Desde os primeiros passos de um filho ou filha, o cuidado se faz presente, mas, para as mães atípicas — aquelas que têm filhos(as) em situação de dependência — esse cuidado extrapola o esperado. Ele se transforma em uma missão quase invisível, imensamente exigente e, muitas vezes, solitária.
No Brasil, a sociedade impõe às mulheres o papel de cuidadoras. Para as mães atípicas, esse papel é ainda mais pesado: não por escolha consciente, mas pela inexistência de alternativas. São mulheres que frequentemente abrem mão de suas carreiras, círculos sociais e até do seu bem-estar emocional e físico para dedicar-se integralmente a seus filhos(as). Esse trabalho, por mais cheio de amor que seja, acarreta consequências profundas.
Dados mostram que essas mães enfrentam problemas significativos, como prejuízos econômicos, isolamento social e saúde fragilizada. Além do estresse e da ansiedade que as acompanham todos os dias, há um aumento de despesas, que inclui medicamentos, terapias e ajustes na infraestrutura doméstica para atender às necessidades dos filhos(as). O Estado oferece pouco suporte, e as políticas públicas existentes frequentemente são insuficientes para garantir qualidade de vida às mães e às suas famílias.
A sociedade tenta recompensar seu esforço com o discurso de que a mãe atípica é uma heroína, uma guerreira. Mas será que precisamos glorificar essa sobrecarga? Essa narrativa romantizada acaba escamoteando a necessidade urgente de transformações. Mães atípicas não precisam ser vistas como “heroínas” — precisam de suporte, de infraestrutura, de cuidado.
Para mudar essa lógica, iniciativas que dão voz a essas mães são cruciais. Em Alegre, por exemplo, um projeto busca romper com o isolamento, promovendo rodas de conversa, ações educativas em saúde e até mesmo atendimento psicológico especializado. Esses encontros também se tornaram palco para a reivindicação por direitos básicos. Um dos movimentos, ocorrido em fevereiro, abordou o descaso da prefeitura ao não contratar cuidadores especializados, obrigando mães a abandonar seus trabalhos para acompanharem seus filhos(as) na escola ou, ainda mais doloroso, a desistirem da educação infantil devido à falta de apoio.
A luta dessas mães é também a nossa luta como sociedade, relembrando a frase de Angela Davis: “Não aceito mais as coisas que não posso mudar, estou mudando as coisas que não posso aceitar”. Essa frase resume a força de um movimento em transformação, que exige a mudança de uma realidade injusta.
É hora de olharmos além dos estereótipos e reconhecer as mães atípicas como mulheres empoderadas, capazes de mobilizar e exigir políticas públicas que as priorizem. Que cada roda de conversa, cada movimento liderado por essas mães seja combustível para alterações estruturais. E que a luta delas não fique restrita às salas fechadas ou aos fóruns locais, mas ecoe nas ruas e chegue às esferas nacionais.
Porque lutar por elas é também lutar por uma sociedade mais justa, mais inclusiva e mais humana.