Fiquem atentos ao sinal do fim dos tempos! Não se trata dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse, de um sol negro ou da ressurreição dos mortos. O presságio do arrebatamento pode ser, na verdade, a inteligência artificial. Essa profecia surgiu do grande e sincrético ambiente universitário da cultura americana: a mente de Joe Rogan. Em novembro, o podcaster mais popular dos Estados Unidos sugeriu que o próximo local sagrado talvez não esteja no Oriente Médio, mas dentro de um supercomputador de alto desempenho.
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“Jesus nasceu de uma mãe virgem; o que poderia ser mais virgem do que um computador?”, ponderou ele no podcast *American Alchemy*. “Se Jesus realmente retornar — mesmo que tenha sido uma pessoa física no passado —, você não acha que ele poderia voltar como uma inteligência artificial?” Afinal, observou: “Ela lê sua mente e ama você.”
A especulação de Rogan veio após meses de discussões sobre IA e o Fim dos Tempos. Também em novembro, Paul Kingsnorth, escritor e crítico da modernidade, participou do podcast *Interesting Times*, do *New York Times Opinion*, e disse ao apresentador Ross Douthat que “o progresso constante do sistema tecnológico” — os rápidos avanços em inteligência artificial — conduziria “ao surgimento de seres muito parecidos com o Anticristo”: um falso profeta que imitaria a Segunda Vinda.
A previsão de Kingsnorth seguiu-se a uma participação, em junho, no mesmo programa, de Peter Thiel, investidor em tecnologia e ativista político conservador, que fez uma previsão oposta: a de que uma figura prometendo segurança e salvação diante dessas mesmas transformações aceleradas poderia em breve aparecer — e que essa figura seria o Anticristo, desviando a humanidade da redenção tecnológica.
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Thiel e Kingsnorth são figuras idiossincráticas que, há anos, elaboram conclusões apocalípticas. Eles refletem, em paralelo, uma indústria de tecnologia que lida com os últimos dias da humanidade como a conhecemos há pelo menos duas décadas — desde que o futurista Ray Kurzweil popularizou o conceito da singularidade tecnológica, quando a IA supera a inteligência humana.
Contudo, esses indivíduos não são meros excêntricos. Eles espelham uma nova atmosfera carregada de sentimento religioso. Cada vez mais, quando se trata de nossa relação com a IA e com os algoritmos complexos que moldam grande parte de nossa subjetividade moderna, recorremos à linguagem e aos hábitos mentais que normalmente reservamos para as divindades. Mesmo pessoas que não fazem uma ligação explícita entre IA e religião acabam adotando uma espécie de modo religioso em torno da nova tecnologia.
Essa virada ocorre no contexto de uma quantidade inescapável — quase bíblica — de profecias sobre a IA desde 2022, quando a OpenAI lançou o ChatGPT ao público. Esse modelo de linguagem de grande escala e seus sucessores impressionantes tornaram um pouco mais difícil descartar a ideia de que estamos à beira de uma revolução tecnológica, na qual máquinas com capacidades superiores às humanas irão remodelar significativamente a experiência humana.
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“É uma reação natural sentir medo do que nos dizem ou abraçar uma esperança radical, quase messiânica, como alternativa ao terror”, afirmou Greg Epstein, capelão humanista da Universidade Harvard e autor do livro *Tech Agnostic: how technology became the world’s most powerful religion, and why it desperately needs a reformation* (“Tecnologicamente Agnóstico: como a tecnologia se tornou a religião mais poderosa do mundo, e por que ela precisa desesperadamente de uma reforma”, em tradução livre), de 2024.
Grande parte da percepção pública sobre a suposta promessa transcendental da IA vem de interações com chatbots como o ChatGPT, que parecem saber tudo. (Para muitos, os termos “IA” e “chatbot” são usados como sinônimos.) Igualmente importantes são nossos contatos diários com a IA por meio dos algoritmos de personalização que impulsionam as redes sociais modernas. Eles se tornaram tão específicos — e por vezes tão perturbadores — que podem parecer conter uma centelha de algo humano, ou além do humano: algo divino.
Pode ser difícil olhar para trás diante de uma tecnologia que promete uma transformação sem precedentes. Mas o impulso humano de sentir assombro e atribuir propriedades mágicas ao desconhecido é muito antigo. Não, não somos mais os antigos que viam em cada tempestade e em cada incêndio as obras grandiosas de deuses caprichosos. Por um motivo simples: sabemos de onde vem a IA — ela vem de nós. Ainda assim, um impulso semelhante foi ativado. E é um impulso que pode ser utilizado de muitas maneiras.
Uma forma de pensar pré-Iluminista
Cientistas há muito compreendem que antropomorfizamos os computadores, transformando-os em personagens. De modo similar à forma como nosso cérebro preenche lacunas visuais quando nossa visão é parcialmente bloqueada (um fenômeno que um físico vitoriano atribuiu a “Deus, o ‘Artífice Divino’”), tendemos naturalmente a pegar alguns fios de texto gerado por computador e tecê-los em um ser completo.
Em 1985, Lucy Suchman, antropóloga do lendário Palo Alto Research Center da Xerox, descreveu o fenômeno como “a tendência de atribuir inteligência completa com base em evidências parciais”.
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“Assim que artefatos computacionais demonstram alguma evidência de capacidades reconhecidamente humanas, somos inclinados a dotá-los de todo o restante”, escreveu Suchman. Mas os chatbots de IA oferecem muito mais do que evidências parciais de inteligência. Coloquiais e em constante aprimoramento, eles não apenas pedem para ser personificados — eles se personificam por design.
Nós não conseguimos evitar isso, porque o viés humano de antropomorfização é antigo. Segundo o antropólogo da Universidade de Michigan Webb Keane, autor de *Animals, Robots, Gods: adventures in the moral imagination* (“Animais, Robôs, Deuses: aventuras na imaginação moral”, em tradução livre), ao projetarmos traços humanos nos computadores, participamos de uma longa tradição que inclui o oráculo de Delfos, médiuns espirituais e as varetas do I Ching. O oráculo de Delfos era uma mulher que se acreditava estar em contato direto com o deus Apolo — a palavra de uma divindade dada em forma humana. Assim como os chatbots parecem mediar uma inteligência maior por meio de uma voz humana, o oráculo era um médium literal.
Quando os humanos criam “algo semelhante a nós que tem a possibilidade de saber além do que podemos saber”, disse Keane, “isso se torna uma tecnologia para percepções superiores”.
Os algoritmos que governam a IA são, de fato, tecnologias para percepções superiores: guias e mensageiros de um universo digital imensamente vasto e insondável que os humanos vêm construindo há quatro décadas. Às vezes, os chatbots de IA são incorpóreos, como o Deus de Abraão, comunicando-se conosco apenas por texto. Em outros momentos, aparecem como avatares digitais.
Avi Schiffmann, criador do muito criticado pingente “Friend”, um chatbot vestível, reconhece esse poder. Em entrevista à *The Atlantic*, Schiffmann afirmou que “a relação mais próxima à qual isso se equivale é conversar com um Deus”.
Os criadores de aplicativos movidos a IA que permitem aos fiéis “trocar mensagens com Jesus” — ou “godbots” semelhantes para muçulmanos e hindus — parecem ter chegado à mesma conclusão.
“O que une os deuses de todas as tradições espirituais é o poder de se comunicar conosco”, escreveu Meghan O’Gieblyn, autora do livro de 2021 *God, Human, Animal, Machine: Technology, Metaphor and the Search for Meaning* (“Deus, Humano, Animal, Máquina: tecnologia, metáfora e a busca por sentido”), em um e-mail.
“Agora nos deparamos com outra forma invisível e não humana de inteligência que se comunica linguisticamente conosco. O deslizamento para descrever a IA em termos religiosos parece quase inevitável”.
Para ter uma noção da textura profética da relação entre chatbot e usuário, pense no exemplo mais extremo: a “psicose por chatbot”, em que pessoas são levadas à loucura por suas conversas com uma IA. Isso lembra muito o indivíduo que afirma estar recebendo diretamente as instruções insondáveis de Deus.
Pois, como todos os deuses, essa tecnologia é insondável. Alguns dos chatbots mais populares, como o ChatGPT, são considerados caixas-pretas — tecnologias cujo funcionamento interno é tão complexo que nem mesmo seus criadores conseguem explicá-lo facilmente. Às vezes, produzem respostas impressionantemente específicas ou úteis, criando no usuário humano a sensação de ser conhecido de maneira sobrenatural.
O mesmo ocorre com os algoritmos de personalização baseados em IA que impulsionam grande parte do consumo de mídia contemporâneo. Eles produzem resultados perturbadores, parecendo, às vezes, escutar nossas conversas e prever nossos desejos.
“E se o algoritmo do TikTok me conhecer melhor do que eu mesmo?”, questionou uma reportagem da *GQ Australia*.
“É quase como se estivéssemos retornando a uma forma de pensar pré-Iluminista”, disse O’Gieblyn. “Uma em que precisamos tomar decisões ou aceitar previsões com base na fé, como pura revelação”.
‘Rolar a tela é uma oração digital’
Em 1841, o filósofo alemão Ludwig Feuerbach apresentou o argumento revolucionário de que Deus é a “projeção exterior da natureza interna do homem”; sessenta anos depois, o sociólogo francês Émile Durkheim sugeriu que “Deus é a sociedade, em letras maiúsculas”. Se os humanos fazem Deus à sua imagem, então, para compreender uma sociedade, é útil compreender as características de suas divindades.
Ninguém — exceto talvez Rogan — argumentaria que os chatbots de IA têm origem divina; eles são treinados à nossa imagem, mesmo que não os compreendamos totalmente. E há formas importantes pelas quais nosso uso de chatbots difere de outras formas de adivinhação.
Por um lado, trata-se de uma prática majoritariamente individual. Embora Durkheim tenha escrito sobre a “efervescência coletiva”, a exaltação de participar de um culto religioso comunitário, nossas interações com a IA são atomizadas. Existe tecnicamente uma igreja dedicada a adorar a IA — a extravagante Way of the future, do engenheiro Anthony Levandowski —, mas a comunicação com a IA ocorre, em sua maioria, de forma solitária.
Em um ensaio intitulado “Você está literalmente adorando seu telefone”, o linguista Adam Aleksic escreveu em sua popular plataforma de publicação de newsletters que atitudes “micro-religiosas” permeiam o uso contemporâneo das redes sociais. O assombro diante de como o algoritmo parece nos conhecer, afirma Aleksic, não é muito diferente da crença comum de que Deus age de maneiras misteriosas. Ambas as respostas reduzem forças que parecem exceder a compreensão humana a um atalho compreensível. Mais do que isso, argumenta o autor, interagir com o algoritmo passou a se assemelhar a um ritual religioso.
“Rolar a tela é uma oração digital”, disse ele em entrevista. “Você pressupõe que ele conhece uma parte de você. Você oferece sua atenção e, em troca, recebe algo”.
Segundo Keane, o antropólogo da religião, a relação entre usuários e chatbots é definida por um “individualismo narcisista”, com a IA incapaz de oferecer as “verdades difíceis” de um profeta ou oráculo tradicional. “Sou eu quem inicia a conversa”, disse Keane. “Ela está ali para mim e me serve.”
E por que as empresas que criam chatbots desejariam prender os usuários às respostas fáceis de uma divindade subserviente? “As empresas estão tentando captar trilhões de dólares em investimento”, disse Epstein, o capelão humanista. “A religião é um sistema de pensamento e ação capaz de levar as pessoas a superar um ceticismo profundo para construir algo em escala enorme que talvez não sirva diretamente aos seus próprios interesses, mas a um todo maior que se diz transcendente”.
E os defensores da IA de fato prometem transcendência. Titãs da tecnologia, como Sam Altman e Marc Andreessen, preveem um futuro edênico movido por algoritmos quase divinos, no qual ganhos de produtividade eliminariam a necessidade de empregos e os humanos desfrutariam do que um relatório da A16 — a empresa de capital de risco de Andreessen — chamou de uma “era de abundância”. É claro que essas são promessas cheias de interesses, feitas por pessoas que têm muito a ganhar financeiramente.
“Quanto mais creditamos poderes divinos a isso, mais reforçamos o poder das corporações que o vendem”, disse Keane.
Talvez, junto com a onda de sentimento religioso em relação à tecnologia, estejamos também testemunhando outra forma de divinização em tempo real: a de um pequeno grupo de homens e mulheres que lucram toda vez que inclinamos a cabeça diante de um dispositivo.







