No dia 29 de novembro de 2025, corpos em movimento desceram a Cidade Alta e revelaram camadas de sentido — evidenciando histórias ocultadas, trazendo à tona memórias silenciadas e lançando luz sobre territórios em apagamento no coração de Vitória. A Descida da Memória, Identidade e Inclusão — Territórios Negros — Vitória(ES), realizada pela Associação Cultural Coisas de Negres, surgiu de um gesto coletivo:caminhar pela cidade fazendo dela um campo de memória, presença e disputa.
Como coordenadora musical do Bloco Coisas de Negres, idealizei e colaborei para a realização dessa experiência a partir do diálogo entre a prática cultural do bloco e as reflexões desenvolvidas na minha formação em Geografia, resultado de uma pesquisa sobre os territórios negros na cidade de Vitória.
Esse percurso acadêmico e artístico me permitiu olhar para a cidade não apenas como cenário, mas como texto vivo — cheio de camadas, tensões e escolhas que nem sempre aparecem na superfície.
A Descida percorreu territórios que guardam marcas da presença negra na cidade: da estátua de Dona Domingas à Igreja de São Gonçalo das Irmandades dos Homens Pardos; da antiga Ladeira do Pelourinho, hoje Escadaria Maria Ortiz, à Praça Costa Pereira; até alcançar a Escadaria e a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. Passar por esses territórios não foi apenas cumprir um trajeto, mas ativar memórias que sobrevivem apesar das camadas de esquecimento. O Bloco Afro Coisas de Negres — que afirma a cultura e a história afro-brasileira e luta contra todas as formas de preconceito e discriminação que desumanizam — atua justamente nesse entrelugar: transformar corpo, som e movimento em ferramenta política, de reconhecimento e de reinserção da presença negra na cidade.
Entre esses territórios, alguns revelam suas camadas de sentido pelo gesto do corpo; outros carregam tensões mais explícitas, inscritas nos nomes que recebem. A antiga Ladeira do Pelourinho, hoje Escadaria Maria Ortiz, é um desses lugares. Ao atravessar esses espaços, torna-se impossível ignorar que a disputa pela memória também se manifesta nos nomes que a cidade escolhe preservar. O pelourinho, símbolo de punição pública e de violência colonial, marca uma história de controle, dor e disciplinamento dos corpos negros. Já o nome Maria Ortiz evoca a bravura de uma mulher que, em uma sociedade colonial profundamente patriarcal, foi exaltada por sua resistência e luta contra invasores. Os nomes dos lugares não são neutros: eles organizam a forma como a história é lembrada, contada e ensinada. Na Geografia, chamamos de toponímia o processo de nomeação dos lugares — um campo em que nomear e renomear revela disputas de poder e seleciona quais memórias podem permanecer visíveis e quais são empurradas para o silêncio. Naquele dia, as falas e os cantos do cortejo tornaram essa disputa audível.
Ocupar o local onde a escadaria encontra a Cidade Alta foi reencontrar a presença negra que a história oficial frequentemente tenta dissipar. Aqueles degraus conectam tempos distintos de uma cidade que, ao longo das décadas, aprendeu a confiar em versões consolidadas por narrativas oficiais, por projetos urbanos e por modos autorizados de contar a história. Estar ali, ao som dos tambores e em um corpo coletivo em deslocamento, evidenciou algo fundamental: a identidade não se encontra apenas nas placas e nos mapas oficiais, mas se produz no uso, na presença e na memória.
As identidades que atravessam nossos territórios não nascem de uma única matriz, mas da confluência de experiências diversas. Muitas delas foram historicamente colocadas à margem, apagadas ou silenciadas. Ainda assim, quando afastamos a lente oficializada, torna-se possível reconhecer que essas identidades — feitas de encontros, presenças, resistências e permanências — seguem produzindo sentido nas cidades que habitamos.
A Descida do Coisas de Negres não foi apenas um deslocamento musical. Foi uma prática de reconhecimento. Um gesto que revelou que a cidade não é neutra e que a memória é campo de disputa. A pesquisa e a Descida reforçam a leitura de que a cidade é um tecido de escolhas: algumas histórias ganham placas e monumentos; outras permanecem sustentadas pela experiência viva de quem habita, trabalha, atravessa e reexiste no território.
A pergunta sobre quem pode nomear a cidade revela, no fundo, quem tem sua presença reconhecida como legítima — e quem segue produzindo território sem o direito de dizer o que ele é.
É a partir dessa perspectiva que inauguro minha escrita aqui: compreendendo a cidade como disputa de sentidos, a memória como campo de escolhas e a escrita como gesto de escuta e reflexão sobre camadas que nem sempre se mostram de imediato.
Não pretendo encerrar com respostas, mas com perguntas.
Entre elas, uma continua a ecoar:
Quem continua sem o direito de nomear a cidade onde vive?
Quem continua sem o direito de nomear a cidade onde vive?
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