O filósofo Marcos Nobre, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e presidente do Centro para a Imaginação Crítica do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), participou de uma entrevista que abordou os dilemas da democracia brasileira, as novas tecnologias e os desafios enfrentados pela esquerda. Nobre, que é autor do premiado livro “Limites da Democracia”, fez uma análise profunda sobre os rumos atuais da política no Brasil.
A conversa ocorreu em um momento significativo, no dia em que o ex-presidente Jair Bolsonaro se tornou réu por tentativa de golpe de Estado. Nobre enfatizou a importância de responsabilizar os indivíduos suspeitos de comprometer a democracia, traçando um paralelo com os eventos que ocorreram nos Estados Unidos após os ataques ao Capitólio em 2021. Segundo ele, as instituições brasileiras estão cumprindo um papel crucial que não foi realizado na América, ressaltando as consequências da impunidade.
Bolsonarismo e Movimento Digital
O filósofo alertou sobre a relevância do bolsonarismo, mesmo diante da diminuição da mobilização popular. Nobre descreveu o “Partido Digital Bolsonarista”, um ecossistema político que opera fora das estruturas partidárias tradicionais, permitindo uma maior liberdade e evitando a prestação de contas à justiça eleitoral. Essa dinâmica, segundo ele, proporciona uma sensação de participação entre os apoiadores e complementa a atuação de partidos como o PL.
Na conversa, Nobre também fez alucionações à ascensão da extrema direita global, conectando os casos de Donald Trump e Jair Bolsonaro. Ele destacou que não se deve subestimar esses líderes, sugerindo que considerá-los como figuras folclóricas é um erro. Para Nobre, é crucial abordar esses personagens com a seriedade que merecem, dada a sua influência na reconfiguração da ordem mundial.
Desafios da Esquerda Brasileira
Nobre apontou que a esquerda brasileira ainda enfrenta o desafio de apresentar uma visão de futuro que contraponha a narrativa da extrema direita. Ele defendeu a necessidade de um programa de novo progressismo que seja formulado rapidamente, enquanto ainda existe espaço democrático e eleições a serem disputadas.
A fragilidade da coalizão que apoia o governo Lula também foi um ponto abordado. Nobre comentou sobre a chamada “esquerda à esquerda”, que, embora ainda minoritária tanto eleitoralmente quanto culturalmente, exerce um papel vital na elaboração de utopias. Ele acredita que é essencial que essa corrente progressista continue sua busca por alternativas que vão “completamente além da caixa”.
Para enfrentar os desafios atuais, Nobre propôs que sejam adotadas três frentes de ação simultaneamente: a defesa das instituições existentes, a formulação de um novo programa contra a extrema direita e a manutenção de utopias de longo prazo. Ele ressaltou a complexidade dessa abordagem, pois envolve tanto a defesa das instituições quanto a crítica à sua caducidade.
Nobre concluiu alertando que, diante da ascensão da extrema direita, que pode levar a um eventual autoritarismo, a hesitação não é uma opção. A democracia, segundo ele, está em risco, e ações decisivas são requeridas neste momento crítico.
O programa que apresentou essa discussão é transmitido toda terça-feira, às 23h, na TV Brasil e está disponível no aplicativo TV Brasil Play e no YouTube, além de ser veiculado nas rádios Nacional FM e MEC.