9 de fevereiro de 2026
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Vidro raro confirma queda de meteorito no Brasil

A comprovação de um intenso choque cósmico no território brasileiro há 6,3 milhões de anos não veio de um laboratório sofisticado, mas do quintal de uma casa no norte de Minas Gerais. O fenômeno, que espalhou um tipo peculiar de vidro por uma área de 900 quilômetros, coloca o Brasil no cenário internacional da geologia e da proteção planetária.

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A pesquisa, conduzida pelo professor Álvaro Crósta (Unicamp) e divulgada na revista científica Geology, descreve a identificação dos “geraisitos”, fragmentos que formam o sétimo depósito de tectitos já registrado no planeta.

O início da descoberta

A história da descoberta mostra uma interação notável entre a comunidade e os pesquisadores. Tudo começou quando um morador da zona rural, perto da divisa entre Minas Gerais e Bahia, encontrou pedras incomuns em sua propriedade. Intrigado com a aparência do material, ele buscou informações na internet, percebeu a semelhança com tectitos e decidiu entrar em contato com a Unicamp.

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No início, os cientistas receberam a informação com cautela. “Nossa reação inicial foi de certa desconfiança… hoje, com a internet, há muitas histórias enganosas”, comenta o professor Crósta, preocupado que as amostras pudessem ter sido compradas online de outro país.

A situação mudou quando, de forma independente, um segundo morador, que vivia a 40 quilômetros do primeiro, também procurou a equipe para relatar objetos parecidos. Os pesquisadores foram ao local, confirmaram a autenticidade e iniciaram uma investigação minuciosa que se estendeu por meses, com a cooperação de instituições estrangeiras.

Geraisitos e moldavitos: a gema espacial

Os tectitos do Brasil, batizados de geraisitos, são vidros naturais criados quando um asteroide de grande porte colide com o planeta, fundindo as rochas da região e ejetando o material incandescente para a atmosfera, onde ele esfria e se solidifica em formas aerodinâmicas, como gotas, discos ou halteres.

Embora todos os tectitos compartilhem uma origem catastrófica, suas características visuais diferem. O professor Crósta traça um paralelo entre as amostras brasileiras e os célebres moldavitos, encontrados na Europa e formados pelo impacto que criou a cratera Ries, na Alemanha.

  • Moldavitos: Têm uma tonalidade verde-esmeralda distintiva e são conhecidos desde a Idade Média, tendo sido inclusive usados como gemas pela nobreza europeia.
  • Geraisitos: Possuem uma coloração mais discreta, um verde acinzentado que fica translúcido sob luz forte. O próprio pesquisador adaptou um exemplar em forma de gota para usar como pingente em suas palestras.

Onde está a cratera?

A identificação desses vidros levanta uma pergunta direta: onde ficou a marca da colisão? Para projetar detritos a distâncias tão vastas, abrangendo Minas Gerais, Bahia e Piauí, o asteroide deve ter gerado uma cratera com vários quilômetros de diâmetro.

Até agora, essa cratera permanece sem localização. As nove estruturas de impacto conhecidas no Brasil são consideravelmente mais antigas do que os 6,3 milhões de anos atribuídos aos geraisitos. A equipe suspeita que ela possa estar soterrada ou desgastada pela erosão e pretende usar técnicas geofísicas para examinar o subsolo em busca dessa formação oculta.

Infográfico explicativo com o título 'Geraisitos: A Prova de um Impacto Cósmico no Brasil'. A imagem detalha a descoberta de vidros naturais raros (tectitos) em Minas Gerais, Bahia e Piauí, formados pelo impacto de um asteroide há 6,3 milhões de anos. À esquerda, o gráfico mostra as formas aerodinâmicas dos vidros (gota, disco e bastão) e um mapa-múndi destacando o Brasil como o 7º campo de tectitos do planeta. Ao centro, uma ilustração colorida retrata um meteoro atingindo o mapa do Brasil e ejetando fragmentos. À direita, explica-se o processo de formação: a colisão derrete rochas que são lançadas à atmosfera e se solidificam no ar. O infográfico encerra com o 'Mistério da Cratera Perdida', ilustrado por um buraco no solo com um ponto de interrogação, indicando que o local exato do impacto ainda é desconhecido.

Um tesouro científico

A divulgação da descoberta desencadeou uma série de eventos. Recentemente, o diretor do Serviço Geológico do Brasil entrou em contato com os pesquisadores após identificar um tectito semelhante na Bahia, o que ampliou as áreas de investigação.

No entanto, os especialistas fazem um alerta importante para quem imagina ter feito fortuna ao encontrar uma dessas pedras. “O valor é muito mais científico do que financeiro”, esclarece Crósta. Ao contrário do que se pensa, a maior parte dos meteoritos e tectitos não tem um preço alto no mercado, capaz de enriquecer alguém. Seu significado para museus e para a compreensão da história da Terra, porém, é imensurável.

Os trabalhos de investigação continuam, agora com o objetivo de definir os limites exatos do campo de dispersão e, por fim, localizar a cratera que deu origem a todo esse fenômeno.

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