quinta-feira, 3 de abril de 2025

Os chips espanhóis entram na corrida tecnológica

A cooperação público-privada dá origem à Openchip, uma empresa que recebeu 111 milhões em ajudas dos fundos europeus Next Generation.

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Chegar atrasado a um setor nem sempre é sinônimo de fracasso no mundo do empreendedorismo. A Openchip, uma empresa público-privada fundada em Barcelona em 2021, aspira a ser a referência europeia em design de chips de última geração para indústrias como supercomputação ou inteligência artificial (IA). É assim que acreditam firmemente seu gerente, Marc Fernández, e o CEO da empresa, Francesc Guim. Mas também é assim que considera a União Europeia e o Governo da Espanha, que injetaram 111 milhões de euros dos fundos de recuperação econômica Next Generation por ser um projeto de “importante interesse comum europeu”. Guim, que trabalhou 17 anos na Intel — a segunda maior empresa do setor nos EUA, logo atrás da Nvidia — diz que a missão é desenvolver “tecnologia por e para a Europa”. Eles ainda não faturam (estão em fase de recrutamento), mas preveem que o primeiro protótipo esteja pronto em 2026 e calculam que se tornarão rentáveis apenas a partir de 2027.

O investimento inicial previsto no plano aprovado pela União Europeia (UE) é de 500 milhões de euros. Para conseguir os 111 milhões, levaram três anos, com negociações que começaram em 2021. Embora o projeto tenha sido aprovado em meados de 2023, chegaram apenas até janeiro de 2024. A concessão estava condicionada a apresentar garantias bancárias de 96 milhões de euros. “Já dá para imaginar como é fácil conseguir esse dinheiro”, relata com ironia Fernández. Para isso, contaram com o apoio do BBVA, Santander, CaixaBank, Bankinter e Banco Sabadell, além da ajuda da Generalitat da Catalunha por meio do Instituto Catalão de Finanças, que forneceu 25 milhões de euros em garantias.

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A sociedade acionária da Openchip se divide entre o público Barcelona Computing Center (BSC), que possui 46% do capital, e a catalana especializada em engenharia de sistemas e software, GTD, com 54%. A empresa é a quarta maior beneficiária dos fundos europeus na Catalunha, segundo dados do departamento de economia da Generalitat. Esta última deu outro impulso financeiro, desta vez de 10 milhões, no dia 21 de fevereiro passado.

Mas o que a Openchip irá oferecer a uma indústria que vai a toda velocidade? Eles querem projetar os dispositivos mais eficientes em consumo de energia, algo em que trabalham arduamente com gigantes como Nvidia, Intel ou Google. De fato, já cooperam com empresas para construir centros de dados que melhorem sua eficiência energética em entre 20% e 30%. Também trabalham na proteção de dados e na validação de modelos de IA, algo que “outras companhias normalmente não costumam levar em conta”, dizem ambos os sócios. A empresa aponta para o mercado de chips de última geração e se manterá à margem do mercado de primeira geração, como os que são usados em celulares ou carros. “Faremos chips semelhantes aos da Nvidia para supercomputadores como o MareNostrum [um dos computadores quânticos mais potentes do mundo]”, explica Guim.

Com isso, querem cobrir “o vazio” de oferta feito na Europa para atender clientes institucionais de mercados profissionais como computação de alto desempenho (HPC) e centros de dados, ou em setores como defesa e aeroespacial. Mas a Openchip ficará encarregada do design e da comercialização dos chips, enquanto a fabricação será subcontratada a terceiros. Já conversaram com fábricas em Taiwan (com o gigante TSMC), Europa ou Japão para decidir onde os produzirão e afirmam estar abertos a todas as opções, em um processo que conta com a participação do IMEC, um dos centros de pesquisa e desenvolvimento de semicondutores mais importantes da Europa, com sede na Bélgica. “Sempre que for possível fabricar na Europa, será feito. O que buscamos é a tecnologia mais avançada para oferecer produtos competitivos no mercado”, explicam.

Grandes investimentos

O investimento da empresa é imenso, algo característico do setor. No ano passado, começaram com cem funcionários e terminaram com 140. Preveem alcançar 250 trabalhadores até o final deste ano, e Fernández destaca que a maioria dos fundos está sendo utilizada para contratar os melhores profissionais. Em seguida, vêm a aquisição de propriedade intelectual e a compra das sofisticadas ferramentas necessárias para projetar chips; uma área que, segundo os especialistas do setor, recebe o maior investimento nas etapas iniciais de uma empresa desse tipo.

Os empreendedores estão cientes de que, ao receber fundos públicos, seus passos serão fiscalizados: “Recebemos dinheiro público e temos que gastar da melhor maneira possível e da forma mais eficiente”, destacam. E embora tenham montado toda a infraestrutura em 10 meses — a média usual é fazê-lo em 18 —, Fernández aspira que todos os atores envolvidos sejam conscientes da corrida que é necessária para alcançar em poucos anos o que outras empresas conseguiram após mais de 10 ou 15 anos de investimentos milionários.

E é que a regulamentação europeia, “embora garantista”, acreditam, pode se tornar uma barreira para a agilidade e competitividade no mercado global. “Provavelmente surgirá a necessidade de realizar tramitações urgentes que nos permitam competir com países como China e Estados Unidos, que têm menos regulamentações”, raciocinam. E concluem que “não se trata de lados políticos, mas da importância estratégica que um projeto dessa magnitude tem para a Europa”.

A Openchip já estabeleceu centros em países como Polônia, Itália ou Alemanha que funcionam como centros de atração de pessoal e de desenvolvimento tecnológico. “A ideia é ir onde está o talento, já que nem sempre é possível atrair todos os especialistas para uma única localização”, destaca Guim. É claro que, a médio prazo, o plano se baseia em três pilares: repatriar talento espanhol, atrair talento internacional e desenvolvê-lo em sua própria academia, a Openchip Academy, que colabora com universidades como a Complutense e a Politécnica de Madrid para formar em semicondutores. “Estamos criando uma equipe de primeira divisão, como se fosse a Champions dos semicondutores, com talentos que trabalharam na Google, Nvidia ou Intel”, concluem os sócios.

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