31 de janeiro de 2026
sábado, 31 de janeiro de 2026

Avibras mira mercado estratégico no bloco dos BRICS

A Avibras Indústria Aeroespacial enviou uma equipe à Indonésia para realizar reuniões técnicas com o Exército local sobre o funcionamento do sistema ASTROS II, seu principal produto na área de foguetes de artilharia. A iniciativa ocorre em um momento delicado para a empresa, que está em processo de recuperação judicial, com uma dívida de grandes proporções e a produção paralisada no Brasil.

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Os debates aconteceram no Centro de Armamento de Artilharia de Campanha do Exército indonésio, unidade responsável pelos sistemas brasileiros em operação. Imagens divulgadas por canais oficiais das Forças Armadas registraram a delegação em reuniões e visitando as instalações onde os lançadores estão em uso. Os temas abordados incluíram serviços de manutenção, fornecimento de componentes, atualizações tecnológicas e capacitação de operadores.

Entre os participantes da missão estava o engenheiro Sami Youssef Hassuani, ex-presidente da Avibras e atual assessor da nova diretoria. Ele participou das negociações que resultaram nas vendas do ASTROS para a Indonésia e mantém conexões no mercado global de defesa. Sua presença indica que a viagem combinou aspectos técnicos e comerciais, com foco na sustentação dos acordos já firmados.

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Os negócios que mantêm a Avibras relevante na Ásia

A Indonésia adquiriu 63 unidades do sistema ASTROS II Mk6 em dois contratos consecutivos, entre 2012 e 2020, por um valor estimado entre 350 e 400 milhões de dólares. A primeira compra incluiu veículos lançadores, carros de apoio, centros de comando e equipamentos de controle de disparo. A segunda etapa expandiu a capacidade operacional das unidades de artilharia, integrando o sistema de forma permanente à estrutura militar indonésia.

Os equipamentos foram alocados a batalhões de artilharia de campanha e passaram a ser usados em exercícios regulares das forças terrestres. Seu emprego abrange treinamentos de tiro, manobras táticas, simulações de combate, testes de comunicações e integração com outras unidades. Progressivamente, o sistema deixou de ser visto como um mero equipamento estrangeiro e se tornou parte da doutrina operacional do Exército local.

O ASTROS II Mk6 consiste em um conjunto de lançadores múltiplos de foguetes montados sobre caminhões militares de alta mobilidade. Ele pode utilizar munições de diversos calibres e alcances, o que possibilita uma gama de missões, desde apoio de fogo em áreas amplas até engajamentos de maior precisão, conforme a configuração escolhida. O sistema completo inclui radares, dispositivos de navegação, computadores balísticos e estações de comando.

A operação dessa plataforma exige um ciclo constante de suporte. Os veículos precisam de manutenção mecânica periódica e troca de peças que sofrem desgaste. Os sistemas eletrônicos e de navegação demandam atualizações de software, enquanto componentes hidráulicos e elétricos necessitam de inspeções regulares. O treinamento também é contínuo, pois novos militares precisam ser qualificados para operar e manter o equipamento.

Esse suporte está vinculado ao acesso a documentação técnica, componentes de reposição, engenharia de sistemas e especialistas aptos a prestar assistência. Por isso, a situação da Avibras no Brasil é monitorada de perto pelos países que utilizam o ASTROS. A continuidade do suporte técnico afeta diretamente a disponibilidade dos sistemas e o planejamento de longo prazo das forças armadas que os operam.

Recuperação judicial, passivo bilionário e produção interrompida

A Avibras ingressou em recuperação judicial em 2022, após uma fase de redução nas receitas de exportação e dificuldades para sustentar seu fluxo de caixa. O processo judicial revelou um passivo calculado em cerca de R$ 1,5 bilhão, englobando dívidas financeiras, tributárias e trabalhistas. Desse montante, aproximadamente R$ 200 milhões referem-se a obrigações com a União, incluindo impostos e contribuições não pagas.

A crise financeira repercutiu diretamente nas operações industriais. Em setembro de 2022, funcionários da fábrica em Jacareí, São Paulo, iniciaram uma paralisação devido ao não pagamento de salários. O movimento atingiu o setor produtivo e também departamentos de engenharia, testes e integração de sistemas, áreas fundamentais para a fabricação e manutenção de equipamentos militares. Sem esses profissionais, a empresa viu sua capacidade de cumprir prazos e manter a rotina de assistência técnica ser comprometida.

A normalização das atividades depende de um acordo para quitar os salários atrasados, regularizar as obrigações trabalhistas e recompor as equipes técnicas. A paralisação prolongada também gerou impactos indiretos, como a reavaliação de contratos com fornecedores e a análise das condições de máquinas e instalações que ficaram muito tempo ociosas.

Em 2025, houve uma mudança no controle acionário da empresa. Fábio Guimarães Leite, vinculado à Vita Gestão e Investimentos, tornou-se o acionista majoritário. A nova administração apresentou aos credores uma proposta de reestruturação que prevê auditorias internas, renegociação de dívidas e retomada progressiva das atividades fabris. O plano foi aprovado em assembleia, mas sua implementação ainda depende de homologações judiciais e de acordos com órgãos federais responsáveis pela cobrança de tributos.

A negociação com a União representa um dos pontos mais delicados do processo. A regularização fiscal é uma condição para que a empresa possa voltar a acessar linhas de crédito e programas públicos de financiamento comuns no setor de defesa. Sem concluir essa etapa, a recuperação financeira avança de modo limitado e a retomada industrial acontece em um ritmo mais lento.

Esse conjunto de circunstâncias acompanha a Avibras em suas tratativas com clientes internacionais. Nações que operam seus sistemas observam a situação, já que a estabilidade financeira e produtiva do fabricante influencia sua capacidade de fornecer peças, assistência técnica e atualizações ao longo do tempo.

Previsibilidade industrial como requisito em acordos de defesa

A indústria de defesa opera com prazos extensos e compromissos que se estendem por décadas. A compra de um sistema de armas envolve contratos de manutenção, fornecimento de componentes, atualizações tecnológicas e treinamento contínuo de pessoal. Esses elementos integram o ciclo de vida do produto e estruturam a relação duradoura entre fabricante e forças armadas.

Nesse contexto, a condição financeira e institucional da empresa fornecedora passa a fazer parte da avaliação de risco dos governos compradores. Países que utilizam equipamentos importados dependem do fabricante para manter a disponibilidade das viaturas, substituir partes críticas e adaptar os sistemas a novas demandas operacionais. Incertezas sobre a continuidade da empresa podem levar à revisão de planos logísticos, à formação de estoques próprios de peças ou à busca por fornecedores alternativos em futuras aquisições.

A agenda da Avibras na Indonésia se insere nesse panorama. O país asiático incorporou o ASTROS à sua estrutura de artilharia e precisa de previsibilidade para manter o sistema funcional nos próximos anos. A manutenção do contato técnico e institucional ajuda a preservar a confiança do cliente em um momento em que a fabricante brasileira enfrenta desafios internos.

A continuidade dessa relação está condicionada a fatores ligados à situação no Brasil. A regularização das dívidas, a recomposição das equipes de engenharia e a retomada das atividades fabris afetam a percepção de confiabilidade da empresa. O fornecimento de peças, a execução de serviços de manutenção e o cumprimento de prazos contratuais estão associados à estabilidade produtiva e financeira.

O desenrolar da recuperação judicial terá consequências sobre a presença global da Avibras. A manutenção dos contratos vigentes e o potencial para novos negócios dependem da avaliação feita por governos estrangeiros sobre a capacidade da empresa de honrar compromissos de longo prazo. Em um setor que envolve investimentos vultosos e implicações estratégicas, a previsibilidade institucional tem peso comparável ao desempenho técnico dos sistemas.

Para o Brasil, o caso está relacionado à preservação de competências industriais e tecnológicas em um segmento conectado à política externa e à defesa nacional. A permanência de empresas nacionais em contratos internacionais influencia a posição do país em cadeias produtivas de alta complexidade e na cooperação com outras nações no campo da segurança.

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