Durante uma viagem a trabalho para gravar um vídeo institucional, fui parar em uma pousada em Mimoso do Sul. Um lugar simples, mas carregado de um afeto tão genuíno que, já no primeiro dia, parecia que não estávamos apenas sendo recebidos — estávamos sendo adotados. A dona do local nos acolheu com uma hospitalidade tão autêntica que dava até vergonha; nos tratou como se fôssemos amigos queridos de longa data. O desconcerto foi inevitável.
Após uma manhã corrida contra o tempo, cheia de câmeras e ângulos aparentemente impossíveis, ela nos convidou para almoçar com ela e seu esposo. Parecia um convite casual, mas logo descobrimos que estávamos sentados em um lugar especial: a mesa da casa dela. Não qualquer mesa, mas a mesa. Algo reservado ao cotidiano da família. Sim, foi mais um momento para nos sentirmos constrangidos por tamanha generosidade.
Foi então que ele chegou. O marido dela, um homem de olhar calmo, sorriso sincero e uma voz envolta em uma serenidade pesada de significado.
E foi ali, em uma mesa retangular e aconchegante, numa quarta qualquer que deveria ser como tantas outras, que Deus se sentou à mesa. Só que Ele não veio com trombetas, raios ou luzes cegantes. Veio com um sotaque da roça, calmo e sereno, sem pressa. Comeu arroz, feijão, salada e, de sobremesa, dividiu conosco uma banana com canela. A leveza do momento foi a epifania que eu não sabia que precisava.
Conversamos por horas. Ele nos ensinou o básico da vida – aquele tipo de coisa que só alguém muito sábio entende que precisa ser dito, porque a gente vive esquecendo. Ele trouxe uma gratidão devastadora, a esperança que eu achava perdida, um senso crítico afiado e, ao mesmo tempo, acolhedor. Trouxe também um despertar de algo que parecia estar adormecido há muito tempo, o amor genuíno, o brilho feroz da comunidade e uma luz difícil de descrever, impossível de não sentir.
Ele olhou nos meus olhos, com precisão quase cirúrgica, e respondeu àquilo que havia me perturbado nos últimos dias, meses, talvez anos. Foi como se ele lesse direto na alma, sem nem pedir licença.
Se você me perguntar como alguém assim chegou àquela mesa ou como aquela conversa nos levou a um nível tão profundo, eu sinceramente não saberia responder. Só sei que algo nele fazia parecer que nunca tinha saído dali. Ele era parte implícita, uma presença que não precisou de explicação.
Foram olhares amáveis, palavras reconfortantes e um papo aparentemente “aleatório”, que foi envolvendo, como quem não quer nada, até que Deus resolveu conversar comigo.
Foi numa quarta-feira discreta que eu tive a honra de ser vista pelo divino. Não sei se esse homem tem conhecimento do que foi responsável, mas espero que um dia saiba que tocou meu coração.
E não, este texto não é sobre religião. Isso aqui é sobre graça. Aquela graça silenciosa que brota entre os engasgos do dia a dia, nos momentos em que somos capazes de parar e perceber. Perceber as pessoas que carregam luz, que cruzam nosso caminho e, muitas vezes, reinventam nossas certezas.
A graça de encontrar seres iluminados.
Lindo texto! cheio de sentimentos. Deusbtca nas coisas simples.
valeu tropa
Por mais textos assim.
espetacular, parabéns!
Texto imersivo e com a veracidade que somente a experiência pode nos fornecer, continue com suas emoções e não deixe nunca seu senso crítico de lado, parabéns!