30 de janeiro de 2026
sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

De que prisões estamos falando quando falamos de violência contra a mulher?

É ASSIM DOUTOR E NÃO DE OUTRO JEITO
(Aingrid Fabiane de Souza)

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Atravessei aquela porta

Por uma prova de amor

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Por um delírio de paixão

Hoje pago pena na prisão

O abandono se faz dor

É na tranca, na revista

Baculejo da policia

É assim doutor.

Desde minha infância

Meu é corpo violado

A violência me faz ilha

Cercada de todos os lados

Refém social, sou marginal

Refém do amor, sou puta

Refém da família, sou filha

Sou mulher

No cárcere desde o ventre

Se me visto e me pinto

Sou culpada pelo assédio

Se visto bermuda e boné

Espancamento!

Isso não é mulher.

É na cozinha, no tanque

Tomar conta dos irmãos

Dia e noite sendo mãe

Sem pari um filho

É assim doutor!

Me resta a faxina, a panela

Varrer chão!

Ser arrimo, ser forte

Vida de cão!

No silêncio da noite

Uma mão me silencia

A outra tateia meu corpo

Violam meu sexo, meu ser

Minha alma!

A ingenuidade de criança

Sequestrada, violada

Uma dor que nada sara

E que o medo cala

Prisioneira do violador

Suportando toda a dor

Escravizada, sim senhor!

Menina, mulher, filha

É assim doutor.

Desde menina essa sina

Prisioneira do algoz

Prisioneira da dor

Prisioneira da pobreza

É o patriarcado doutor!

Sobreviver a infância

Sobreviver toda a vida

Sem amor, sem cuidado

Sem instrução, sem chão

Sem pão, sem liberdade

Sem condições de ser

Ser a mulher dona do ser

Ser liberta das amarras

Sem mordaças, sem medo

Queria ir e vir livre

Andar solta pela manhã

Andar solta pela noite

Não posso doutor!

Não posso sair sem medo

A violência me cerca

E com o medo me faz ilha

Me aprisiona desde o ventre

É assim doutor!

Nem toda prisão tem grades. Às vezes é a cela; às vezes é a casa; quase sempre, é o corpo. Foi essa percepção que emergiu quando li Prisioneiras, de Drauzio Varella, onde vidas marcadas por abandono, fome e violência revelam que o cárcere formal é apenas a última camada de aprisionamentos muito mais antigos.

A realidade das mulheres privadas de liberdade — e das mulheres brasileiras em geral — mostra que a violência não começa no crime. Começa na infância interrompida, nos abusos naturalizados, na solidão imposta como destino. E não está restrita a um grupo: violência atravessa classes, bairros, profissões e visibilidades.

Nos últimos meses, vimos uma mulher arrastada por quilômetros por um homem ao volante. Um cantor agredindo a esposa desde a lua de mel. Uma comunicadora exposta à violência íntima que sofreu. Outras anônimas, tantas invisíveis. A lógica é a mesma: o patriarcado administra o medo como forma de controle.

Nessas trajetórias, não há antes ou depois. Há camadas de prisões que se acumulam: pobreza, raça, gênero, abandono e Estado. Para muitas, o cárcere não começa na cela — começa no nascimento. Começa quando o corpo da menina é vigiado, quando a rua vira ameaça e o lar deixa de ser abrigo. Começa quando a sociedade naturaliza o sofrimento feminino como destino e chama isso de vida.

É desse lugar que nasce meu poema. Ele não explica nada — apenas diz o que tantas mulheres vivem sem poder dizer: meninas que se tornam mulheres sem jamais ter sido protegidas; mulheres que se tornam prisioneiras sem jamais ter sido livres. Liberdades negadas antes mesmo de existir.

E diante disso, ficam perguntas que não podemos silenciar:

Que prisões permanecem mesmo quando não há grades?
Quem lucra quando uma mulher tem medo?
Quando a violência nos cerca, quem finalmente será livre?

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