Do Folk ao Tambor: Sandrera promove o “Mashup” Cultural que você não sabia que precisava
Iaiá, você vai a Penha?
Me leva, ô
me leva.
Se existe uma coisa que o capixaba entende, além da moqueca, é que a nossa cultura é uma mistura complexa. Imagine que o Bob Dylan resolvesse dar um rolê na Barra do Jucu, tomasse uma casquinha de siri e decidisse trocar a gaita por uma casaca. Parece loucura? Pois o músico Sandrera não só imaginou, como transformou isso em realidade com o lançamento do seu novo EP, FolKongo.
Prepare o seu fone de ouvido ou a sua caixa de som Bluetooth (essa é para os jovens), porque a partir de amanhã, 9 de janeiro, o algoritmo das plataformas de streaming vai ter que aprender a lidar com essa fusão entre o folk tradicional e o congo capixaba. Coisas novas: “O que é isso? Eu não sei, mas eu quero!”. E acho que você vai querer também.
Mas afinal, o que é esse tal de Folk? Então, antes de falarmos do banquete sonoro de Sandrera, vamos ao “arroz com feijão”. A música folk é aquele gênero raiz, que nasceu das histórias passadas de pai para filho, muitas vezes em volta de uma fogueira. É o som da natureza, das lutas sociais e do cotidiano, sempre acompanhado de instrumentos acústicos como o violão, o banjo e a gaita.
Nos anos 60, nomes como Bob Dylan fizeram o gênero explodir mundialmente. No Brasil, figuras como Zé Geraldo (o “Bob Dylan brasileiro”) e as melodias de Renato Teixeira e Almir Sater trouxeram essa estética para a nossa terra, misturando-a com temas rurais e indígenas. Atualmente, a galera do indie, como Vanguart e AnaVitória, mantém essa chama acesa com letras poéticas e aquele violãozinho maroto que todo jovem de apartamento adora dedilhar.
Folk em geral se baseia em um gênero enraizado no folclore, com canções tradicionais passadas oralmente, contando histórias do povo, mas, existem muitas evoluções e vertentes. O Folk Rock, por exemplo, apareceu artistas como Gilberto Gil, Raul Seixas e Caetano Veloso incorporaram o gênero na raiz, enquanto bandas como O Bardo e o Banjo e Vanguart mantêm a chama acesa. O Folk Psicodélico, é uma vertente que explora sons mais experimentais e tem ganhado força no Brasil. O Folk Contemporâneo, é uma geração mais recente, incluindo Mallu Magalhães, Tiago Iorc, Suricato, AnaVitória, Vitor Kley e OUTROEU, que trazem modernidade e diversidade ao gênero, com toques de MPB e pop.
Mas, isso é geral no Brasil, agora vamos falar mais de nós, sim, os Capixabas! Por que se o folk é a história do mundo, o Congo é a nossa certidão de nascimento. É o ritmo mais “pesado” e real do Espírito Santo. Esqueça o heavy metal; o Congo é resistência pura. Casaca, Tambor e Axé.
Madalena, Madalena
Você é meu bem querer
Eu vou falar pra todo mundo
Vou falar pra todo mundo
Que eu só quero é você.
Para quem é do samba, é praticamente impossível não ter ouvido “Madalena do Jucu”, imortalizada na voz de Martinho da Vila. E, é um dos exemplos que a cultura capixaba está difundida pelo Brasil. E se você acha que “mistura fina” é só o que o seu DJ favorito faz no festival de música eletrônica, prepare-se para o choque de realidade capixaba. Muito antes dos mashups do TikTok, o Espírito Santo já tinha inventado a colaboração mais épica da história: o Congo.

“Nessa caminhada, eu nunca estou sozinho, São Benedito vai abrindo o meu caminho.”
Essa frase, entoada pela banda Beatos de São Benedito na subida do Convento da Penha, resume o espírito da coisa. Para entender o Congo, você precisa conhecer a história do Navio Palermo. Imagine a cena: um navio carregando pessoas escravizadas naufraga na costa capixaba. No meio do desespero, os homens pediram socorro a São Benedito. Milagre ou destino, um mastro se desprendeu da embarcação e serviu de boia salvadora até a areia. Dessa “viagem não planejada” nasceu o ritual que a gente vê até hoje: a cortada, a puxada, a fincada e a retirada do mastro. É basicamente uma maratona da fé capixaba.
Como bom colunista capixaba (mais precisamente canela-verde), eu lhes digo: o Congo não é só barulho de tambor; é a resistência que deu certo. Como bem sabemos aqui no estado, o Congo não é apenas música; é um ritual de fincada, puxada e retirada do mastro. É a força do tambor e o som estridente da casaca (explicando leigamente, é aquele instrumento que parece um boneco sorridente que faz um som de ‘reco-reco’) Bandas como o Casaca (nome da banda inspirado no instrumento) já provaram que essa batida é inovadora e carrega a marca da nossa tradição para o mundo. No Espírito Santo existem cerca de 70 bandas do Congo registradas em várias regiões do Estado. Em 2014, o Conselho Estadual de Cultura (CEC) reconheceu o Congo como Patrimônio Imaterial do Espírito Santo.
“Ajuda eu tambor
Ajuda eu cantar
A meia noite eu vou embora
Tambor de Minas
Faz divisão com Carangola”.
Agora vamos ao assunto que estava em questão. O FolKongo será um encontro desses dois mundos. O mestre Sandrera, que já tem mais de 25 anos de estrada e vencedor do Prêmio Profissionais da Música 2025, decidiu que era hora de expandir as fronteiras. O EP FolKongo é uma fusão audaciosa. Imagine o violino, o banjo e a steel guitar (típicos do folk americano) sentando-se para uma conversa franca com o tambor e a casaca capixaba.
O projeto, contemplado pelo edital da Prefeitura de Vila Velha com recursos da Lei Aldir Blanc, traz quatro faixas que são verdadeiras pérolas:
- Iaiá, você vai a Penha?: Um clássico do Congo que toca em todas as rodas, e que ganha uma roupagem folk-pop de tirar o chapéu.
- Jongueiro Velho: Uma letra profunda sobre trabalho e a persistência da tristeza pós-escravidão, mas com um arranjo que te faz querer dançar.
- Ajuda Eu Tambor: Um clamor ancestral que agora ecoa entre cordas de aço e a batida de Carangola.
- Cria da Vila: A faixa autoral que sela o compromisso de Sandrera com suas raízes em Vila Velha.

“O FolKongo nasce da vontade de expandir minha linguagem, sem perder a essência”, destaca o artista.
Sandrera não caiu de paraquedas nessa roda de congo. Com turnês pela Europa (Noruega e França) e parcerias com nomes como Paulinho Pedra Azul e Maurício Baia, ele consolidou uma carreira múltipla, sendo o primeiro capixaba a vencer o prêmio nacional com o álbum Quase Hippie. Sua arte transita entre a literatura e a música, sempre com uma pegada poética e inclusiva. Ele entende que a cena cultural capixaba não nasce pronta; ela se constrói no apoio contínuo e na coragem de misturar o violão com a ancestralidade do tambor.
Valorizar cantores como Sandrera é entender que o Espírito Santo não é só um “corredor” entre o Rio de Janeiro e a Bahia. Somos território fértil. Quando um artista local sobe ao palco, ele carrega o sotaque de quem canta sem manual de sucesso, mas com muita identidade. Como dizia o mestre da comédia nacional Chico Anysio: “O talento é um dom, mas o sucesso é um trabalho de muitos”. No nosso caso, esse “muitos” inclui você, leitor, dando o play e compartilhando a nossa arte.
Dica de ouro: Não esqueça de fazer o pré-save. No mundo digital, o pré-save é o equivalente a chegar cedo na fila do show para garantir a grade. Ele gera antecipação e avisa aos algoritmos do Spotify que a música é relevante, ajudando o Sandrera a aparecer em playlists editoriais para o resto do mundo. Clique aqui e faça o pré-save do EP FolKongo!
Em Resumo da Ópera (ou do Congo, Folkongo): Sandrera prova que a tradição não precisa ser estática. Ela pode (e deve) — ser pulsante, altoastral, contemporânea e acessível. Ao unir o banjo ao tambor, ele nos lembra que a música é a linguagem universal que derruba muros e constrói pontes. Se você busca algo autêntico para sua playlist, o FolKongo é o destino certo. Na próxima vez que ouvir um tambor de congo, não apenas escute: sinta. É o batimento cardíaco do Espírito Santo que está ali, te convidando para a roda.
Que tal dar uma chance para o som da nossa terra hoje?








Amei o texto!! Já tô entrando para fazer a pré-save e apreciar as novas músicas do Sandrera. Viva a cultura capixaba!!!!
matéria linda que revela arte de qualidade para o mundo.