Cinema que escuta: Cineclube Sarau da Barão leva filme autoral ao coração de Vitória numa parceria com o Circuito Embaúba estreia com documentário sensível sobre memórias femininas, roda de conversa e feira artística no Centro da capital
Se o cinema comercial vive de explosão, super herói e balde de pipoca tamanho família, o cinema autoral vive de escuta, silêncio e aquele frio na barriga que faz pensar depois que a luz da sala acende. E é justamente esse segundo tipo que o Cineclube Sarau da Barão traz para Vitória, ao estrear sua parceria com o Circuito Embaúba, no próximo dia 28 de janeiro, às 19h30, no Espaço Thelema.
A sessão marca mais que uma exibição. Marca um movimento. Um convite para desacelerar, sentar, assistir junto e conversar depois. Sim, conversar. Coisa rara em tempos de “vi em 15 segundos no feed”.
O filme da noite é Abre Alas (2025), documentário dirigido por Ursula Rösele, que reúne sete mulheres entre 53 e 85 anos em um único espaço cênico. Elas compartilham histórias de silêncios que atravessaram suas vidas, aqueles impostos pela sociedade, pela família, pelo medo e, às vezes, por elas mesmas.
Nada de entrevistas engessadas. As narrativas ganham forma em performances criadas a partir dos próprios depoimentos, misturando memória, corpo e escuta ativa. O resultado é um cinema íntimo, potente e profundamente humano.
Segundo a pesquisadora de audiovisual Consuelo Lins, referência em documentário brasileiro, esse tipo de obra “transforma a experiência pessoal em gesto político, dando voz a sujeitos historicamente silenciados”. Em outras palavras: é arte que cutuca sem gritar.
Após a sessão, o público participa de uma roda de conversa para debater o filme e seus temas, fortalecendo aquilo que o cinema nasceu para ser: experiência coletiva.
O Cineclube Sarau da Barão é itinerante e já nasce com alma de movimento. A iniciativa deriva do Sarau da Barão, criado em 2015 pela produtora cultural Ruth Rangel, que há quase uma década ocupa espaços com poesia, música e encontros artísticos pelo Espírito Santo.
Agora, o projeto amplia o alcance e coloca o cinema no centro da roda.
“O cineclube é uma continuidade da celebração dos dez anos do Sarau da Barão. É um desdobramento que reafirma nosso compromisso com cultura acessível e com a ocupação afetiva dos espaços públicos e culturais. Agora, a poesia também ocupa as telas”, afirma Ruth.
E ocupa mesmo. Além do filme, o evento terá a Feira Poética, com livros, zines, ilustrações, artesanato e criações de artistas locais. É aquele tipo de rolê cultural em que você entra para ver um filme e sai com um poema na mochila e uma ideia nova na cabeça.
A parceria com o Circuito Embaúba, iniciativa da distribuidora mineira Embaúba Filmes, é um divisor de águas para cineclubes brasileiros. O projeto leva filmes autorais e premiados para fora do circuito tradicional de shoppings e multiplex, alcançando escolas, universidades, centros culturais e comunidades. O objetivo é claro: democratizar o acesso ao cinema nacional.
Em tempos em que produções brasileiras disputam horários ingratos nas salas comerciais, o circuito cria um caminho alternativo de circulação e debate. Muitas sessões acontecem antes, durante ou logo após a estreia oficial dos filmes, sempre acompanhadas de materiais para reflexão e conversa com o público. É a velha tradição cineclubista ganhando fôlego novo. E, convenhamos, cinema pensado para ser debatido rende mais que final explicado no YouTube.
O Cineclube Sarau da Barão não para em Vitória. A proposta é circular por cinco municípios da Grande Vitória: Vitória, Vila Velha, Cariacica, Fundão e Viana. A ideia é descentralizar o acesso ao audiovisual, levando sessões gratuitas de curtas e longas nacionais e capixabas para diferentes territórios. Um passo importante para formar público, estimular pensamento crítico e fortalecer a cena cultural local. O projeto conta com recursos do Funcultura, da Secretaria da Cultura do Espírito Santo, por meio da Política Nacional Aldir Blanc, com apoio do Ministério da Cultura e do Governo Federal.
A estreia da parceria entre o Cineclube Sarau da Barão e o Circuito Embaúba mostra que o cinema brasileiro pulsa fora dos shoppings, nos espaços onde a arte encontra gente de verdade. É filme que provoca, conversa que continua depois dos créditos e cultura que circula como deve ser: acessível, viva e coletiva. Se blockbuster é barulho, cineclube é coração batendo. E Vitória, dessa vez, vai ouvir bem de perto.
Serviço
Exibição do documentário Abre Alas + roda de conversa
Data: 28 de janeiro
Horário: 19h30
Local: Espaço Thelema, Centro de Vitória
Entrada: gratuita
Classificação indicativa: 12 anos
Duração: 109 minutos






