Resposta: Sim! E posso te provar como o termo “doutrinação cultural” é distorcido para vender mercadoria cristã. Recentemente descobri um esquema, que consiste em ligações entre perfis nas redes sociais e canais no YouTube, que criam uma rede de conteúdo que parece “cristão”, mas te leva para a venda de cursos de políticos evangélicos de extrema-direita. E nada disso é escondido ou ilícito, tá em todas as redes sociais, visível para quem quiser consumir ou para quem for pego desavisado em algum anúncio.
Mas vamos para a minha historinha, de como eu cai nessa rede. Estava procurando músicas novas para o coral da igreja, até o YouTube me recomendar um vídeo sobre saúde mental, o título me chamou a atenção e fui assistir. Não citarei o tema, porque não quero divulgar o canal. O vídeo era um tanto genérico, não continha nada novo que não soubesse e que uma terapia já não revelasse.
Mas sempre tive uma pulga atrás da orelha. Quem é essa pessoa do vídeo? Porque tava nos recomendados? Ainda mais por ser um canal com poucos vídeos e um número estranho de seguidores, geralmente canais assim não são recomendados, pelo menos não sem investimento por trás. Pesquisando, achei o Instagram e mais 1 arroba associado ao perfil. De perfil em perfil, a princípio o que me pareceu repartições de uma instituição, foram vários arrobas linkados nesses perfis, até cair num perfil que não vou citar o nome porque não dou ibope pra coisa ruim, e esse perfil “primordial” evangélico era ligado ao Nikolas Ferreira.
Me perguntei, já sabendo a resposta: Como um canalzinho, com menos de 50 vídeos é recomendado? E como o perfil deste canal tem mais 300 mil seguidores? E organizações religiosas com perfis tendo mais de 39 mil seguidores, sendo que cada perfil nem tem 20 posts? Se você acha que não tem investimento com interesses políticos, utilizando da sua crença, pra te vender o que o Nikolas Ferreira pensa, então você precisa conhecer algo chamado algoritmo. É melhor do que qualquer vendedor, o algoritmo sabe exatamente o que te mostrar para captar sua atenção e te vender alguma coisa, que não precisa ser um produto ou serviço, pode ser uma ideologia. Mas será que se eu não tivesse pesquisado, teria descoberto?
Que a extrema-direita sabe muito bem como utilizar as redes sociais para estar em evidência, nem que seja só para falar de polêmica e de algum jeito não perder relevância, que é o famoso “fale bem ou fale mal, mas fale de mim”, isso é óbvio, é só conferir os resultados das últimas eleições municipais. Em outro artigo explico como o investimento é um dos pontos principais para um candidato ganhar uma eleição, e adivinha quais candidatos mais recebem investimento. Assim como o candidato que mais recebe investimento tem mais facilidade para conquistar votos, o mesmo acontece em criar uma rede de vários perfis, que aparentemente não parecem políticos, para investir neles e cercar as pessoas com conteúdos esvaziados, captar a atenção, criar uma sensação de grupo, para no fim vender qualquer coisa, mesmo que seja lixo.
Onde mora o problema nisso, se você se considera cristão? Para responder isso, é preciso dizer que não existe cristão sem política, ou seja, cristão e política se misturam, independente da polarização. O problema mora quando tentam vender discurso de ódio, com requintes de ideologia dominante, maquiado de “doutrinação cultural”. E se você é cristão, vão existir instituições religiosas que tentam te vender esse mesmo produto podre, só que para te convencer utilizam da sua fé e muitas vezes da ignorância sobre o evangelho.
E infelizmente, quem tem uma “ferramenta religiosa” nas mãos e não tá nem aí para a tua fé, o interesse sempre vai ser econômico. Só para lembrarmos: poder econômico é poder político.
Tem que ser muito “safo”, ou para quem gosta de Bíblia, tem que ser sagaz como a serpente para não cair no canto da sereia, e ele vem de todos os lados, até se você está procurando ter saúde mental. Tem que pesquisar, porque você pode se deparar com personalidades ou organizações anti-vida, e mesmo que falam de saúde mental, acaba por virar uma pauta esvaziada, individualizada e que você que se vire para melhorar, como se saúde mental também não fosse sobre viver em comunidade e que também é uma luta coletiva. Afinal, ninguém vive sozinho.
Me permita a comparação. Assim como Jesus saiu chutando as mercadorias dos vendedores em volta do templo em Lucas capítulo 19 versículos 45 ao 48, por estarem fazendo a casa de Deus um comércio, me senti do mesmo modo quando descobri uma rede religiosa para espalhar discurso de ódio, ou para vender cursos sobre como ser cristão… E parece besta, quem não sabe o que é ser cristão? Mas o foco não é esse, o foco desse caso específico era falar sobre doutrinação cultural. E desde quando o Reino de Deus tem alguma coisa haver com doutrinação cultural? Ou melhor, desde quando o Reino de Deus concordou com o modo do mundo? Vivemos no capitalismo neoliberal, sabemos pela vivência que esse sistema é um fracasso, as pessoas ainda passam fome, há violência e todo tipo de atrocidade. Infelizmente é assim que funciona o jogo do neoliberalismo, a regra é que quem tem dinheiro manda no jogo.
Organizações, instituições e personalidades podem ter as melhores das intenções, mas se já foram cooptadas por interesses individuais, então tudo o que sair dali será para benefício próprio. Não tem nada que justifique exploração do homem pelo homem, não é natural, é uma imposição, e de muito tempo pra cá é uma imposição por quem detém o capital (leia-se dinheiro). E só para lembrar de Jesus, porque cristão tem que seguir Cristo: “Disse, então Jesus aos seus discípulos: Em verdade vos digo que é difícil um rico no Reino dos céus. E outra vez vos digo que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no Reino de Deus” Mateus 19: 23-24.