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Música e IA

Você deve ter visto o comercial da Volks com a Maria Rita e uma Inteligência Artificial – IA da Elis Regina cantando Como Nossos Pais. Muita gente se emocionou (o que significa que a propaganda cumpriu o seu papel), muita gente se incomodou.

Entendo perfeitamente quem se emocionou. São várias memórias, e a música obviamente é maravilhosa. Mas a coisa é amarga em diversos níveis.

É a Volks, que colaborou com a ditadura civil-militar e o regime nazista (são fatos históricos, documentados, não opiniões minhas).

É a Elis, que foi perseguida pela mesma ditadura que a Volks apoiou. À luz de uma entrevista desencavada recentemente, em que Elis ressalta sua clara posição de esquerda, adiciona-se novo grau de estranhamento.

E é Como Nossos Pais, um libelo contra, basicamente, tudo que está encapsulado naquele comercial.

Essa não é uma crítica ludista (embora eu ache que os ludistas são mal interpretados). Mas acho importante refletir sobre o tema.

Young Guru, engenheiro de som do JAY-Z e uma das figuras mais ligadas em inovações tecnológicas da música contemporânea, ressaltou em entrevista ao site Okayplayer que inteligência artificial já é utilizada, como quando se altera o pitch de um instrumento ou voz.

Mas criticou um grande produtor, Timbaland, que disse que sempre teve o sonho de trabalhar com o falecido rapper Notorious Big, e usou IA para reproduzir a voz dele.

Além de ressaltar a óbvia breguice da coisa, Guru ressaltou o quão perigoso isso é. Um cara aberto às tecnologias, mas refletindo criticamente sobre elas.

Não existe música sem inovação tecnológica. Uma árvore não toca fagote, o mar não toca pandeiro e o vento não sampleia aquele disco de vinil.

Mas a IA, utilizada da forma que temos visto, desumaniza. Claro que ainda há muito a se evoluir nesse campo, que pode ser disputado. E, justamente por isso, acho importante refletir sobre e debater a questão.

Discute-se o início do Antropoceno, mas ele está aí; justo quando a nossa marca é detectável no planeta (e isso não é bom), vamos nos excluir da arte, uma das coisas que torna a existência suportável?

Em tempo I

O Armand Hammer, duo formado por billy woods e E L U C I D (os nomes são escritos assim mesmo), anunciou novo disco e soltou o primeiro single.

A paulada Trauma Mic é produzida pela maravilhosa DJ Haram, e traz o rapper-produtor-cantor-fodão Pink Siifu aos berros. A faixa ainda conta com uma guitarra tocada ao vivo, prenúncio da participação de diversos músicos nessa nova faceta da dupla.

O disco, We Buy Diabetes Test Strips, sai dia 29 de setembro (um dia antes do meu aniversário, então já fica a dica) pela Fat Possum.

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João Paulo Oleare
João Paulo Oleare
João Paulo Oleare é jornalista e radialista, viciado em música e livros

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