13 de janeiro de 2026
terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Sinners: Terror como crítica social

Evitar Sinners foi uma escolha inicial movida por um motivo direto e, reconhecidamente, equivocado: uma aversão pessoal a filmes de terror, criaturas ou vampiros. Minha formação cultural sempre associou o gênero a sustos previsíveis, convenções rígidas e pouco espaço para sentimentos além do pavor. Sinners desfaz essa barreira com uma sofisticação rara. Talvez por isso não cause espanto que a produção tenha se tornado um fenômeno entre a crítica, lidere as indicações nesta temporada de premiações e tenha alcançado um êxito comercial muito acima do esperado para um “filme de gênero”. Isso porque Sinners não é sobre vampiros. Os vampiros são apenas a roupagem que o horror veste para discutir temas completamente distintos.

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Sob a direção de Ryan Coogler, a obra retoma questões que percorrem sua filmografia — identidade, lugar no mundo, opressão, herança histórica —, agora apresentadas em uma trama que mistura blues, tragédia grega e horror sobrenatural. O resultado é um filme que conversa com um público amplo sem jamais banalizar sua mensagem. E, a esta altura, não é segredo: a guinada narrativa só acontece depois de mais de uma hora de projeção, apenas quando a audiência já está cativada. Uma estratégia, diga-se, bastante vampiresca.

O disfarce político do gênero

Ambientado no Mississippi dos anos 1930, Sinners segue irmãos gêmeos interpretados por Michael B. Jordan, que retornam do Norte com recursos obtidos no crime e um plano arriscado: abrir um juke joint para a comunidade negra da região. O local não é apenas um empreendimento. É um domínio de autonomia em um mundo organizado para negá-la.

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O horror surge quando indivíduos brancos, aparentemente cultos e “civilizados”, começam a circular nesse ambiente. São vampiros, de fato, mas vampiros que dispensam capas ou dentes alongados. Sua nutrição vem da cultura, do trabalho, dos corpos e do silêncio. Eles não invadem: são convidados. Não gritam: estabelecem acordos.

Coogler emprega o terror de modo similar ao que Jordan Peele já fez, mas com uma distinção crucial: Sinners não se concentra apenas no impacto do presente. A obra olha para o passado. Para a gênese. Para o pecado estrutural que nunca foi resolvido.

O trabalho mais desafiador de Michael B. Jordan

Uma parte significativa da força do filme está na atuação dupla de Michael B. Jordan. Representar gêmeos já é um teste técnico; aqui, o desafio é ético e emocional. Um irmão acredita na barganha como forma de sobrevivência. O outro entende que qualquer transação cobra um preço alto demais.

Jordan constrói essa divergência com precisão nos gestos, cadência na fala e presença física. Não há exagero caricatural. São duas reações plausíveis ao mesmo trauma histórico. É uma interpretação que sustenta toda a narrativa e explica por que seu nome aparece com frequência nas listas de favoritos da temporada: não é uma atuação barulhenta, mas um trabalho de construção minuciosa, que ganha camadas a cada cena.

Desempenho comercial, audiência e ressonância

Apesar da classificação indicativa restritiva e da temática complexa, Sinners conquistou seu público. O resultado nas bilheterias provou algo que Hollywood costuma ignorar: quando o cinema de gênero é abordado com perspicácia e ambição criativa, ele transcende nichos. A produção não apenas recuperou seu investimento rapidamente, como permaneceu em cartaz por semanas, alimentada pela recomendação boca a boca e pelo interesse daqueles que, como muitos, achavam que “não era para eles”.

Esse sucesso ajudou a consolidar Sinners como um ponto de encontro incomum entre análise especializada, reconhecimento em premiações e aceitação do mercado: uma conquista cada vez mais rara.

A recusa presente no desfecho

Sem revisitar todos os detalhes do clímax, vale destacar: Sinners não oferece uma redenção simplória. O juke joint sucumbe. A cultura persiste, mas com feridas. Os vampiros não desaparecem, apenas se adaptam. O filme se recusa a fingir que o triunfo é absoluto ou imaculado.

E é justamente essa recusa que o torna tão impactante. Coogler não quer consolar. Seu objetivo é fazer lembrar.

Os motivos da liderança de Sinners na temporada

Sinners encabeça as indicações porque evita lições óbvias, não subestima a inteligência do espectador e não usa o gênero como muleta, mas como linguagem. É uma produção que entende que o terror mais duradouro não está nas criaturas, e sim nas estruturas que seguem funcionando perfeitamente.

Para quem, como tantos, sempre fugiu de histórias de vampiros, Sinners age quase como uma armadilha, no melhor sentido. Você entra na sala achando que sabe o que vai encontrar. Sai entendendo que o gênero era apenas a porta de entrada.

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