Relatórios da OMS e do INCA acendem o alerta sobre carnes processadas e ultraprocessados, tema que extrapola a saúde e invade debates no cinema, no teatro e nos eventos culturais.
Se toda boa história começa com um conflito, aqui vai o nosso. O bacon no café da manhã versus a ciência no palco. Parece piada de roteiro experimental, mas não é. Nos últimos anos, o que estava restrito a artigos científicos ganhou holofote digno de estreia em festival. A Organização Mundial da Saúde [OMS] e o Instituto Nacional de Câncer [INCA] cravaram. Carnes processadas como presunto, salsicha, bacon e linguiça estão associadas ao aumento do risco de câncer, especialmente o colorretal. Luz acesa, silêncio na plateia.
A classificação vem da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer [Iarc], braço da OMS. Esses alimentos foram colocados no grupo 1 de carcinogênicos. É o mesmo grupo do tabaco, do amianto e da fumaça de diesel. Aqui mora a confusão popular. Estar no mesmo grupo não significa ter o mesmo impacto. A oncologista Gabrielle Scattolin, da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, explica que a lista considera a força da evidência científica, não o tamanho do risco. Traduzindo para o português claro. O roteiro é sério, mas o vilão muda de peso conforme a cena.
E por que isso interessa ao cinema, ao teatro e aos eventos? Porque cultura também é hábito. Nos bastidores de sets, camarins e festivais, o cardápio costuma ser rápido, barato e ultraprocessado. Refrigerante, fritura, embutido embalado em papel alumínio. A nutricionista do INCA Maria Eduarda Melo lembra que o consumo diário de 50 gramas de carne processada, algo como uma salsicha solitária, aumenta em 18 por cento o risco de câncer colorretal. Parece pouco, mas consumo diário vira série longa. E série longa, quando ruim, cansa.
A ciência aponta ainda outros figurantes problemáticos. Frituras feitas em altas temperaturas, bebidas alcoólicas e gaseificadas, açúcar e farinha branca em excesso. Todos associados a inflamações, estresse oxidativo e crescimento celular desordenado. Já os enlatados entram em cena por causa do Bisfenol A, o famoso BPA, capaz de migrar da lata para o alimento e bagunçar o DNA como crítico mal humorado em estreia de musical.
Vale o lembrete ético. Comer um cachorro quente não assina sentença nenhuma. O risco é cumulativo e dialoga com outros fatores. Sedentarismo, obesidade, tabagismo e genética. A própria OMS reforça que a carne tem valor nutricional e não deve ser demonizada. Moderação é o nome do ato final.
Entre os itens a serem evitados, estão as carnes embutidas, como salsicha, linguiça, bacon e o presunto. Segundo a especialista, isso ocorre porque esses alimentos são ricos em componentes como nitritos, nitratos e nitrosaminas. Quando ingeridas, essas substâncias reagem com as proteínas presentes no trato intestinal, o que causa danos ao DNA das células. “Além disso, eles causam uma inflamação crônica no trato digestivo e alteram a microbiota intestinal, o que também causa danos a estrutura celular”, explica.
Um processo semelhante ocorre com o consumo de enlatados. Nesse caso, o fator de risco está na presença de Bisfenol A (BPA), componente utilizado na fabricação da resina epóxi que reveste a parte interna da lata. O aquecimento, resfriamento ou contato do recipiente com alimentos de pH ácido pode acelerar o processo de transferência de BPA para o alimento e, consequentemente, ingestão do composto cancerígeno.
Frituras e bebidas alcoólicas ou gaseificadas também contém aditivos que podem causar inflamações. Os refinados, como açúcar e farinha branca, também estão ligados ao crescimento de células cancerígenas quando consumidos em excesso.
Segundo o INCA, uma dieta rica em frutas, legumes, verduras e fibras protege as células e ajuda inclusive quem já passou pelo tratamento oncológico. Cinco porções por dia, 400 gramas no total. Menos drama, mais diversidade. No palco da saúde, o equilíbrio sempre leva aplauso.
O INCA disponibiliza em seu site uma área dedicada à alimentação e câncer. Lá é possível conferir dicas práticas, mitos e verdades, publicações e vídeos sobre o tema. O espaço também orienta pacientes que já tiveram câncer sobre como manter hábitos que reduzem o risco de retorno da doença. Acesse o site do INCA e confira.
“O consumo diário de 50 gramas de carne processada, o equivalente a uma salsicha, aumenta o risco de câncer colorretal em 18%” diz Maria Eduarda Melo, nutricionista do INCA.
A nutricionista enfatiza que quando se fala de “aumento de risco de câncer” associado a um determinado alimento, fala-se de consumo regular, e não da ingestão eventual. O relatório da Iarc ressalta que a relação entre carnes processadas e maior risco de câncer é dosedependente, ou seja, quanto maior o consumo, maior o risco.
No fim das contas, a discussão não é sobre cortar prazer, mas reescrever o roteiro. A cultura ensina que escolhas repetidas viram identidade. Seja no cinema, no teatro ou na mesa do camarim, talvez seja hora de trocar o embutido figurante por alimentos protagonistas. O público agradece. O corpo também. E o aplauso, esse sim, é de pé.







