O setor suíno europeu iniciou 2026 em uma situação delicada, com preços em forte queda após a detecção de novos casos de Peste Suína Africana. O vírus, altamente contagioso para porcos domésticos e javalis, não afeta humanos, mas provoca o sacrifício de animais e barreiras sanitárias para conter os surtos. A disseminação da doença, somada à alta produção e ao fraco consumo interno, deve aumentar a competição no comércio global e pressionar os preços mundiais, afetando diretamente países exportadores como o Brasil.
A confirmação de novos focos de PSA na Espanha, no final do ano passado, acelerou uma tendência já em curso. Os valores do animal vivo caíram de cerca de US$ 2,00 por quilo para aproximadamente US$ 1,50/kg no início de janeiro. Na média da União Europeia, o preço recuou para US$ 1,72/kg, o menor patamar desde 2022.
Pressão estrutural sobre os preços
Embora o fator sanitário tenha seu peso, a principal causa da queda é estrutural. Conforme apontado no Segundo Relatório do Conselho de Desenvolvimento da Agricultura e Horticultura da UE, a produção de carne suína no continente cresceu cerca de 4% nos primeiros dez meses de 2025, totalizando 18,2 milhões de toneladas. Esse aumento foi impulsionado pelo maior número de abates e pelo incremento no peso médio das carcaças. A Espanha liderou essa expansão, com alta de quase 7%, seguida por Polônia, Dinamarca e Itália.
Esse crescimento da produção ocorreu em um momento de demanda interna fraca. O consumo na região segue contido devido ao modesto desempenho da economia, aos efeitos da inflação dos anos anteriores e a mudanças nos hábitos alimentares da população. Assim, o mercado ingressou em 2026 em claro desequilíbrio, o que comprime os preços e as margens dos produtores.
Impactos no comércio exterior
Esse cenário deve ter reflexos imediatos no comércio internacional da proteína suína. Com dificuldades para escoar toda a produção dentro do bloco, a União Europeia tende a aumentar suas exportações, buscando colocar os excedentes a preços mais competitivos.
Para Rodrigo Costa, da Pine Agronegócios, essa dinâmica exige atenção de países exportadores fora do bloco europeu. “Sempre que a Europa enfrenta excedentes e preços baixos, sua competitividade no mercado internacional aumenta. Isso exerce uma pressão de baixa sobre as cotações globais e pode reduzir as oportunidades para exportadores como o Brasil em determinados mercados”, avalia o especialista.
A competição deve se acirrar especialmente em regiões onde o preço é decisivo, como em partes da Ásia e da África, onde a carne europeia pode se tornar mais atrativa mesmo diante de barreiras sanitárias. “Apesar de a Peste Suína Africana restringir o acesso a alguns países, o bloco mantém uma lista extensa de compradores autorizados”, complementa Costa.






