sexta-feira, 4 de abril de 2025

Cuidando de quem cuida

Desde os primeiros passos de um filho ou filha, o cuidado se faz presente, mas, para as mães atípicas — aquelas que têm filhos(as) em situação de dependência — esse cuidado extrapola o esperado. Ele se transforma em uma missão quase invisível, imensamente exigente e, muitas vezes, solitária.

Continua após a publicidade

No Brasil, a sociedade impõe às mulheres o papel de cuidadoras. Para as mães atípicas, esse papel é ainda mais pesado: não por escolha consciente, mas pela inexistência de alternativas. São mulheres que frequentemente abrem mão de suas carreiras, círculos sociais e até do seu bem-estar emocional e físico para dedicar-se integralmente a seus filhos(as). Esse trabalho, por mais cheio de amor que seja, acarreta consequências profundas.

Dados mostram que essas mães enfrentam problemas significativos, como prejuízos econômicos, isolamento social e saúde fragilizada. Além do estresse e da ansiedade que as acompanham todos os dias, há um aumento de despesas, que inclui medicamentos, terapias e ajustes na infraestrutura doméstica para atender às necessidades dos filhos(as). O Estado oferece pouco suporte, e as políticas públicas existentes frequentemente são insuficientes para garantir qualidade de vida às mães e às suas famílias.

Continua após a publicidade

A sociedade tenta recompensar seu esforço com o discurso de que a mãe atípica é uma heroína, uma guerreira. Mas será que precisamos glorificar essa sobrecarga? Essa narrativa romantizada acaba escamoteando a necessidade urgente de transformações. Mães atípicas não precisam ser vistas como “heroínas” — precisam de suporte, de infraestrutura, de cuidado.

Para mudar essa lógica, iniciativas que dão voz a essas mães são cruciais. Em Alegre, por exemplo, um projeto busca romper com o isolamento, promovendo rodas de conversa, ações educativas em saúde e até mesmo atendimento psicológico especializado. Esses encontros também se tornaram palco para a reivindicação por direitos básicos. Um dos movimentos, ocorrido em fevereiro, abordou o descaso da prefeitura ao não contratar cuidadores especializados, obrigando mães a abandonar seus trabalhos para acompanharem seus filhos(as) na escola ou, ainda mais doloroso, a desistirem da educação infantil devido à falta de apoio.

A luta dessas mães é também a nossa luta como sociedade, relembrando a frase de Angela Davis: “Não aceito mais as coisas que não posso mudar, estou mudando as coisas que não posso aceitar”. Essa frase resume a força de um movimento em transformação, que exige a mudança de uma realidade injusta.

É hora de olharmos além dos estereótipos e reconhecer as mães atípicas como mulheres empoderadas, capazes de mobilizar e exigir políticas públicas que as priorizem. Que cada roda de conversa, cada movimento liderado por essas mães seja combustível para alterações estruturais. E que a luta delas não fique restrita às salas fechadas ou aos fóruns locais, mas ecoe nas ruas e chegue às esferas nacionais.

Porque lutar por elas é também lutar por uma sociedade mais justa, mais inclusiva e mais humana.

Continua após a publicidade
Ludimila Nunes Mantovani
Ludimila Nunes Mantovani
Mulher, mãe de três filhos, sendo um deles autista, Assistente Social da UFES

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Vitória, ES
Amanhecer
05:48 am
Anoitecer
05:39 pm
25ºC
Chuva
0mm
Velocidade do Vento
2.06 km/h
04/04
Sex
Mínima
23ºC
Máxima
30ºC
05/04
Sáb
Mínima
23ºC
Máxima
27ºC
06/04
Dom
Mínima
23ºC
Máxima
26ºC
07/04
Seg
Mínima
22ºC
Máxima
26ºC
Colunistas
Anna Terra

Capítulo 13: A cerimônia de abertura e uma nova psicóloga

Leia também