mais que endereços. São símbolos, discursos e escolhas políticas sobre o que uma sociedade decide lembrar.
Mudar uma avenida não apaga a história, mas revela como a cidade quer se posicionar diante dela.
E Vitória, ao que tudo indica, ainda tenta digerir o trauma do Caso Araceli meio século depois.
Entre homenagem e reparação simbólica
O projeto agora tramita na Câmara e deve gerar intensos debates públicos. De um lado, a valorização de Gerson Camata como figura política central do Espírito Santo. De outro, o desejo popular de romper qualquer vínculo simbólico com um sobrenome associado a dor e impunidade.
No fundo, a discussão vai além de uma placa azul na calçada. É sobre como a cidade lida com sua própria memória, suas feridas e seus heróis. Porque ruas não esquecem. Mas sociedades escolhem o que destacar. E, às vezes, mudar o nome é menos sobre apagar o passado e mais sobre tentar curar o presente.







