É ASSIM DOUTOR E NÃO DE OUTRO JEITO
(Aingrid Fabiane de Souza)
Atravessei aquela porta
Por uma prova de amor
Por um delírio de paixão
Hoje pago pena na prisão
O abandono se faz dor
É na tranca, na revista
Baculejo da policia
É assim doutor.
Desde minha infância
Meu é corpo violado
A violência me faz ilha
Cercada de todos os lados
Refém social, sou marginal
Refém do amor, sou puta
Refém da família, sou filha
Sou mulher
No cárcere desde o ventre
Se me visto e me pinto
Sou culpada pelo assédio
Se visto bermuda e boné
Espancamento!
Isso não é mulher.
É na cozinha, no tanque
Tomar conta dos irmãos
Dia e noite sendo mãe
Sem pari um filho
É assim doutor!
Me resta a faxina, a panela
Varrer chão!
Ser arrimo, ser forte
Vida de cão!
No silêncio da noite
Uma mão me silencia
A outra tateia meu corpo
Violam meu sexo, meu ser
Minha alma!
A ingenuidade de criança
Sequestrada, violada
Uma dor que nada sara
E que o medo cala
Prisioneira do violador
Suportando toda a dor
Escravizada, sim senhor!
Menina, mulher, filha
É assim doutor.
Desde menina essa sina
Prisioneira do algoz
Prisioneira da dor
Prisioneira da pobreza
É o patriarcado doutor!
Sobreviver a infância
Sobreviver toda a vida
Sem amor, sem cuidado
Sem instrução, sem chão
Sem pão, sem liberdade
Sem condições de ser
Ser a mulher dona do ser
Ser liberta das amarras
Sem mordaças, sem medo
Queria ir e vir livre
Andar solta pela manhã
Andar solta pela noite
Não posso doutor!
Não posso sair sem medo
A violência me cerca
E com o medo me faz ilha
Me aprisiona desde o ventre
É assim doutor!
Nem toda prisão tem grades. Às vezes é a cela; às vezes é a casa; quase sempre, é o corpo. Foi essa percepção que emergiu quando li Prisioneiras, de Drauzio Varella, onde vidas marcadas por abandono, fome e violência revelam que o cárcere formal é apenas a última camada de aprisionamentos muito mais antigos.
A realidade das mulheres privadas de liberdade — e das mulheres brasileiras em geral — mostra que a violência não começa no crime. Começa na infância interrompida, nos abusos naturalizados, na solidão imposta como destino. E não está restrita a um grupo: violência atravessa classes, bairros, profissões e visibilidades.
Nos últimos meses, vimos uma mulher arrastada por quilômetros por um homem ao volante. Um cantor agredindo a esposa desde a lua de mel. Uma comunicadora exposta à violência íntima que sofreu. Outras anônimas, tantas invisíveis. A lógica é a mesma: o patriarcado administra o medo como forma de controle.
Nessas trajetórias, não há antes ou depois. Há camadas de prisões que se acumulam: pobreza, raça, gênero, abandono e Estado. Para muitas, o cárcere não começa na cela — começa no nascimento. Começa quando o corpo da menina é vigiado, quando a rua vira ameaça e o lar deixa de ser abrigo. Começa quando a sociedade naturaliza o sofrimento feminino como destino e chama isso de vida.
É desse lugar que nasce meu poema. Ele não explica nada — apenas diz o que tantas mulheres vivem sem poder dizer: meninas que se tornam mulheres sem jamais ter sido protegidas; mulheres que se tornam prisioneiras sem jamais ter sido livres. Liberdades negadas antes mesmo de existir.
E diante disso, ficam perguntas que não podemos silenciar:
Que prisões permanecem mesmo quando não há grades?
Quem lucra quando uma mulher tem medo?
Quando a violência nos cerca, quem finalmente será livre?







