Ver um filho ingressar em uma universidade pública é uma conquista que transcende a realização pessoal. É um reflexo de investimento familiar, dedicação e, muitas vezes, da superação de diversas barreiras sociais e educacionais. Recentemente, vivi essa experiência de forma intensa com meu filho mais velho, Guilherme, que foi aprovado no curso de Sistemas de Informação da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Essa vitória nos fez refletir sobre a importância da educação pública e os desafios que famílias brasileiras enfrentam para torná-la acessível a seus filhos.
Enquanto mãe e servidora pública da UFES, sinto-me profundamente conectada a este êxito. Guilherme cresceu praticamente dentro da universidade, acompanhando minha rotina, visitando exposições, indo ao teatro e vendo de perto o impacto que uma instituição de ensino pode ter na vida das pessoas. Ele sempre verbalizou o desejo de estudar na UFES, e sua escolha pelo curso de Sistemas de Informação foi pautada por uma paixão genuína pela tecnologia, desde os primeiros contatos com jogos de computador e pesquisa online.
A caminhada até essa conquista, no entanto, não foi fácil. Guilherme concluiu o ensino médio em uma escola pública, onde enfrentou dificuldades que hoje são parte da realidade de muitos jovens. O terceiro ano foi especialmente desafiador, com reclamações constantes de uma estrutura que muitas vezes não consegue dar o suporte necessário para uma preparação sólida de quem sonha com o ensino superior. Por outro lado, nós, como pais, buscamos oferecer incentivo constante e um ambiente familiar que valorizasse o estudo. Aqui em casa, livros nunca faltaram, e o exemplo de pais que continuam estudando certamente teve um impacto positivo. Contudo, fica evidente que essa é uma realidade privilegiada e distante de muitas famílias.
A comemoração da aprovação foi intensa, marcada por abraços, lágrimas e uma alegria difícil de descrever. Mas, enquanto celebramos, não pude deixar de pensar nos amigos de Guilherme, que não tiveram a mesma oportunidade. Alguns nem sequer tentaram o ENEM, pois precisaram entrar no mercado de trabalho para ajudar no sustento da família. Este contraste é um retrato doloroso das desigualdades estruturais no Brasil.
Como supervisora de análise de renda para alunos cotistas na UFES, trabalho diretamente com políticas de inclusão como o sistema de cotas, que desde 2012 tem aberto portas para estudantes de baixa renda. Contudo, percebo diariamente que apenas isso não é suficiente. Muitos jovens abandonam o sonho do ensino superior antes mesmo de começar, devido à falta de incentivos financeiros ou materiais. Precisamos de políticas públicas mais robustas e específicas para apoiar estudantes do ensino médio em momentos decisivos, garantindo que estudar seja uma prioridade viável e não um privilégio.
A educação é o principal mecanismo de ascensão social que temos, e seu impacto não se restringe ao indivíduo aprovado. Ela transforma famílias, comunidades e, em última instância, o próprio país. Como sociedade, precisamos urgentemente fortalecer as bases do ensino público para que histórias como a de Guilherme não sejam exceções, mas sim a regra.
Por fim, incentivo a todas as famílias que sigam acreditando e apostando nos sonhos de seus filhos, oferecendo apoio, mesmo nas adversidades. E faço um apelo às autoridades e lideranças: invistam mais na juventude do Brasil. Com oportunidades iguais, nossas crianças e jovens poderão alcançar um futuro melhor e construir um país mais justo e próspero para todos.