Há um tempo assisti um vídeo no canal de YouTube “Mais um pouco (por PH Santos)”, que trazia uma reflexão sobre estar online e offline. Vale a pena ver o vídeo, que é um corte da live do PH Santos, o vídeo está com o nome “quando estaremos offline? + smartphone na escola, sim ou não?”.
Os pontos da reflexão que me chamaram a atenção foram o sobre “estar disponível e esperar que os outros estejam disponíveis o tempo todo”, em como o online habita em nós e como somos robôs perfeitos, conectados diariamente sem acabar com a nossa bateria.
Começando pelo estar disponível. Você já saiu de casa e esqueceu o celular? Lembra como se sentiu? Ou talvez já procurou o celular e estava com ele na mão e nem percebeu? Poderia fazer outras perguntas voltadas ao uso de celular que, convenhamos, está no nosso dia e que molda o nosso comportamento/relações.
Esse é o “online que nos habita”, esperar que te respondam rápido no WhatsApp, que fulano precisa atender a ligação não importa o que ele estiver fazendo, que nos faz explicar porque não respondemos a mensagem no mesmo minuto, que nos faz olhar as notificações esperando uma resposta importante, e tantas outras situações que parecem “normais” nas nossas vidas. Falando um pouco do que o PH Santos fala no vídeo, ele relembra como era a comunicação online nos primórdios do MSN, não era possível conversar com seu amigo (a) se ele(a) não estivesse online, mas agora estamos o tempo todo com a ferramenta que permite estarmos conectados 24 horas por dia: o celular.
Há uns bons anos adotei o modo silencioso do celular como padrão, se puder responder, responderei, se não fica para depois. Observei recentemente como estar longe do celular pode ser algo libertador, ao ponto de não ter nada melhor do que falar que vou sair e não que levarei o celular. É o que o PH Santos pergunta no vídeo, “quando ficaremos offline?”.
Se você procurar dicas de como ler mais, como ter mais foco para estudar, geralmente a primeira dica é não estar com o celular, de preferência desligar o celular. A mesma dica serve para dormir melhor, mas adianta desligar o celular e dormir de smartwatch? Ou adormecer em frente a televisão? A tecnologia deveria estar em algumas partes da nossa vida, ou seja, limitada, mas não é isso que vemos e fazemos.
Existem diversos estudos sobre o uso de celulares e redes sociais, tanto na infância como na vida adulta. A Lei nº 15.100/2025 que proíbe o uso de celulares nas escolas é um exemplo que tenta frear algo que já saiu do controle há um tempo. Há quem estude e comprove cientificamente que a tecnologia, se usada “[…] de forma consciente e com orientação adequada, é possível trazer inúmeras vantagens no desenvolvimento da criança”, do mesmo modo que outros investigam “[…] as possíveis consequências da exposição indiscriminada de crianças e adolescentes as redes sociais e internet, o papel da família e da escola na proteção das crianças e dos adolescentes diante desta exposição a que estão sujeitos diariamente”. As aspas são de estudos sobre uso de celulares e redes sociais na infância e adolescência, com focos e objetivos totalmente diferentes. O primeiro sendo de uma dissertação para Especialização na Universidade Federal de Juiz de Fora, de Jussara Nazaro da Silva, intitulado de “Uso das tecnologias na primeira infância: promovendo os benefícios da cultura digital”. E o segundo um artigo publicado em 2015 na Revista Ambiente Acadêmico, de 4 autores, intitulado “Da infância à adolescência: o uso indiscriminado das redes sociais”.
Já estudamos as consequências da tecnologia na vida de crianças, adolescentes e adultos. O tema é instigante, interdisciplinar, vai da medicina à psicologia e educação, mas ainda assim a tecnologia nos molda mais do que moldamos ela. Se você viveu antes da era dos celulares, você talvez se lembre do Orkut, como criávamos comunidades para conversar com pessoas diferentes sobre assuntos em comum, ou de como o Facebook começou para conectar amizades, ou de como era conversar pelo MSN. No fim, para estar nesses lugares era preciso ligar o computador, estar realmente disponível e disposto encontrar seus amigos ou fazer novas amizades. Percebe como antigamente era quase que um encontro com amigos, igual marcar para encontrar amigos num bar pessoalmente. Hoje não temos mais essa dinâmica. As relações são líquidas, como diria Zygmunt Bauman, filósofo e sociólogo polonês que tem extensa bibliografia sobre a “liquidez” no mundo moderno. Um dos relatos de Bauman exemplifica muito bem a virada nas nossas relações: “Um viciado em Facebook se gabou para mim, dizendo que ele havia feito 500 amigos num dia. Minha resposta foi que eu tenho 86 anos, mas não tenho 500 amigos, então presumidamente, quando ele fala ‘amigo’ e quando eu falo ‘amigo’ nós não estamos querendo dizer a mesma coisa”.
Para além das amizades, parte da reflexão do PH Santos e a que discorro aqui, se resume em comportamento humano. O celular é útil? Sim, mas tem suas consequências. Na vida adulta o celular é uma obrigatoriedade. Ou você anda com dinheiro como os incas, os maias e os astecas? Não é assim que falam quando tentamos pagar com dinheiro em papel? Hoje é pix, cartão digital e carteiras virtuais. Não conseguimos sair de casa sem o celular, pra pegar um uber, pagar um pão na padaria, para conhecer pessoas novas, para responder parentes e amigos, para postar foto na academia e qualquer outra coisa que colocamos como “essencial” na vida. Como vivíamos antes?
Para começar a concluir essa reflexão, queria trazer o paralelo da reflexão final do PH Santos com a música The emptiness machine do Linkin Park. Na reflexão do PH nos tornamos os “robôs perfeitos”, estando conectados 24 horas por dia, não precisamos carregar nossa bateria, fechamos os olhos para dormir, mas nunca estamos realmente offline, talvez por dormir com um despertador no celular ou por dormir com um smartwatch, nos tornamos cada vez mais máquina e menos humanos. Juntando com The Emptiness machine, muito se teoriza sobre o que é a emptiness machine (máquina do vazio) na música do Linkin Park, tem alguns trechos da música que dizem: “já está sob a minha pele”, “desisti de quem eu sou para ser quem você queria”, “seduzido pela promessa da máquina do vazio”, “eu só queria fazer parte de alguma coisa” (tradução livre). Será que nós, como “robôs perfeitos”, não somos seduzidos pela “máquina do vazio” que é o celular e as redes sociais? Buscamos conexões humanas genuínas e profundas, mas no fim são relações líquidas e passageiras, nada mais do que promessas vazias e etéreas que nos individualiza, nos dividem em bolhas para tentar pertencer a um grupo, tirando do nosso âmago aquilo que nos faz agir como humanos.