O foguete Space Launch System (SLS) e a cápsula Orion da Nasa, que em breve poderão levar quatro pessoas em uma missão histórica à Lua, serão os protagonistas neste sábado. Eles farão uma jornada de várias horas, saindo do Edifício de Montagem de Veículos da agência até a plataforma de lançamento no Centro Espacial Kennedy, na Flórida.
Este evento marca os primeiros passos de um caminho extraordinário e, para muitos, possivelmente surpreendente.
Com lançamento previsto para 6 de fevereiro, a missão Artemis II terá dez dias de duração. Ela levará os astronautas da Nasa Reid Wiseman, Victor Glover e Christina Koch, além de Jeremy Hansen, da Agência Espacial Canadense, para as proximidades da Lua. Será a primeira vez desde a Apollo 17, em 1972, que humanos se aproximarão do satélite.
A equipe de quatro pessoas viajará além do lado oculto da Lua, o que pode estabelecer um novo recorde de distância máxima percorrida por humanos a partir da Terra, superando a marca atual da missão Apollo 13.
A missão também será lembrada como a primeira viagem além da órbita terrestre baixa a incluir uma pessoa não branca, uma mulher e um astronauta canadense.
Mas por que a Artemis II não pousará na superfície lunar?
“A explicação mais direta é que ela não tem essa capacidade. Não se trata de um módulo projetado para pouso lunar”, afirmou Patty Casas Horn, vice-líder de Análise de Missões e Avaliações Integradas da Nasa.
“Em toda a trajetória da Nasa, nossas ações sempre envolvem algum nível de risco. Por isso, é crucial assegurar que esse risco seja justificável e aceitar apenas o necessário, dentro de parâmetros razoáveis. Dessa forma, desenvolvemos uma capacidade, a testamos, depois desenvolvemos outra e a testamos novamente. Chegaremos ao pouso na Lua, mas o programa Artemis II tem foco principal na tripulação.”
A Artemis I, a missão inaugural não tripulada do programa, foi lançada em novembro de 2022 e orbitou a Lua durante 25 dias. O próximo voo marcará a primeira vez que pessoas estarão a bordo da espaçonave Artemis: a cápsula Orion levará os astronautas ao redor da Lua, e o foguete SLS a colocará em órbita terrestre antes que a jornada prossiga rumo ao espaço profundo.
“Agora, com nossos quatro humanos a bordo, testaremos diversas novas capacidades que não estavam presentes na Artemis I”, explicou Horn. “Por exemplo, é necessário manter a estabilidade térmica da espaçonave para o conforto da tripulação. No entanto, a presença de pessoas adiciona umidade significativa ao ambiente. Elas também demandam comida, água e instalações sanitárias. Desta vez, também testaremos alguns equipamentos de exercício a bordo da Orion.”
As prioridades da Nasa para a Artemis II são bem definidas, complementou Horn. Há muito a ser realizado sem a necessidade de tocar o solo lunar. A segurança e a saúde da tripulação são a principal preocupação, o que inclui garantir seu retorno à Terra. Em seguida, vêm a segurança e a integridade da nave espacial e, depois, os objetivos da missão, como testar sistemas de navegação, propulsão e outros equipamentos de bordo.
Semelhanças com a Apollo 8
O perfil da missão Artemis II apresenta alguns paralelos com a Apollo 8, lançada em 1968, que também levou humanos às proximidades da Lua pela primeira vez sem realizar um pouso. Aquele foi o primeiro lançamento tripulado do foguete Saturno V e a ocasião em que astronautas puderam observar e fotografar o lado oculto lunar.
Assim como a Artemis II, a Apollo 8 foi realizada quando o módulo lunar do programa — denominado Módulo Lunar Apollo — não estava preparado para um voo com tripulação. Consequentemente, a Nasa alterou o foco da missão, de um treinamento para pouso lunar para um treinamento de navegação translunar. (O treinamento para pouso lunar ocorreu posteriormente, durante a missão Apollo 9.)
O primeiro módulo de pouso lunar planejado para o programa Artemis é o Starship HLS, ou Sistema de Pouso Humano, atualmente em desenvolvimento pela SpaceX. Durante a missão Artemis III, com lançamento previsto para 2028, os astronautas serão lançados na cápsula Orion utilizando o foguete Space Launch System.
Uma vez em órbita lunar, a Orion se acoplará ao módulo de pouso lunar (HLS) da Starship, e dois astronautas serão transferidos para essa nave para a descida à superfície. Vale notar que existem incertezas quanto ao cronograma de desenvolvimento do módulo lunar Starship, o que levou a Nasa a avaliar a contratação de outra empresa para a tarefa.
Horn reconheceu as similaridades entre a Artemis II e a Apollo 8, mas também ressaltou diferenças significativas.
“A Apollo 8 entrou em órbita lunar, completou dez voltas e então retornou”, disse ela. “Nós não vamos entrar em órbita lunar — a Artemis II é uma missão de ‘retorno livre’, o que significa que, uma vez que sairmos da órbita da Terra, já estaremos em trajetória de volta. Vamos apenas contornar a Lua, e essa é a beleza do plano. Se inúmeros problemas ocorrerem, a tripulação ainda assim retornará à Terra sem a necessidade de realizar outra grande manobra de ignição dos motores.”
Segundo James W. Head, professor de ciências da Terra, ambientais e planetárias da Universidade Brown, que atuou no programa Apollo, pode haver outro paralelo entre as duas missões.
“A missão Apollo 8 aconteceu no período do Natal, então todos estavam em casa assistindo pela televisão. Isso deu às pessoas a sensação de que realmente iríamos à Lua. Foi um despertar para o país e para o mundo”, comentou ele. “A Artemis II será um momento semelhante de despertar — estamos voltando à Lua. Aqui estão quatro astronautas corajosos fazendo observações da Lua e contemplando a Terra após mais de cinquenta anos. Será uma experiência nova. Com toda a turbulência atual no planeta, isso pode até servir como uma força para unir as pessoas. Existe um propósito maior aqui. Há algo com o que todos podemos nos identificar.”
Head também acredita que os programas Apollo e Artemis estão conectados pela abordagem meticulosa de testar cada componente antes do lançamento. “A espaçonave Artemis está apenas em seu segundo voo. Não se pode acelerar os processos”, afirmou. “Assim como no programa Apollo, cada elemento é testado passo a passo. É por isso que ela não está pousando, pois esta é a primeira vez que está sendo testada com tripulação. Portanto, faz todo sentido. É assim que a Nasa conduz suas missões, para garantir não apenas a segurança humana, mas também o êxito da missão.”







