6 de fevereiro de 2026
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Aceitar a si mesmo é abraçar a própria loucura

Apesar dos avanços significativos da luta antimanicomial, que tem na psiquiatra Nise da Silveira uma de suas figuras centrais por sua abordagem pioneira e humana ao usar a arte no tratamento da esquizofrenia, o termo “loucura” segue carregado de estigma no cotidiano. Isso nos leva a questões fundamentais: o que significa, de fato, ser “louco”? E o que é ser “normal”? Uma certeza permanece: cada indivíduo é único em sua singularidade.

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Em certos momentos, aceitar a si mesmo, honrando suas particularidades sem glorificar a dor, pode ser comparado a acolher com gentileza a própria “loucura”. Essa atitude cria um campo de expressão que favorece a inovação e a recriação pessoal, permitindo também que uma brisa de liberdade circule dentro dos limites estabelecidos como “normais”.

Expressões como “Vamos fazer uma loucura?” ou “Você está ficando louco!” são comuns no dia a dia. Elas mostram como o termo está enraizado em nosso vocabulário. Vale refletir sobre o processo de desfazer os preconceitos ligados a essa palavra, que frequentemente gera debates enriquecedores. Como diz o ditado, todos temos um pouco de médico e de louco.

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“Dizem que sou louco por pensar assim
Se eu sou muito louco por eu ser feliz
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz.”

Trecho da canção “Balada do Louco”, da banda Os Mutantes.

Conforme explica a psicanalista Isabella Simionato Sertori, “loucura” não é um diagnóstico médico. Trata-se, sobretudo, de uma expressão carregada de significados históricos, sociais e emocionais.

Do ponto de vista clínico, existem estruturas, modos de funcionamento da psique e formas individuais de lidar com o sofrimento. A psicanálise, desde Freud, mostra que o sofrimento tem uma voz. Ele expressa um sujeito em confronto com seus desejos, com a realidade e com as demandas do mundo exterior.

“No uso comum, a palavra ‘loucura’ tende a designar aquilo que foge das normas, do esperado, do controlável. Ela revela mais sobre a perspectiva da sociedade do que sobre o indivíduo em si. Por isso, na prática clínica, o foco não está em rotular, mas em compreender o que essa experiência busca comunicar.”

Isabella menciona o pediatra e psicanalista inglês Donald Winnicott, figura importante na história da psicanálise. Em sua visão, a “loucura” não representa um “colapso psíquico”, mas sim uma “falha ambiental”.

“Uma criança que não teve a oportunidade de se desenvolver em um ambiente facilitador para seu amadurecimento emocional carregará marcas dessa deficiência em sua construção real e espontânea”, esclarece a psicanalista.

A ‘normalidade’ que pode causar mal-estar

Inúmeros artistas brilhantes foram taxados de loucos simplesmente por se expressarem fora dos padrões sociais convencionais. No fim das contas, conformar-se excessivamente ao que se chama de “normalidade” pode restringir potencialidades e gerar adoecimento.

“Frequentemente, a normalidade opera como um ideal inflexível de comportamento, produtividade e equilíbrio emocional que ignora a singularidade de cada pessoa”, enfatiza Isabella.

“No consultório, é comum encontrar indivíduos que padecem não por sentirem em excesso, mas por tentarem sentir menos; não por serem ‘exagerados’, mas por se forçarem a se encaixar num molde de normalidade”, acrescenta.

“Essa adaptação permanente pode desencadear ansiedade, vazio, manifestações corporais e uma sensação constante de inadequação.”

A psicanalista observa que o que a sociedade chama de “loucura” geralmente emerge quando um sofrimento se manifesta de um modo que perturba, amedronta ou desorganiza o outro, “diante de suas premissas sociais e internas”. Contudo, o sofrimento é parte constitutiva do humano. É uma dor, por vezes intensa e angustiante, inerente à simples condição de estarmos vivos.

O que é ‘loucura’ para uns pode ser conforto para outros. A psicanálise não opera com essa divisão estanque. Seu interesse está menos em classificar e mais em entender como cada sujeito lida com aquilo que o atravessa.”

Vivemos numa era marcada pela produtividade, pelo autocontrole e por uma felicidade muitas vezes performática. Isso influencia a maneira como lidamos com a diferença.

“Esse modelo gera exaustão, culpa e uma intolerância crescente frente ao que não funciona de maneira perfeita. A felicidade se torna uma obrigação, o autocontrole uma regra, e qualquer falha é experimentada como um fracasso pessoal”, comenta a especialista.

“Nesse cenário, o diferente é rapidamente visto como um problema, e não como uma expressão legítima da diversidade humana. Isso empobrece os laços e amplia o sofrimento silencioso.”

A ‘loucura’ como potencial criador

Com a devida atenção, a loucura inerente a cada pessoa pode se tornar um terreno fértil para a criatividade, a reinvenção e a liberdade. Afinal, a angústia, esse sentimento inquietante, frequentemente sinaliza um desejo que permanece oculto. Como afirmou o psicanalista francês Jacques Lacan, “a angústia não mente”. Ela pode servir como um impulso para transformações saudáveis na vida. Isabella ressalta:

“Há, em determinadas situações, uma dimensão criativa na busca por outras maneiras de existir.”

Isso, no entanto, exige cautela. “Não se trata de negar o sofrimento ou subestimar a dor. Assumir essa perspectiva com responsabilidade clínica implica reconhecer tanto a potência quanto a fragilidade presentes e, quando necessário, orientar para ajuda, cuidado e tratamento”, adverte.

A escritora e jornalista espanhola Rosa Montero frequentemente relaciona “loucura” com criatividade e ruptura com o ordinário. Ela aponta que a escrita é uma forma de se estruturar e confrontar o traumático, explorando o adoecimento mental como uma “saída criativa”. É claro, sempre distinguindo a “loucura” romantizada de transtornos reais.

Essa discussão é central em seu livro “O perigo de estar lúcida” (Todavia). Algumas passagens da obra ilustram esse pensamento:

“A normalidade não existe. Porque o conceito de normal é uma construção estatística derivada do mais frequente.”

“Todos guardamos no fundo do nosso coração alguma divergência. Somos todos esquisitinhos, embora, é verdade, uns mais do que outros.”

“Talvez a diferença entre a criatividade e o que chamamos de loucura seja apenas quantitativa.”

Na publicação, Rosa Montero combina relatos autobiográficos sobre suas crises de pânico com pesquisas científicas e biografias de escritores célebres que enfrentaram desequilíbrios psíquicos.

Através de exemplos como Virginia Woolf e Sylvia Plath, o livro questiona o conceito de normalidade e propõe que a mente criativa possui uma configuração neurológica particular.

Acolha a sua ‘loucura’

Deixando de lado questões relacionadas a transtornos psiquiátricos, acolher a própria “loucura” – aquele chamado interior inquietante e singular que periodicamente surge – é um ato genuíno de abertura para o mundo.

“Aceitar a própria ‘loucura’ é dizer sim para si mesmo, é persistir em ser quem se é, sem romantizar o sofrimento”, afirma Isabella.

“Na prática, significa ouvir o que insiste em ser dito, reconhecer limites, dar nome às dores e buscar modos de vida mais autênticos. Isso exige coragem. Do ponto de vista analítico dos sentimentos, isso pode ser profundamente significativo.”

“Entretanto, é crucial considerar a ética e a moral de uma boa convivência com o outro. Acredito firmemente que, em termos de convivência, o direito de um termina onde começa o do outro. Também significa saber quando é preciso pedir auxílio. Aceitar não é negligenciar o cuidado; é, precisamente, criar espaço para que ele ocorra de forma ética e responsável”, destaca a psicanalista, que finaliza com uma reflexão pertinente:

“A questão mais relevante não é ‘isso é loucura?’, mas ‘o que isso está tentando me dizer?’. Quando substituímos o julgamento pela escuta, algo se transforma. E é nesse intervalo entre o que dói e o que pode ser expresso que o cuidado verdadeiramente se inicia.”

O legado de Nise da Silveira

É impossível discutir a desestigmatização da palavra “loucura” sem reverenciar a psiquiatra brasileira Nise da Silveira. Ela foi uma das vozes mais importantes da luta antimanicomial no Brasil. Foi na ala de terapia ocupacional do Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II, no Rio de Janeiro, que Nise criou um ateliê e implementou atividades de pintura e modelagem para pacientes com esquizofrenia.

Para Isabella, o diferencial da psiquiatra foi a humanidade. “Ela demonstrou que o sofrimento psíquico não deve ser silenciado, isolado ou corrigido pela força, mas compreendido dentro de uma história, de um vínculo e de um contexto humano. O que permanece atual é a noção de que a pessoa não se reduz ao seu sintoma”, declara.

“O que ainda precisa evoluir é a aplicação cotidiana dessa escuta. Mesmo fora dos manicômios, ainda somos ágeis em excluir, rotular e patologizar aquilo que nos desconcierta, silenciando o não dito e encapsulando-o em fórmulas prontas.”

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