A União Europeia anunciou uma nova aliança comercial com a Índia, poucos dias após fechar um pacto histórico com o Mercosul.
Essa movimentação é vista como mais um sinal da opção por acordos bilaterais, adotada por nações que enfrentam os efeitos do protecionismo volátil dos Estados Unidos.
O anúncio oficial aconteceu em Nova Delhi, durante a 16ª Cúpula Índia-UE, conduzida pelo primeiro-ministro indiano, Shri Narendra Modi, e pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. As negociações entre as partes se estenderam por quase vinte anos.
Em suas redes sociais, Ursula von der Leyen se referiu ao compromisso como “a mãe de todos os acordos”.

“Concluímos a mãe de todos os acordos. Criamos uma zona de livre comércio com 2 bilhões de pessoas, que beneficia os dois lados. Esse é só o começo. Vamos fortalecer nossas relações estratégicas.”
O pacto conecta as 27 nações do bloco europeu à quarta maior economia do mundo e a um mercado consumidor de 1,4 bilhão de pessoas. A projeção europeia é duplicar as vendas para a Índia até 2032, já que 96% de suas exportações serão favorecidas pela redução de tarifas.
Por outro lado, a Índia calcula que mais de 99% dos bens que exporta terão acesso preferencial ao mercado europeu, abrangendo setores que demandam muita mão de obra, como têxteis, vestuário, couro, calçados, frutos do mar, joias, pedras preciosas, artesanato, bens de engenharia e automóveis.
Juntas, União Europeia e Índia correspondem a um quarto do PIB mundial e a um terço do comércio internacional. As transações superaram 135 bilhões de dólares no ano fiscal encerrado em março de 2025.
O ministro do Comércio e Indústria da Índia, Shri Piyush Goyal, afirmou que o acordo simboliza uma parceria abrangente, com implicações estratégicas.
“A conclusão do Acordo de Livre Comércio Índia-União Europeia representa uma conquista decisiva no engajamento econômico da Índia e em sua perspectiva global. Isso reforça a abordagem do país de garantir parcerias confiáveis, mutuamente benéficas e equilibradas.”
A formalização da assinatura ainda aguarda uma revisão jurídica, que pode levar vários meses, mas a previsão é que a fase inicial de implementação aconteça dentro de um ano.
Contexto Geopolítico Conturbado
A reaproximação entre Europa e Índia ocorre em um período em que ambos mantêm relações tensas com os Estados Unidos.
Aliados históricos dos americanos, os europeus não foram poupados na guerra tarifária global deflagrada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Os desentendimentos se espalharam por várias áreas, como a regulação de grandes empresas de tecnologia, e chegaram a incluir ameaças militares, como a de anexação da Groenlândia, território autônomo dinamarquês na América do Norte.
Os indianos, por sua vez, figuram entre os principais alvos das sobretaxas impostas por Trump. No ano anterior, os Estados Unidos estabeleceram tarifas de 50% sobre as exportações indianas para forçar o país asiático a cessar suas compras de petróleo da Rússia.
Em seu segundo mandato, Trump também tem direcionado críticas aos Brics, bloco de nações em desenvolvimento do qual a Índia é integrante. Os indianos assumiram a presidência rotativa do grupo no começo deste ano e serão os anfitriões da cúpula de líderes dos Brics ainda em 2026.
Acordo entre União Europeia e Mercosul
Semelhante ao pacto com a Índia, a parceria UE-Mercosul foi firmada após um extenso processo de negociação, que durou 26 anos. Ela aconteceu depois de um ano em que os europeus selaram acordos bilaterais com outros parceiros, como México e Indonésia.
O documento prevê a eliminação gradual de tarifas de importação para mais de 90% do comércio bilateral, englobando bens industriais (máquinas, ferramentas, automóveis e outros produtos e equipamentos) e produtos agrícolas.
Apesar de já ter sido assinado, o acordo que institui uma zona de livre comércio com 720 milhões de habitantes precisa ser ratificado pelo Parlamento Europeu e pelos congressos nacionais do Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai.
Eurodeputados, contudo, autorizaram o envio do tratado para uma análise jurídica do Tribunal de Justiça da União Europeia, o que pode suspender a implementação por até dois anos.
Em entrevista coletiva na semana passada, Ursula von der Leyen mencionou a possibilidade de uma aplicação provisória, caso o processo se prolongue e os países sul-americanos já tenham aprovado o acordo em seus parlamentos.
“Há um claro interesse em garantir que os benefícios desse importante acordo sejam aplicados o mais rápido possível”, declarou.







