Instituições de ensino superior que alcançaram a pontuação máxima no Enamed destacam que o resultado expõe disparidades na educação e pode abalar a credibilidade dos novos médicos.

A avaliação insatisfatória de um terço dos cursos de Medicina no Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) gerou preocupação com o padrão do ensino no país e suas consequências para o mercado. Por outro lado, as faculdades que receberam conceito máximo sustentam que o desempenho reforça a necessidade de um controle mais rigoroso sobre as graduações, já que o impacto é imediato na forma como a sociedade enxerga os médicos recém-formados.
Para o coordenador do curso de Medicina da Unicamp, Fabio Husemann Menezes, o Enamed cumpre uma função regulatória crucial. Ele afirma que, para todas as faculdades, o exame tem relevância primordial, não apenas do ponto de vista regulatório, mas também para orientar o aperfeiçoamento dos cursos.
Conforme explica, a prova torna visível uma questão já conhecida: a criação de cursos sem o planejamento e os recursos financeiros necessários para uma formação adequada. O resultado mostrou uma diferença de desempenho entre formandos das grandes universidades públicas federais e estaduais e os egressos de boa parte das instituições privadas e municipais. Na avaliação dele, a apreensão da sociedade é um desdobramento esperado, que só deve diminuir com mais investimentos e melhores resultados futuros.
Nota serve para aprimoramento

Na Unesp de Botucatu, que também conquistou a nota mais alta, o coordenador do curso de Medicina, Roberto Antônio de Araújo Costa, vê o Enamed como um mecanismo importante para assegurar padrões básicos de qualidade. “Trata-se de uma avaliação externa, o que é muito significativo, pois examina as diretrizes curriculares e garante tanto a qualidade quanto a homogeneidade do que se espera na formação do médico”, diz. Ele ressalta que a prova não deve ser vista como um ranking, mas sim como uma ferramenta de evolução.
Costa alerta para o risco de prejudicar os alunos formados em faculdades com avaliação ruim. “É muito negativo penalizar o estudante, que está no fim da linha, já que essas escolas obtiveram autorização para funcionar”, argumenta. Segundo ele, o Enamed pode ser útil para detectar falhas na estrutura e obrigar ajustes, evitando prejuízos futuros tanto para os profissionais quanto para a população atendida.
Para as universidades com bom desempenho, por outro lado, o efeito costuma ser benéfico. Menezes afirma que o resultado influencia diretamente a decisão dos vestibulandos: “O principal impacto é o aumento da concorrência nos processos seletivos das universidades públicas federais e estaduais”. A avaliação também pode favorecer os formados dessas instituições no mercado de trabalho, especialmente em um momento de maior ceticismo sobre a capacitação médica.
Termômetro da qualidade do ensino

Na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), o vice-reitor Ivo Mottin Demiate ressalta que o Enamed funciona como um indicador da qualidade do ensino. “Serve como um parâmetro para verificar a qualidade, ajudando a entender como está o desempenho dos formandos em relação ao sistema de ensino médico nacional”.
Demiate complementa que o conceito máximo sinaliza que a universidade está honrando o compromisso de formar profissionais capacitados, com investimentos em corpo docente, infraestrutura e hospitais universitários.

O professor Ricardo Zanetti Gomes, da UEPG, observa que o bom desempenho está ligado a uma estrutura pedagógica unificada e a uma formação intensamente prática. “O internato, que corresponde ao quinto e sexto anos, tem na nossa instituição 80% de formação prática e 20% de formação teórica”, esclarece. Segundo ele, a teoria aliada à experiência clínica e a sintonia entre disciplinas, diretrizes curriculares e gestão institucional são fatores decisivos para alcançar a excelência.
Docentes e coordenadores avaliam que o Enamed tende a ganhar importância crescente na estruturação dos cursos e no futuro da Medicina no país. Além de influenciar a escolha dos estudantes e a rivalidade entre instituições, o exame pode se tornar um marco decisivo para a confiança da sociedade nos médicos, segundo os acadêmicos.







